Q&A

Q&A com Eduardo Deconto

Inverno: O Clima perfeito para correr

Por: Sabine Weiler Edição 51 - julho 2025
Q&A com Eduardo Deconto

Eduardo Deconto encontrou na corrida um compromisso com ele mesmo. Gaúcho de Porto Alegre, morando em São Paulo, o jornalista esportivo corre há cinco anos e agora se prepara para estrear nos 42km em outubro. Escolheu a Maratona de Chicago para o maior desafio da sua trajetória até aqui, onde o clima também promete ser desafiador. Para muitos corredores, o frio é um inimigo: exige mais do corpo, atrasa o aquecimento e testa a cabeça antes mesmo dos primeiros quilômetros. Mas, para Eduardo, virou um aliado. Ele prefere treinar com 5°C do que com 20°C — e isso diz muito sobre a sua relação com o esforço, a consistência e a disciplina. Nesta entrevista à Runners Brasil, o torcedor do Grêmio compartilha sua conexão com o inverno, sua história com a corrida, como organiza os treinos mesmo com a rotina intensa de trabalho, e as estratégias que usa para se manter motivado — mesmo quando o clima não está muito convidativo.

Sabine Weiler: Quando e como a corrida entrou na sua vida? Há quanto tempo você é corredor?
Eduardo Deconto: Eu comecei a correr, assim, em 2014, porque sabia que me ajudaria a jogar futebol com os amigos, ter um pouquinho mais de preparo. A corrida passou a fazer parte, de fato, da minha vida em 2020, com a pandemia. Porque, como eu não podia praticar esportes coletivos, por causa das restrições, eu comecei a correr na rua. Eu comecei correndo 5km, 6km etc., e aí fui subindo até virar meia maratonista, uns oito meses depois. E foi um erro, porque, quando eu fiz 21km a primeira vez, eu não sabia que tinha gel de carboidrato, que se levava água etc. Eu sofri um monte e eu, certamente, não estava preparado. Mas, enfim, os volumes de treino foram crescendo. E aí, quando eu me mudei para São Paulo, eu comecei a treinar com assessoria. E foi aí que eu virei um atleta amador, de fato — posso dizer assim. Porque ter uma planilha de treinos, o acompanhamento, o objetivo etc., faz evoluir muito mais rápido e te faz até entender e gostar mais de corrida.

Sabine: Você começou a trabalhar com jornalismo esportivo antes mesmo de se formar. Hoje o futebol faz parte da sua rotina e, de certa forma, também da sua vida como corredor. De que forma essa convivência diária com o esporte influencia a sua cabeça como atleta?
Eduardo: Eu trabalho com jornalismo esportivo, especificamente cobrindo futebol, desde 2013. Acho que o primeiro ponto que me pegou, convivendo com atletas — de fato, atletas profissionais — desde os 19 anos, seja cobrindo ou lendo sobre grandes nomes de várias modalidades, é que os eles que são diferenciados, que fazem história. Os “GOATs”, os Greatest of all Time dos seus esportes, são extremamente talentosos, mas, acima de tudo, vivem o esporte 24 horas por dia. Eles treinam em três turnos, fazem os trabalhos dos clubes — no caso do futebol — e ainda complementam com fisioterapia, alimentação, cuidados com o corpo. São atletas no sentido completo da palavra. Isso é o que mais me impacta nesses grandes nomes, tipo LeBron James, Michael Phelps, Michael Jordan. Todos entendem que o esporte é o meio de vida deles e transformam o corpo num instrumento para isso. É algo que tento trazer — guardadas as proporções — para minha vida. Além disso, pensando na minha rotina: eu cubro a Seleção Brasileira e o São Paulo no portal Trivela. Tem viagem a trabalho, dias em que saio do estádio às duas da manhã, começo o dia às cinco treinando e sigo até tarde. Passo quase 24 horas acordado. Mesmo assim, tento não abrir mão dos meus treinos. Entendo que nem sempre vou conseguir fazer um treino perfeito, mas sempre faço o possível, dentro das condições que eu tenho. É algo que aprendi observando esses grandes atletas, de perto e de longe. Às vezes, não vai ser o cenário ideal, mas vai ser o cenário possível. Se eu esperar sempre pela condição perfeita — dormir bem, comer bem, estar num clima agradável — eu não vou conseguir manter minha rotina. Essa vida desregrada de jornalista esportivo me ensinou a ter disciplina para contornar qualquer adversidade e seguir treinando.

