Eliud Kipchoge é o atual campeão olímpico e recordista mundial da maratona, além de ser o único homem a correr os 42.195 metros abaixo de 2 horas. Embora a técnica de corrida seja bastante individual, há muito o que aprender observando grandes campeões como ele. Analisando sua corrida, quatro aspectos técnicos merecem destaque:
1. Contato dos pés na aterrissagem
Kipchoge aterrissa com o médio-pé, ao contrário da maioria dos amadores, que aterrissam com o calcanhar. Diferentemente dos velocistas, ele toca o solo levemente com os calcanhares, maximizando o aproveitamento da energia elástica da panturrilha, o que aumenta o impulso e a economia de corrida.
2. Ponto de aterrissagem dos pés
Uma referência importante é o centro de massa (ponto abaixo do umbigo). Muitos corredores, mesmo de elite, aterrissam bem à frente do quadril, ultrapassando essa linha — o chamado overstride. Em Kipchoge, o ponto de aterrissagem é bem próximo ao centro de massa, o que lhe dá grande vantagem biomecânica, tanto em eficiência quanto em prevenção de lesões, pois aumenta a cadência e diminui o tempo de contato com o solo.
3. Cadência e tempo de contato com o solo
Quanto maior a velocidade, maior a cadência (passos/minuto). Enquanto amadores percorrem a maratona com cadências de 160 a 170 passos/minuto, atletas de elite chegam a médias de 180. No recorde mundial de Kipchoge (2:01:39, Berlim, 2018), observa-se cadência média de 185 passos/minuto e passada de 1,90 m — o equivalente a 22.505 passos na maratona. A alta cadência reduz o tempo de contato com o solo e favorece a transferência de energia.
4. Ação dos braços e rotação do tronco
Sempre ouvimos que os braços não devem cruzar a linha média do corpo — isso é um grande mito. Devemos estar mais atentos ao movimento do tronco. Kipchoge cruza, sim, os braços à frente do corpo, mas realiza uma rotação suave do tronco, que equilibra a ação das pernas e da pelve.
É evidente que o desempenho na maratona é multifatorial, mas, sem sombra de dúvidas, a técnica de corrida tem um papel importante.
Paulo Cezar Marinho — Doutor em Ciências do Esporte (Unicamp) e biomecânico.