Vencedor da Maratona Internacional de Porto Alegre 2025, o atleta revela como mantém o foco, a disciplina e a paixão durante os treinos de inverno — e por que ainda está só começando.
No pódio da Maratona Internacional de Porto Alegre 2025, sob o frio cortante da manhã gaúcha, um nome ecoou com força: Wendell Souza.
O atleta, de 33 anos, que surgiu nos projetos da ACORR, em Lucas do Rio Verde (MT), vem escrevendo uma trajetória sólida e ascendente no cenário do atletismo brasileiro, com passagens marcantes pela Meia Maratona de Buenos Aires, o Troféu Brasil e a Maratona do Rio.
Julho chegou com temperaturas mais baixas em boa parte do Brasil, mas o ritmo de Wendell segue quente — firme, constante e disciplinado.
Nesta edição especial sobre treinos no inverno, conversamos com o campeão sobre os bastidores da sua rotina nos dias frios, estratégias para manter a consistência, prevenção de lesões e a mentalidade que o move rumo a novos desafios.
A Runners Brasil aproveitou um outro intervalo entre os treinos e tantos compromissos e bateu um papo exclusivo com Wendell Souza.
Fotos: Arquivo pessoal
PRÓPRIO RITMO
Revista Runners Brasil:
Wendell, como foi cruzar a linha de chegada em primeiro lugar na Maratona de Porto Alegre? Conte-nos como foi a preparação, a corrida e vencer grandes corredores da Etiópia e Quênia?
Wendell Souza:
Vencer essa prova foi muito difícil. Os adversários eram bastante experientes e muito fortes. Eles impuseram um ritmo que eu não conseguiria acompanhar, então decidi manter o meu próprio ritmo — e, por sorte, deu certo. Todo o pelotão da frente foi quebrando, e eu fui ultrapassando um a um. Cheguei a estar na oitava colocação.
Fotos: Márcio Rodrigues / Foco Radical
PREPARAÇÃO NO QUÊNIA
A preparação começou ainda em 2023, no Quênia. Desde então, venho treinando muito forte e pesado, ao lado dos melhores do mundo, para fazer a transição das provas de curta distância e, finalmente, alcançar um desempenho competitivo na maratona.
“Esse título mostra que estamos no caminho certo rumo ao nosso maior objetivo: conquistar o índice olímpico para a Maratona de Los Angeles, em 2028.”
— Wendell Souza
RRB: Você vem se destacando nas principais provas do calendário nacional e internacional. Como tem sido essa fase da sua carreira?
Wendell Souza:
Tento não pensar muito em “destaques”. Para mim, cada prova revela apenas os pontos que eu e meu time ainda precisamos evoluir e melhorar para alcançar nossos objetivos de médio e longo prazo. A vida do corredor de rua brasileiro é muito difícil. Hoje, eu não tenho nenhum patrocínio — nem mesmo para equipamentos. Vencer essas provas é fundamental para garantir algum apoio financeiro e seguir correndo atrás dos meus sonhos. Agora estou com um novo empresário, que já está me ajudando a fechar alguns patrocínios. Mas sem vitórias, isso seria impossível.
“A vida do corredor de rua brasileiro é muito difícil. Hoje, eu não tenho nenhum patrocínio — nem mesmo para equipamentos.”
— Wendell Souza
Fotos: Produtora @somoscaos
CONSISTÊNCIA NOS TREINOS DE INVERNO E A ASCENSÃO DE UM CAMPEÃO
RRB: Estamos em pleno inverno no Brasil — como você adapta sua rotina de treinos em temperaturas mais baixas?
Wendell Souza:
Meu treino é o mesmo no frio e no calor. Na verdade, quando está muito quente é que preciso mudar um pouco a intensidade, mas no frio eu treino na máxima capacidade. É muito bom.
RRB: Você costuma treinar em regiões mais frias do país? Como seu corpo reage ao frio nos treinos e provas?
Wendell Souza:
Não, eu treino na região mais quente do país. Pontes e Lacerda tem temperatura média acima de 30 graus todo o ano. Me sinto muito mais forte e mais resistente no clima frio, porque sou acostumado a treinar em clima muito quente.