Sabine: O que te motivou a escolher a maratona como o próximo grande desafio? Em que momento você decidiu que era hora de encarar os 42km?
Eduardo: Eu vejo uma galera que começa a correr pensando em maratona e querendo fazer os 42km quanto antes. E, para mim, foi o oposto. Sempre fui muito mais apegado ao processo, a saborear cada distância que eu ia desbloqueando, preparando meu corpo para correr de uma maneira confortável, até me sentir pronto pra maratona. Nesse caminho — desde a minha primeira meia maratona em prova, em 2022, em Porto Alegre — até correr Chicago (em outubro) este ano, se tudo der certo, meu corpo somou milhas de voo, milhas de corrida. Tem um lastro para suportar distâncias maiores.

Sabine: E por que a Maratona de Chicago para estreia?
Eduardo: A decisão de correr Chicago veio quando percebi que 21km, apesar de ainda ser uma distância desafiadora (ainda mais quando tento bater meu tempo), se tornou confortável. Aí comecei a pensar: “Vamos ver como é correr 30km. Corri 30 no ano passado, me senti bem, e pensei: bom, acho que estou pronto para dar esse salto e desbloquear a maratona. Conversando com meus amigos, decidimos: “Vamos nos inscrever nas Majors do segundo semestre do ano que vem”, para dar tempo de fazer o ciclo. Isso foi em 2023, pensando em 2025. Nos inscrevemos em Berlim e Chicago. Berlim não deu, mas Chicago… brilhou no sorteio. Tive a sorte de ser sorteado — com o perdão da redundância — e, putz, foi o sinal que eu precisava para entender: beleza, vamos correr a maratona. E é isso. Estou muito ansioso, muito animado para começar o ciclo. Agora estou num momento de pré-ciclo, subindo as distâncias e o volume semanal, ainda com intensidade de rodagem. Agora julho começou o ciclo de fato. Vai ser demais, vai ser muito legal.

Sabine: Sendo gaúcho, você já tem uma boa experiência com treinos no frio, não é mesmo? Mas, mesmo assim, o inverno ainda é um desafio ou você já aprendeu a gostar dessa época?
Eduardo: Então, eu sou suspeito para falar de frio, porque eu adoro correr no frio. Prefiro 100% correr com 5 graus do que correr com 20. Então, pra mim, não é difícil sair pra treinar no inverno.
Claro que, às vezes, é difícil levantar-se da cama, sair do quentinho e tal. Mas, pra correr, passou o primeiro quilômetro, o corpo já esquenta — e aí é uma delícia. É muito mais fácil, mais rápido, e eu sofro bem menos do que no calor.

Sabine: Você tem algum ritual, pensamento ou estratégia prática que te ajuda a começar o treino nos dias mais difíceis de frio?
Eduardo: Não só no inverno — no verão também, ou em qualquer temperatura — vai ter dias em que eu vou acordar pra correr e não vou estar nem um pouco a fim. Isso acontece várias vezes. Mas o que eu penso é: por mais que eu tenha que trabalhar ou tenha qualquer outro compromisso no dia, a minha obrigação, pra vencer o dia, é correr. É fazer o meu treino. Então eu coloco na cabeça: beleza, estou acordando aqui às cinco da manhã, está difícil, mas às sete e meia eu já vou ter vencido o meu dia. Já corri, e o resto eu consigo cumprir com mais tranquilidade — seja trabalho, casa, o que for. Mas o principal compromisso, que era correr, já está resolvido. E acima de tudo, eu sempre sei que, por mais que às vezes seja difícil, o meu dia é muito melhor depois que eu corro. Sempre. Muito melhor. Isso é algo que eu penso muito. E tem uma frase do doutor Drauzio Varella que eu gosto bastante: “Eu não gosto de correr. Eu gosto de ter corrido.” Isso também faz muito sentido pra mim. Porque, sim, pode ser chato, puxado, dolorido na hora — mas depois sempre vale a pena.

