“Veste a manhã,
Como um véu de noiva,
Névoa de inverno…”
Denicelis Fonseca
Um haicai é um tipo de poema curto de origem japonesa com três versos caracterizada pela simplicidade, brevidade e foco num único instante, como se fosse uma fotografia. Busca frequentemente retratar um momento da natureza e capturar a beleza e transitoriedade do momento presente.
Nós corredores, principalmente mais ao sul do país, já experimentamos essa sensação de acordar e sair para correr no inverno. É sair sem titubear, cumprir a planilha. No início, difícil. Porém, logo fica confortável e, em seguida, o desafio é vencido. Com o passar dos tempos, acostumamo-nos com esse ritual. Este é um exemplo do que limitações que um clima frio impõe. Na odontologia situações relacionadas ao frio também acontecem. O tema sensibilidade nos dentes, por exemplo, é mais frequente num clima mais frio, embora sua manifestação independa das estações do ano.
Quem de nós não experimentou sentir dor quando come algum alimento ou ingere alguma bebida gelados ou mesmo ao escovar os dentes pela manhã com água? No inverno, mais ainda, devido a temperatura da água. Durante o contato com água gelada, alguma vez você sentiu uma dor localizada, aguda e passageira? Para os corredores, no inverno é possível sentir os dentes sensíveis também ao correr durante a respiração. Se no inverno precisamos tomar algumas providencias para correr de forma a não passar muito frio, como usar gorros, luvas corta-vento e calças compridas, para os casos de sensibilidade dental, ou melhor, hipersensibilidade (termo técnico), nós também devemos buscar alguma proteção.
Para tal é preciso entender os mecanismos dessa dor que é passageira, mas incomoda. A hipersensibilidade dentinária é a sensibilidade exagerada da dentina quando exposta ao meio bucal, que se torna permeável a ação de estímulos externos. Têm como peculiaridade ser uma dor aguda e passageira causada por estímulos como calor, frio, alimentos ou ao toque. A característica da dor é um dado muito importante para diferenciarmos de outras patologias como cárie ou inflamação do “nervo” do dente, que pode levar a necessidade de tratamento do canal. Também pode ser causada por possíveis trincas dentárias.
O local de origem da dor na hipersensibilidade é a margem do dente próxima da gengiva, em especial onde ocorreu uma retração gengival. No entanto, algumas considerações devem ser feitas: nem toda retração gengival é sensível, e a extensão dessa retração pode ou não estar relacionada a sensibilidade. Em geral, pequenas retrações costumam ser bem mais sensíveis).
Existe no mercado uma série de produtos de higiene oral que atuam no alívio e na diminuição da hipersensibilidade. Os dentifrícios específicos para esse tipo de problema têm dois mecanismos de ação. Um deles é o de ação neural em que agem despolarizando as fibras nervosas e assim bloqueando o impulso nervoso. Os dentifrícios com este mecanismo de ação contêm citrato de potássio ou nitrato de potássio em sua formulação, e podem precisar de duas a quatro semanas de uso para produzirem algum efeito. Porém, o efeito é interrompido quando o produto deixa de ser usado. O outro mecanismo de ação é o da obliteração das superfícies expostas, vedando e, de certa forma, impedindo que os estímulos sejam percebidos. Esses cremes dentais normalmente têm uma ação mais rápida. São exemplos de componentes que promovem esse vedamento da dentina: fosfosilicato de cálcio e sódio, arginina com carbonato de cálcio, acetato de estrôncio, fluoreto estanhoso, nanohidroxiapatita, tricálcio fosfato, silicato de cálcio com fosfato de sódio.
Com relação ao tipo de estímulo (táctil, jato de ar ou frio) os dentifrícios que têm fosfosilicato de cálcio e sódio são relativamente efetivos para os três tipos de sensibilidade. Já os dentifrícios que contêm fluoreto de estanho são efetivos para estímulos com jato de ar e tátil; os sais de potássio reduziram a sensibilidade provocada por estímulo tátil e, se combinado à hidroxiapatita, por jato de ar também. A arginina combinada a hidroxiapatita, foi efetiva na redução da sensibilidade causada pelo jato de ar. Os dessensibilizantes que contêm estrôncio em sua fórmula têm efeito benéfico em relação ao estímulo tátil. Os dentifrícios que têm fosfosilicato de cálcio e sódio ou fluoreto estanhoso parecem resistir melhor aos desafios ácidos como refluxo, consumo de géis ou bebidas ácidas.
Assim, se você corredor tem algum tipo de sensibilidade ao frio com alimentos, líquidos ou ar, ou mesmo táctil durante a escovação, procure identificar com o seu dentista a origem dessa dor passageira, mas desconfortável. Conhecer um pouco dos tipos de dentifrícios e seus componentes pode ajudar na sua escolha. Bons treinos e corridas.
Para finalizar um Haicai do Paulo Leminski:
Cortina de seda
O vento entra
Sem pedir licença
Colaboração: Ana Chapper

