Corrida, mais que um esporte

Seja qual for o seu “barato”: corra

Por: Luciana Areco Edição 4 - agosto 2021
Seja qual for o seu “barato”: corra

O high chega quando a corrida permite ao corpo se soltar ao desafio prescrito e planejado. Para Valéria Duarte Garcia, doutora em Neurociência e Comportamento pela USP, esse fenômeno está ligado às nossas adaptações evolutivas: “Quando nossos ancestrais precisavam correr por longas distâncias, o cérebro usava artifícios químicos para diminuir a percepção de dor, manter a motivação e permanecer em movimento em busca de alimento. Hoje, ele faz a gente voltar para o treino”.

As evidências científicas confirmam as relações profundas entre cérebro e corrida: correr aumenta os neurônios ativos, combate a ansiedade e a depressão, melhora aspectos cognitivos do envelhecimento e nos deixa mais felizes. Mas quanto disso é química e quanto é a mente em ação?

”Por muito tempo, acreditou-se que a resposta para o runner’s high era apenas a endorfina. Em alguns estudos, porém, quando os efeitos das endorfinas foram bloqueados quimicamente, as pessoas ainda experimentaram o high — de modo que todo o argumento da endorfina foi questionado”, explica Valéria. Um estudo com atletas universitários comprovou o aumento de endocanabinoides no sangue após 50 minutos de exercício — substância ligada à redução do estresse, ao alívio da dor e à sensação de bem-estar. O runner’s high é, portanto, uma dança complexa de compostos psicoativos.

Cada corredor tem o seu “barato”, e não existe uma fórmula igual para todos. Não se sinta inadequado se um parceiro descreve essa sensação e você não a sente — o high ocorre em momentos diferentes para pessoas diferentes. “O que funciona em um dia pode não funcionar no próximo”, diz a pesquisadora.

E o estado de flow?

Há quem confunda o runner’s high com o estado de flow (“fluir”), quase uma meditação em movimento. “Os movimentos repetitivos da corrida funcionam como um mantra, fazendo o cérebro oscilar de ondas de frequência alta para frequências mais baixas, atingindo um estado alterado de consciência”, explica a estudiosa. Enquanto o runner’s high é mais fisiológico — basta correr e permanecer em movimento rítmico —, o flow é um fenômeno psicológico que exige maior treinamento mental e físico. “Para a Psicologia, o flow é uma reconexão da mente com o corpo por meio do esporte; é um acreditar em si mesmo”, define o psicólogo do esporte Gustavo Monhallem.

A corrida bem assessorada evita erros e excessos que atrapalham seus benefícios. Treine com segurança, construa uma base sólida e lembre-se: nada acontece do dia para a noite. O processo nem sempre é fácil, mas é gratificante — e sua saúde agradecerá. Bons treinos!

Luciana Areco — profissional de Educação Física.

Luciana Areco

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Profissional de Educação Física

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