Sabine: Sua rotina de treinos muda muito no inverno? Você costuma ajustar horários, distâncias ou o tipo de treino por conta das temperaturas, como por exemplo recorre à esteira?
Eduardo: A minha rotina não muda tanto no inverno, porque, morando em São Paulo, às vezes o único horário que eu tenho para treinar é às 6 da manhã — então acaba não tendo muita escolha. Mas, quando é possível, eu me permito sair um pouco mais tarde. No verão, por exemplo, se eu sair para fazer meu treino longo às 8h, vou acabar por volta das 10h — e aí já estou sofrendo muito com o calor. Eu corro muito mal no calor. Não sei lidar tão bem com ele quanto com o frio. No inverno, já consigo me permitir sair às 8h, às vezes até às 9h. Então é isso: quando dá, eu ajusto o horário e treino um pouco mais tarde. Mas, no geral, a rotina não muda muito, porque, no fim, com o trabalho e os compromissos em São Paulo, eu acabo precisando sair cedo mesmo pra conseguir encaixar tudo no dia.

Sabine: Em relação à roupa para correr no frio: você adapta bastante o vestuário conforme a temperatura ou tem alguma peça que não abre mão, como a bermuda, mesmo nos dias mais gelados?
Eduardo: Eu gosto da sensação de frio, então não costumo colocar muita roupa pra correr. Gosto de usar manguito — me protege bem e funciona pra mim. Em treinos, às vezes começo com um corta-vento bem levinho que tenho. Ele tem um compartimento pra dobrar, fechar o zíper e guardar no bolso sem virar um trambolho. Uso bastante pra aquecer no início, e depois, quando esquenta, tiro. Em prova, minha dica é usar papel alumínio ou capa de chuva no começo pra aquecer. Isso segura bem o calor. E aí, quando a prova começa, tira — e já larga aquecido. Fiz isso na meia de Porto Alegre e funcionou muito bem. Vejo também bastante gente usando gola, luva, touca… Acho ótimo pra quem sente mais frio, principalmente nas extremidades. Eu não uso, mas recomendo pra quem lida mal com o frio.

Sabine: O clima na Maratona de Chicago pode variar bastante (média entre 9ºC e 19ºC, além do vento). Isso te motiva a se expor mais aos treinos ao ar livre durante o inverno aqui no Brasil?
Eduardo: O clima na Maratona de Chicago ainda não está me preocupando, porque eu quero esperar chegar mais perto da prova para ter uma previsão um pouquinho mais precisa de temperatura e clima em Chicago no dia da prova, para traçar a estratégia com o meu treinador e aí enfrentar o que vier pela frente. Agora, uma coisa que eu tenho exercitado bastante — é correr contra o vento, porque Chicago é conhecida como a cidade do vento, né? Então quando estive na casa dos meus pais, no litoral gaúcho, eu treinei bastante contra o vento bastante, mas realmente é bem ruim. Fiz um treino com alguns estímulos mais fortes contra o vento, e foi muito complicado de fazer força contra o vento. Parecia que eu estava dando a vida ali e não saía do lugar contra o vento, mas eu pensei bastante durante esse treino, que correr contra o vento, vai me ajudar lá na frente também.

Sabine: Como você trabalha a recuperação muscular nos dias mais gelados? Percebe alguma diferença na resposta do corpo?
Eduardo: Eu faço basicamente os mesmos trabalhos, tanto no calor quanto no frio: alongamento, liberação miofascial em casa com rolinho, massagem e trabalho de mobilidade.
Obviamente, quando eu estou muito sobrecarregado, com o corpo mais pesado, procuro um fisioterapeuta ou um massagista pra fazer uma liberação mais pesada, digamos assim.
Mas, no dia a dia de treinos, essas práticas que eu faço em casa — alongamento, mobilidade e liberação miofascial — ajudam bastante. Quando estou muito carregado, também recorro à banheira de gelo. Às vezes, até numa água de piscina bem gelada, coloco as pernas ali, e isso dá uma boa acelerada na recuperação muscular. Agora, uma diferença que percebo entre calor e frio é que eu transpiro muito nos treinos. Chego a perder mais de dois litros de suor num treino longo. E isso reduz no inverno, obviamente. Por isso, suplemento muito mais no verão com isotônicos e eletrólitos. No inverno, essa reposição é um pouco menor, mas ainda assim tenho muito cuidado com os sais minerais e eletrólitos. Isso ajuda a manter o corpo com energia e pronto pra rotina de treinos.

