17 anos da Maratona de Atenas. Uma das imagens mais emblemáticas do esporte brasileiro completa 17 anos: o momento em que o ex-padre Cornelius Horan empurrou Vanderlei Cordeiro de Lima para fora da pista, quando ele liderava a Maratona dos Jogos de Atenas, em 2004. Medalhista olímpico, bicampeão pan-americano, campeão da Maratona de Tóquio e recordista da de São Paulo, o paranaense é o entrevistado desta edição.
Já são 17 anos da Maratona de Atenas. O que vem à sua mente ao lembrar daquele dia?
Depois de 17 anos, é muito gratificante reviver um momento tão esperado. No decorrer da prova eu estava muito seguro, sabendo que, em Atenas, tinha a grande oportunidade da minha vida de conquistar a medalha. Foi memorável não só para mim, mas para o atletismo e o esporte brasileiro, e ficou marcado justamente na cidade da criação dos Jogos Olímpicos.
No momento em que Horan te empurrou para fora da pista, consegue descrever o que passou pela sua cabeça?
Foi muito rápido, algo que eu não esperava. Mas, independentemente daquela situação, o mais importante foi o foco, a concentração e a determinação daquele momento — foi isso que me permitiu sair da situação e voltar a correr. Eu estava na liderança e continuei em primeiro até quase o km 39. A estratégia não mudou: sempre acreditei no trabalho que estava fazendo.
Dá para dizer que a medalha de bronze tem gostinho de ouro?
É muito mais do que isso. Ela superou tudo, não só pelo momento, mas pela maneira como foi conquistada. Para mim, pela minha busca e dedicação, foi mais do que ganhar um ouro. Acredito que essa medalha não tem cor: ela tem caráter.
Como foi reencontrar o grego Polyvios Kossivas, que te ajudou no momento do ataque?
Ele veio ao Brasil a convite do Comitê Olímpico Brasileiro. Foi uma grata surpresa, inesquecível. Mesmo sem falar a mesma língua, pelo olhar e pelo gesto deu para sentir a comunicação imediata de agradecimento. Se ele não tivesse visto, talvez eu teria perdido muito mais tempo. Foi um anjo da guarda no meu caminho.
Você recebeu a Medalha Pierre de Coubertin e foi eleito o atleta do ano de 2004. Duas homenagens que valeram o ouro “perdido”?
Ser condecorado com a Pierre de Coubertin — concedida a apenas seis atletas na história — foi inesquecível e inesperado. É o reconhecimento que o atleta busca na carreira. Não substitui o ouro, mas tem um gostinho de reconhecimento muito gratificante.
Em 2014 você recebeu o Troféu Adhemar Ferreira da Silva e, em 2016, acendeu a pira olímpica no Rio. Como foram esses momentos?
Receber o Troféu Adhemar Ferreira da Silva, a maior honraria do COB, foi extraordinário. E acender a pira no Maracanã foi marcante: quando peguei a tocha e comecei a subir cada degrau, foi como reviver cada momento da minha carreira e da minha vida. Pensei: “valeu a pena lutar, persistir e buscar meus objetivos”. Nada foi por acaso — tudo foi construído com dedicação, caráter e respeito.
E os dois ouros pan-americanos (Winnipeg 1999 e Santo Domingo 2003)?
Foram marcantes, planejados junto com meu treinador Ricardo D’Angelo. O bicampeonato em Santo Domingo, sob calor e umidade, foi a prova mais difícil que corri na vida — usei meu limite para chegar ao final.
Quais outras marcas você destaca?
A melhor marca foi em Tóquio: 2h08min31 (1998), que me colocou entre os melhores do mundo e onde tive grande reconhecimento do povo japonês. Outra prova marcante foi a Maratona de São Paulo, em 2002 (2h11min19, melhor tempo de uma maratona corrida no Brasil) — a primeira que corri em território brasileiro.
Em 2008 você fundou o Instituto Vanderlei Cordeiro de Lima. Um sonho realizado?
Foi uma grande realização, uma ideia com o Ricardo para retribuir o que o esporte me proporcionou. Proporcionamos transformação de vida a crianças por meio do esporte. É um grande legado que deixo.
Na infância, seu sonho era o futebol, mas a corrida te conquistou ainda adolescente. Como foi essa descoberta?
No ambiente em que eu vivia só havia o futebol, nas peladas de fim de tarde. O contato com o atletismo veio na escola, por um professor de educação física, numa seletiva para representar a escola. Peguei carona no esporte para viajar e conhecer lugares — e descobri que era muito mais do que isso. A corrida abriu um leque de oportunidades para transformar a minha vida.
Você tinha algum ídolo?
Minha maior inspiração foi o Joaquim Cruz. Quando o vi na televisão dando a volta olímpica e conquistando o ouro nos 800 m em Los Angeles (1984), aquilo alimentou meu sonho olímpico.
Qual foi o momento mais difícil da sua vida de atleta?
A maior dificuldade é a insegurança — não saber o dia de amanhã, uma carreira incerta. O momento mais difícil foi o início, pela falta de apoio, incentivo e estrutura. Mas são provações que nos tornam cada vez mais fortes.
Qual o maior momento da parceria com o Ricardo D’Angelo?
O Ricardo foi mais do que treinador: amigo, conselheiro e “psicólogo” nos momentos difíceis. Crescemos juntos. Sem dúvida, o momento mais marcante dessa parceria foi a conquista da medalha olímpica de Atenas.
Que mensagem você deixa para quem escolheu a corrida como estilo de vida e tem a maratona como foco?
A corrida sempre foi tudo para mim. Hoje ela é um estilo de vida, e quem a busca se torna uma pessoa cada vez melhor. Para quem tem a maratona como foco, o importante é fazer um planejamento para ter uma vida longa dentro do esporte: competir pouco, competir com qualidade e buscar seus objetivos.