Q&A

O homem por trás da máscara: a corrida que virou memória

Aos 27 anos, o treinador britânico Yoel Levy já cruzou linhas de chegada em quatro continentes vestido de Batman. A fantasia desperta sorrisos e perguntas, e cada pergunta abre espaço para a história de Ariel, Kfir e Shiri Bibas.

Por: Sabine Weiler Edição 64 - agosto 2026
O homem por trás da máscara: a corrida que virou memória

O britânico Yoel Levy descobriu a corrida aos 13 anos, como uma forma de recuperar a autoconfiança. Naquela época, o esporte tinha um significado muito pessoal. Mas, anos depois, a corrida ganharia um propósito que ele jamais poderia imaginar. Os acontecimentos de 7 de outubro de 2023, em Israel, mudaram completamente a maneira como enxergava a corrida. Os desafios pessoais deram lugar a uma homenagem aos irmãos Ariel e Kfir Bibas e à mãe deles, Shiri, sequestrados durante o ataque do Hamas e que não sobreviveram ao cativeiro. Kfir tinha apenas nove meses na época e foi o mais jovem entre os reféns levados para Gaza.

Foi a partir dessa história que, em 2025, Yoel decidiu transformar suas corridas em uma homenagem à família Bibas. O treinador físico judeu, de 27 anos, passou a correr vestido de Batman, o super-herói favorito de Ariel. Desde então, por onde passa, além de despertar curiosidade, a fantasia abre espaço para que a história da família Bibas continue sendo contada.

A homenagem já passou por Jerusalém, Tel Aviv, Paris, Londres, Boston, Toronto, Sydney, Nova York, Panamá, Costa Rica, Miami e Cidade do Cabo. Recentemente, chegou à América do Sul. Depois do Uruguai, Yoel esteve no Brasil, onde completou os 21 quilômetros da Meia Maratona Internacional do Rio de Janeiro, antes de seguir para Argentina e Chile.

Conhecido nas redes sociais como The Jewish Fitness Coach, Yoel transformou a linha de chegada em algo que vai além de tempo, medalha ou performance. Em entrevista à Runners Brasil, ele conta o que mudou na sua relação com a corrida, como as pessoas têm recebido a mensagem que leva pelo mundo e compartilha histórias que o impactaram profundamente ao longo dessa jornada.

Como a corrida entrou na sua vida e em que momento você percebeu que ela poderia ser muito mais do que um esporte?

A corrida começou como um desafio pessoal. Crescendo com dislexia e um distúrbio de fala, tive dificuldades com a autoconfiança durante muitos anos. A escola não foi fácil, e houve momentos em que duvidei de mim mesmo. A corrida me deu algo diferente. Não importava como eu lia ou falava, só importava que eu continuasse colocando um pé na frente do outro. Cada quilômetro me ensinou disciplina, resiliência e, mais importante, a acreditar em mim mesmo. Depois de 7 de outubro, percebi que correr poderia ser muito mais do que cruzar linhas de chegada. Tornou-se uma forma de contar histórias, honrar vidas e unir pessoas em torno de uma mensagem de memória e esperança.

Em determinado momento, suas corridas deixaram de ser apenas desafios pessoais para se tornarem uma homenagem à família Bibas. Como nasceu essa decisão?

A família Bibas se tornou um símbolo que tocou pessoas em todo o mundo. Eu queria usar o espaço que eu tinha para algo significativo, então decidi dedicar minhas corridas a manter os nomes deles vivos. Desde então, o dia da prova deixou de ser sobre mim. Não penso mais no meu tempo de chegada. Penso em cumprimentar todos que vêm torcer, tirar fotos com as crianças, ouvir as histórias das pessoas e tentar ser uma pequena luz durante um período muito sombrio.

”Se alguém sair da prova sabendo quem foi a família Bibas, então aquele dia valeu a pena.”

Em algum momento a fantasia deixou de representar apenas uma homenagem e passou a fazer parte da sua própria identidade como corredor?

Com certeza. No início, parecia algo que eu estava vestindo. Hoje, parece fazer parte da minha missão. Ao redor do mundo, as crianças sorriem quando veem o Batman, e os adultos param para perguntar por que estou vestido daquela maneira. Essa simples pergunta cria uma oportunidade para contar a história de Ariel. Uma coisa que também percebi é que Batman não é um time de uma pessoa só. Essa jornada só existe por causa das milhares de pessoas que correm ao meu lado, torcem à beira do percurso, trabalham como voluntárias, fazem doações, compartilham a história e ajudam a manter viva a memória dessa família. De muitas maneiras, somos todos Batman juntos.

Antes de cada largada, você faz 70 segundos de silêncio em memória dos reféns. O que acontece dentro de você durante esse momento?

Esses 70 segundos me lembram porque estou na linha de largada. Penso nas famílias que ainda estão esperando e nas vidas que mudaram para sempre. Também percebo o quanto sou afortunado. Como tenho sorte de poder ligar para minha mãe e para o meu pai. Como tenho sorte de ter um corpo saudável que me permite correr. Coisas que muitas vezes consideramos garantidas, de repente, parecem incrivelmente preciosas. Não importa o quanto eu esteja nervoso ou cansado antes de uma prova, essas emoções se tornam muito pequenas quando comparadas ao que outras pessoas vivenciaram.

Nesta jornada pela América do Sul, o que mais tem chamado sua atenção na forma como as pessoas recebem essa mensagem?