Sabine: Quais profissionais estão te acompanhando nos treinos?
Eduardo: Hoje eu tenho o meu treinador, que é o Pedro Keller, profissional de Educação Física. Ele me passa a planilha de treinos — não só de corrida, mas também de fortalecimento, alongamento, mobilidade, e por aí vai. Pro volume de treino que eu tenho atualmente, isso tem sido suficiente. Mas agora, no ciclo da maratona, passo a contar com o acompanhamento de um nutricionista, pra me alimentar melhor e cuidar da reposição e suplementação de forma mais precisa. E vou recorrer, invariavelmente, ao trabalho de fisioterapia, com massagem e liberação miofascial, para manter a musculatura mais relaxada e pronta para o volume de treinos que vem por aí.

Sabine: Existe alguma imagem mental que te acompanha durante os treinos mais duros? Algo que te faça continuar mesmo nos dias mais difíceis?
Eduardo: Sim, tem uma imagem que vem na minha cabeça em todos os treinos longos — e até me emociono nesses treinos. E quando eu falo e penso nisso, eu me emociono também. ‘É eu, lá pelo quilômetro 40, 41, na Maratona de Chicago, chegando… e encontrando meus pais e minha namorada na torcida, gritando meu nome. Eu já começo a chorar — porque eu sou chorão mesmo. Eles me entregam a camisa do Grêmio, e eu termino a maratona com ela na mão, junto com a minha família toda.’ Essa imagem me vem à cabeça em todos os treinos longos. Sempre que o treino está difícil, eu penso nisso — e isso me ajuda muito a terminar.

Sabine: Qual foi a prova que mais te marcou até hoje? Por quê?
Eduardo: Acho que a última prova que eu fiz, a Meia Maratona de Porto Alegre, foi talvez a mais especial que eu já corri. Não só porque eu fui muito bem, dentro do planejado em relação ao tempo e tudo mais. Consegui baixar meu RP na meia maratona em quase cinco minutos — então foi muito legal. Mas também porque, desde que me mudei para São Paulo, a corrida sempre foi um ponto em comum entre a minha terra natal, o Rio Grande do Sul, e a minha nova casa, São Paulo. A corrida sempre foi, de certa forma, uma casa pra mim. E eu passei a levar mais a sério a corrida depois da mudança pra São Paulo. Então, poder voltar para Porto Alegre e colocar tudo isso em prática, ali, com amigos, gente gritando meu nome, família junto… foi muito especial.

Sabine: Que lição ou aprendizado você acha que vai levar para a vida depois de passar por esse ciclo rumo aos 42km?
Eduardo: Eu gosto de pensar na corrida, do que ela me traz e já trouxe na vida, de duas formas. A primeira, sendo bem pragmático: quanto mais eu treino, mais eu me dedico, mais eu me esforço, melhor eu fico. E gosto de pensar que isso também serve como metáfora pra vida. Quanto mais a gente se dedicar e colocar esforço — tanto profissionalmente quanto nas relações pessoais —, a tendência é que as coisas melhorem e fiquem mais fáceis. Não é garantido, mas é o caminho mais provável. O outro ponto é que, convivendo com muita gente que corre, fazendo amizades e observando as histórias, percebi que a corrida é muito única pra cada pessoa. Cada um tem sua trajetória, sua relação com a corrida, seu objetivo. E isso me fez entender que a minha competição é comigo mesmo. É sobre ser melhor na corrida comigo, não em relação a quem está correndo ao meu lado. Pelo contrário: quem corre junto comigo quer tanto que eu melhore quanto eu quero melhorar, e quanto eu quero que ele melhore também. Acho que esse é o grande aprendizado: a corrida é o esporte individual mais coletivo do mundo. E é muito legal essa relação em que todos querem evoluir — e querem que o outro evolua junto. Isso, pra mim, é muito especial na corrida. E acho que nesse ciclo que vou viver — sozinho, mas também com meus amigos que vão pra Chicago comigo — todo mundo vai torcer pra que o outro vá bem. E que todo mundo chegue lá junto. Isso é o mais legal de tudo, eu acho.

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Sabine Weiler

Sabine Weiler

Jornalista (Time Runners)

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