O X da Questão

10 coisas que ninguém te falou (ou você esqueceu) sobre treinar no frio e no inverno

Estratégias práticas para manter desempenho, saúde e consistência no inverno

Por: Darlan Souza Edição 51 - julho 2025
10 coisas que ninguém te falou (ou você esqueceu) sobre treinar no frio e no inverno

1. Aquecimento mais intenso do que o habitual: No inverno, a temperatura ambiente mais baixa reduz a temperatura interna dos músculos e articulações, deixando-os mais rígidos e menos responsivos. Por isso, é fundamental dedicar mais tempo e atenção ao aquecimento antes do treino. Ao realizar movimentos articulares dinâmicos — como rotações de tornozelo, quadril, ombros e até punhos (na academia) — e séries leves de exercícios que ativem a musculatura (por exemplo, agachamentos sem carga, avanços e polichinelos), você aumenta o fluxo sanguíneo local e eleva gradualmente a temperatura corporal. Além disso, incorporar atividades que envolvam uma mobilidade articular mais completa, como alongamentos dinâmicos, ajuda a preparar o sistema nervoso central para as demandas do treino. Esse processo não deve ser apenas uma “corrida rápida” até o início da série principal: reserve de 15 a 20 minutos para se aquecer, adaptando-se ao frio. Dessa forma, reduz-se o risco de lesões e melhora-se o desempenho mesmo em temperaturas baixas. 2. Desafio da adaptação inicial ao frio: Sentir um choque térmico no começo do inverno é comum: nosso corpo demora algumas semanas para “aclimatar-se” às condições mais frias. Nos primeiros dias de treino, você pode perceber um desconforto extra, sobretudo ao respirar, pois o ar frio e seco irrita as vias respiratórias e pode causar aquela sensação de “queimação” na garganta. A solução é progressiva: nas primeiras sessões, considere diminuir a intensidade ou o volume do treino, aumentando gradualmente até voltar ao ritmo normal. Além disso, use uma camada de roupa que mantenha o calor sem restringir movimentos; tecidos de segunda pele que absorvem a umidade ajudam a evitar o acúmulo de suor e o resfriamento precoce do corpo. Conforme as semanas passam, o organismo ajusta a termorregulação, facilitando a prática esportiva mesmo em dias mais frios. 3. Vasoconstrição e aumento da vontade de urinar: No frio, ocorre a vasoconstrição periférica: os vasos sanguíneos se contraem para preservar o calor interno, deslocando o sangue para órgãos vitais. Esse processo aumenta a pressão arterial central e estimula os rins a filtrarem mais líquido, resultando em maior produção de urina — fenômeno conhecido como “poliúria de frio”. Durante treinos longos, seja na corrida ou na academia, é frequente sentir a necessidade de interromper a atividade para ir ao banheiro. Para minimizar esse impacto, avalie seu nível de hidratação antes do treino: não há necessidade de exagerar no consumo hídrico imediatamente antes de sair de casa. Hidrate-se de forma moderada e constante, distribuindo a ingestão de água ao longo do dia, e, se possível, preveja pequenas paradas estratégicas antes que a vontade se torne urgente. Usar roupas que facilitem o processo (por exemplo, aberturas na região pélvica ou luvas com polegar destacável) também pode ser útil. 4. Intensificação de dores osteoarticulares no frio: As baixas temperaturas amplificam a sensibilidade de articulações e tecidos conjuntivos. Pessoas com histórico de sobrecarga, tendinites ou artroses costumam relatar que “a dor aumenta” quando está frio e úmido, pois a contração dos vasos sanguíneos reduz a circulação local, dificultando a nutrição do tecido cartilaginoso e muscular. Durante o treino, isso pode se traduzir em desconfortos mais evidentes. Para amenizar tais sintomas, recomenda-se prolongar o aquecimento (como já mencionado) e incluir compressas mornas ou a aplicação de calor local antes e após o exercício. Se sentir dor intensa ou persistente, avalie ajustes na carga do treino ou converse mais com seu treinador antes de continuar atividade intensa, evitando agravar lesões pré-existentes. 5. Importância da indumentária adequada: não existe frio, mas roupa inadequada! Muito se fala em “resistir ao frio”, mas, na prática, o que separa um treino bem-sucedido de um desconfortável é a escolha correta da roupa. Tecidos tecnológicos (dry-fit, polipropileno, poliamida com elastano, fleece leve) transportam o suor para longe da pele, evitando que o corpo esfrie rapidamente após a primeira transpiração. A estratégia de “cebola” — vestir-se em camadas — permite que você elimine peças conforme o corpo aquece durante o exercício. Uma base de segunda pele, seguida de uma camada isolante (como um moletom leve ou jaqueta fina) e, se necessário, uma terceira camada corta-vento, protege de correntes geladas. Invista também em acessórios adequados: touca ou faixa para proteger a cabeça, luvas que permitam movimento sem deixar as mãos expostas, meias térmicas e calçados com boa tração. Se, após todo esse cuidado, ainda sentir frio excessivo, reveja a sequência das camadas, adicionando ou retirando peças conforme a necessidade. 