Isso tem me dado esperança. Conheci pessoas de diferentes origens, idiomas, religiões e culturas e, ainda assim, todas compreendem a bondade e a compaixão. A família Bibas nos lembra que, no fim das contas, todos temos uma vida e somos todos humanos. Milhares de pessoas que eu nunca havia conhecido participaram das corridas, compartilharam minhas publicações, me convidaram para suas comunidades e ajudaram a espalhar essa mensagem. Essa jornada me lembrou que a humanidade é muito maior do que as nossas diferenças.

O que muda física e mentalmente quando você encara 42 quilômetros vestido de Batman?

Eu gostaria de poder dizer que é fácil, mas cada prova fica mais difícil. A fantasia é quente, pesada e desconfortável, especialmente ao longo de 42 quilômetros. Mentalmente, porém, ela na verdade torna a prova mais fácil, porque me lembra constantemente por que estou correndo. Cada quilômetro difícil tem um propósito. Cada grito de incentivo para o Batman é, na verdade, um grito de apoio à história por trás da fantasia.

Houve alguma prova em que você cruzou a linha de chegada profundamente transformado?

Todas as provas foram significativas, mas a Maratona de Sydney sempre terá um lugar especial no meu coração. Eu estava completamente afetado pelo jet lag e correndo no que, para o meu relógio biológico, parecia ser uma hora da madrugada. Eu não sabia o que esperar. Então cheguei à prova e vi pessoas que nunca havia conhecido esperando ali para apoiar a família Bibas. Foi naquele momento que percebi que essa jornada havia se tornado global. Já não se tratava de mim ou da distância. Tratava-se de completos desconhecidos escolhendo permanecer unidos por uma família que nunca haviam conhecido.

Alguma história que alguém compartilhou com você te impactou profundamente?

Foram muitas, mas uma história significou muito para mim. Depois da Meia Maratona de Miami, a proprietária de uma cafeteria local me escreveu. Ela tinha ouvido duas meninas conversando sobre o Batman depois da prova. Quando elas perguntaram por que o Batman estava correndo, ela explicou a história da família Bibas. O pai das meninas então perguntou se todos poderiam rezar juntos. E ali estavam eles, seis pessoas, nenhuma delas judia, dentro de uma cafeteria, rezando pelo povo judeu, por Yarden Bibas, pela família Bibas e até por mim. Quando li aquela mensagem, desabei completamente.

”A bondade não tem fronteiras, religião ou idioma.”

Qual é o poder do esporte para preservar memórias, mobilizar pessoas e despertar empatia?

O esporte alcança as pessoas de uma maneira única. Você não precisa falar o mesmo idioma para compreender determinação, compaixão ou bondade. A corrida cria conversas entre completos desconhecidos. Se uma pessoa conhecer a família Bibas porque viu o Batman cruzando uma linha de chegada, então o esporte já terá feito algo incrivelmente poderoso.

Depois de tantos quilômetros percorridos em homenagem à família Bibas, o que você considera que mais te mudou?

Passei a ser muito menos focado em mim mesmo. Correr costumava ser sobre alcançar objetivos pessoais. Hoje, é sobre usar algo que amo para servir a algo muito maior do que eu. Percebi que as maiores conquistas não são medalhas ou recordes pessoais. São as vidas que você toca e a esperança que deixa para trás.

Quando sua jornada pela América do Sul terminar, o que você espera que as pessoas mais lembrem do Batman correndo?

Sem dúvida, da história. Se as pessoas se lembrarem do Batman, mas esquecerem porque ele estava correndo, então eu fracassei. Minha esperança é que, daqui a alguns anos, as pessoas não se lembrem do meu nome. Que se lembrem da família Bibas, da importância de permanecermos unidos e de que cada um de nós pode usar nossas próprias paixões para levar luz ao mundo.

O que passa pela sua mente nos quilômetros mais difíceis?

Durante os quilômetros mais difíceis, muitas vezes penso em uma mensagem que Yarden Bibas me enviou depois de uma das minhas provas. Também penso no broche do Batman que a avó de Ariel e Kfir me deu e que carrego comigo. Essas lembranças colocam tudo novamente em perspectiva. A dor que estou sentindo é temporária. O propósito é muito maior do que o desconforto. Penso nas famílias pelas quais estou correndo e nas pessoas que já não têm a oportunidade de fazer as coisas que muitas vezes consideramos garantidas. Se eu puder dar mais um passo para ajudar a manter viva a história deles, então cada quilômetro vale a pena.

”As maiores conquistas não são medalhas ou recordes. São as vidas que você toca e a esperança que deixa para trás.”

Quem é Yoel Levy

Treinador físico britânico, 27 anos, conhecido nas redes como The Jewish Fitness Coach. Desde 2025, corre maratonas e meias vestido de Batman em homenagem a Ariel, Kfir e Shiri Bibas. A jornada já passou por Jerusalém, Tel Aviv, Paris, Londres, Boston, Toronto, Sydney, Nova York, Panamá, Costa Rica, Miami e Cidade do Cabo e, na América do Sul, por Uruguai, Brasil (21 km da Meia do Rio), Argentina e Chile. Antes de cada largada, faz 70 segundos de silêncio.

Galeria de Imagens

qa01 qa02 qa03 qa04 qa05 qa06
Sabine Weiler

Sabine Weiler

Jornalista (Time Runners)

Jornalista