RRB: Que cuidados específicos você tem com a prevenção de lesões nessa época do ano?
Wendell Souza:
Quanto mais frio, menos lesões eu tenho. O corpo recupera muito mais rápido, e na sessão de treino seguinte estou com as fibras musculares mais recuperadas, diminuindo bastante o número de lesões e desgaste físico quando comparado com o calor.
RRB: Em relação ao vestuário e equipamentos: o que não pode faltar nos seus treinos de inverno?
Wendell Souza:
Corta-vento, bermuda lycra e boné.
RRB: Que dicas você daria para corredores amadores que enfrentam preguiça ou dificuldades para manter a consistência no frio?
Wendell Souza:
Pensar na sensação de prazer e dever cumprido que obtemos após os treinos e não pensar muito no frio, simplesmente acordar e ir. Ou ir treinar na esteira, que é uma solução que eu sempre utilizo quando está chovendo.
Fotos: @byrubensosa
COMO TUDO COMEÇOU
“A corrida me ensinou a superar meus limites e a me conhecer melhor, ainda na época do colégio. Ela me manteve longe das drogas, do álcool e de más companhias.”
— Wendell Souza
RRB: Quando descobriu que a corrida era sua praia?
Wendell Souza:
Em 2014, aos 21 anos, em Lucas do Verde. Corri uma corrida de 10 km e ganhei a prova, vencendo vários atletas experientes. Comecei a correr em um projeto social em 2010 e fui incentivado para correr pista e treinar nesse projeto.
RRB: Por que você corre? O que é a corrida para você?
Wendell Souza:
A corrida me ensinou a superar meus limites e a me conhecer melhor, ainda na época do colégio. Ela me manteve longe das drogas, do álcool e de más companhias. Mais do que isso, me fez perceber que, com esse talento, eu poderia evoluir como ser humano e construir um futuro melhor para mim e para minha família.
E O FUTURO?
RRB: Além da vitória em Porto Alegre, você correu a Meia de Buenos Aires e outras grandes provas. Como foi sua preparação?
Wendell Souza:
A preparação para provas de longa distância é construída ao longo de anos de muito treino e evolução. Para cada prova específica, sigo um ciclo de preparação com foco total durante 12 a 16 semanas, ajustando treinos, ritmo e estratégias para chegar no meu melhor nível no dia da competição.
RRB: Qual a sua prova mais importante até hoje e por quê?
Wendell Souza:
A Maratona de Porto Alegre em 2025 foi minha maior e mais importante vitória. Foi apenas a minha segunda maratona na vida e a primeira no Brasil.
Berlim ou Valência?
RRB: Você já está de olho em alguma prova internacional nos próximos meses? Algum sonho de Major?
Wendell Souza:
Esse assunto ainda está sendo definido com a minha equipe e, possivelmente, com meu novo patrocinador. Temos duas ou três opções em análise, mas a única certeza é que será uma competição internacional. As possibilidades mais prováveis são Berlim ou Valência.
RRB: Como está o planejamento da sua equipe para os próximos ciclos?
Wendell Souza:
A nossa ideia é ir para a África e fazer um camping de três a quatro meses de imersão direto no Quênia. Estamos tentando viabilizar o patrocínio para custear esse projeto, já que ele é bastante caro e, hoje, eu não conto com nenhum apoio privado. Minha única bolsa atualmente é de R$ 3.000,00 por mês. É muito difícil ser atleta profissional nessas condições.
RRB: Onde quer estar em 10 anos?
Wendell Souza:
Espero estar no final da minha carreira como maratonista profissional, com dezenas de conquistas importantes e partir para ter minha própria assessoria de corrida para ajudar outros atletas a realizarem seus sonhos.
FRASES FINAIS
“O domínio da mente sobre o corpo é o segredo para superar todos os desafios.”
— Wendell Souza
RRB: Um propósito, uma frase ou um pensamento?
Wendell Souza:
Fé em Deus, acreditar sempre e desistir jamais.
Fim