6. Estratégias de vestimenta em provas de inverno: técnica da “desova” – Em provas realizadas nos meses frios, o segredo está em sair de casa bem agasalhado e “desovar” camadas extras na largada ou durante o percurso — ação que não só mantém o calor antes do esforço, mas também evita carregar peso desnecessário. Antes de chegar à arena de prova, vista roupas de uso cotidiano já usadas (casacos, calças, meias grossas, luvas) e, nos minutos que antecedem a largada, deixe-as em um ponto estratégico (barraca de apoio, carro ou entrega de roupas pela organização). Alguns corredores se enrolam em sacos plásticos, pode também levar roupas extras e descartar no meio do percurso, diminuindo o volume carregado. Vale lembrar que roupas volumosas demais podem restringir o movimento; opte por peças que combinem aquecimento e mobilidade. Além disso, planeje a retirada em um momento antes de os músculos esquentarem demais — mantendo o corpo aquecido nos primeiros segundos, mas evitando sobreaquecimento nos quilômetros iniciais. Essa técnica garante conforto térmico sem comprometer o rendimento. 7. Hidratação no inverno: menos volume, mas mesma atenção – Ao contrário do que muitos pensam, ainda que suemos menos no frio, a desidratação continua sendo um risco. A baixa umidade relativa e a vasoconstrição fazem com que percamos água pela respiração — e como a sensação de sede diminui, é fácil subestimar a necessidade de beber. O ideal é manter uma rotina de hidratação: ingira líquidos em intervalos regulares, mesmo sem sentir sede. Antes de sair para treinar, consuma cerca de 200 a 300 ml de água ou bebida isotônica, de 30 a 45 minutos antes; durante atividades prolongadas (acima de 60 minutos). Para treinos mais curtos, mantenha ao menos uma garrafinha de 500 ml acessível. Se praticar em locais muito frios, proteja o recipiente em camadas isolantes para evitar congelamento ou resfriamento do líquido. 8. Aumento do apetite e controle emocional para evitar ganho de peso: Com a queda de temperatura, o organismo tende a demandar mais calorias para manter a termorregulação, aumentando o apetite. Além disso, o aspecto quase “aconchegante” de comidas mais calóricas no inverno estimula a ingestão de carboidratos e gorduras. Para quem treina com frequência, isso não é necessariamente negativo, desde que essas calorias adicionais sejam bem distribuídas e compostas por alimentos nutritivos. Planeje lanches saudáveis para consumir antes e depois do treino, evitando quedas bruscas de energia e compensações excessivas na alimentação. Controle emocional é a chave: muitas vezes, o desejo por alimentos mais “pesados” reflete uma busca por conforto psíquico — considere práticas como mindfulness, auto-consciência, alongamentos ou até meditação breve para não descontar a frustração ou o estresse do frio na comida. Se necessário, faça registros alimentares ou consulte um nutricionista para ajustar calorias e macronutrientes, prevenindo ganho de peso indesejado. 9. Reposição de vitamina D: compensando a menor exposição solar: No inverno, especialmente em regiões de latitude mais alta ou com inverno rigoroso, a radiação ultravioleta B (UVB) diminui, e as pessoas ficam mais tempo em ambientes fechados, vestidas. Isso reduz a síntese de vitamina D na pele, essencial para a saúde óssea, imunológica e muscular. Em praticantes de atividade física, a deficiência de vitamina D pode comprometer a contração muscular, aumentar o risco de lesões e prejudicar a recuperação adequada. Para verificar se você precisa de suplementação, peça ao médico, um exame de sangue (dosagem de 25-hidroxivitamina D) é fundamental. Caso os níveis estejam abaixo de 30 ng/mL, a suplementação, sempre orientada por um médico ou nutricionista, pode variar de 1.000 a 4.000 UI/dia (ou até mais), dependendo da gravidade da deficiência. Além disso, inclua na dieta alimentos ricos em vitamina D, como peixes gordos (salmão, cavala), ovos, fígado e queijos, e aproveite breves exposições ao sol — mesmo no inverno, 10 a 15 minutos de sol matinal (entre 10 h e 14 h) em regiões descobertas, sem protetor, podem contribuir, desde que não haja contraindicações dermatológicas. 10. Impacto da umidade relativa do ar na saúde e na performance: No inverno, a umidade relativa costuma ser mais alta, principalmente em dias nublados ou chuvosos. O ar úmido, aliado ao frio, dificulta a evaporação do suor, dificultando o resfriamento corporal durante o exercício. Isso faz com que a sensação térmica (a famosa “sensação de frio”) seja mais intensa, e o corpo trabalhe mais para manter a temperatura interna. Em corridas, o esforço percebido pode aumentar: a respiração de ar úmido pode gerar desconforto nas vias aéreas e, em treinos de força, a superfície das academias — se não for adequadamente climatizada — pode tornar-se escorregadia, prejudicando a estabilidade. Para mitigar esses efeitos, verifique sempre a previsão do tempo, incluindo temperatura, umidade relativa e índice de sensação térmica. Se a umidade estiver acima de 80 %, considere reduzir a intensidade do treino (por isso uso a percepção subjetiva de esforço e não números na prescrição de treinos). Esse é o X da questão! E aí, vamos correr neste friozinho?

Darlan Souza

Darlan Souza

Profissional de Educação Física (Time Runners)

Profissional de Educação Física