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168 horas, 866 km para entrar para a história

Aos 55 anos, Débora Simas, nascida em Rio do Sul (SC), transformou sete dias sobre uma esteira no maior resultado de sua carreira, e descobriu que algumas conquistas são grandes demais para caber apenas nos números.

Por: Dani Christoffer Edição 64 - agosto 2026
168 horas, 866 km para entrar para a história

”Talvez a gente não precise diminuir. Talvez precise apenas descobrir uma nova maneira de ir mais longe.”

Por Dani Christoffer, jornalista e editora-chefe da Runners Brasil. Fotos: Adriana Laffin e arquivo pessoal.

Aos 55 anos, Débora Simas, nascida em Rio do Sul (SC), transformou sete dias sobre uma esteira no maior resultado de sua carreira, e descobriu que algumas conquistas são grandes demais para caber apenas nos números.

Durante sete dias, a vida de Débora Simas coube dentro de uma esteira. Comer tinha uma razão: correr. Dormir tinha uma razão: voltar a correr. Descansar, recuperar, suportar a dor, controlar a cabeça e levantar mais uma vez faziam parte de um único objetivo. Foram 168 horas, 866 quilômetros, e anos demais por trás deles para que essa história pudesse ser contada apenas como um recorde.

Primeira mulher a correr 1000 km no Brasil, tricampeã e recordista da BR-135 e atleta com participações em mundiais, a ultramaratonista chegou aos 866 quilômetros depois de mais de duas décadas de esporte, competindo quase 300 provas, com pódios em 100% delas.

Foi uma operação especial: cerca de 110 profissionais, entre médicos, fisioterapeutas, enfermeira, nutricionista, treinador, técnicos, árbitros, profissionais de apoio e voluntários, em um sistema de revezamento que funcionou 24 horas por dia. Mas, no centro de toda essa estrutura, havia uma mulher fazendo algo que, no momento decisivo, ninguém poderia fazer por ela: continuar colocando um pé à frente do outro.

Ainda assim, havia uma história que permanecia inacabada. Em 2019, ela percorreu 800,61 quilômetros em sete dias. Saiu com os recordes brasileiro e sul-americano, mas sem o mundial que havia ido buscar. Sete anos depois, voltou, e, desta vez, não parou quando o recorde chegou.

O recorde em números

  • 866,21 km de prova em 7 dias
  • 168 horas, 24h por dia
  • 846,16 km: a marca mundial superada
  • 110 profissionais na operação
  • 55 anos e o melhor resultado da carreira

Quando a esteira finalmente parou

O recorde terminou, mas o corpo e a cabeça não obedeceram imediatamente ao relógio. Depois de passar sete dias pensando apenas no próximo quilômetro, Débora precisou reaprender uma coisa aparentemente simples: não havia mais necessidade de voltar para a esteira.

Débora, quero começar pelo depois. Qual foi a primeira sensação quando você desceu da esteira e percebeu que não precisava mais voltar para ela?

Foi uma mistura de alívio, felicidade e uma sensação muito difícil de explicar, mas também de continuidade. Eu concluí esse desafio, mas não desci da esteira com a ideia de que tinha chegado ao fim de alguma coisa. Pelo contrário: eu já desci pensando nos próximos desafios que quero superar.

Durante sete dias, tudo na minha vida tinha um único sentido: voltar para aquela esteira e continuar. Eu dormia sabendo que precisava levantar para correr. Comia para correr. Descansava para correr. Tudo era pensado para o próximo quilômetro. Quando terminou e eu percebi que não precisava mais voltar, demorou para a minha cabeça entender. Eu olhava para a esteira e pensava: “acabou mesmo?”. Foram tantos anos imaginando aquele momento que, quando ele chegou, eu não sabia exatamente o que sentir. Acho que primeiro veio o alívio. Depois, aos poucos, veio a dimensão do que a gente tinha conseguido.

Depois de sete dias vivendo em função do próximo quilômetro, como foi acordar na primeira manhã sem ter que correr?

Muito estranho. O corpo estava exausto, mas a cabeça ainda estava dentro da prova. Foram 168 horas vivendo uma rotina completamente fora do normal e, de repente, havia silêncio na esteira, mas não na vida. O desafio ali tinha sido concluído, porém começava outra etapa: câmeras, entrevistas, exames, compromissos e a recuperação do corpo.

Os primeiros dias foram um misto de “quero dormir” com uma agenda lotada. Eu estava extremamente cansada, mas ao mesmo tempo vivendo algo muito bonito, porque pude continuar recebendo o carinho de tantas e tantas pessoas que me apoiaram durante os sete dias no Beiramar Shopping. Isso me manteve em movimento de um jeito diferente.

A primeira coisa que pensei foi: “eu posso continuar deitada”. Parece uma coisa pequena, mas naquele momento era quase um luxo. Pela primeira vez em sete dias eu podia dormir sem a Magda me acordar para dizer que estava na hora de voltar para a esteira, mesmo que a vida ainda estivesse cheia de coisas acontecendo ao redor.

Se tirarmos os 866 quilômetros, o recorde e os números da história, o que ficou para você?

Ficaram as pessoas. Isso talvez tenha sido o que mais me surpreendeu. Eu entrei naquela esteira atrás de um sonho que era meu. Só que, conforme os dias foram passando, percebi que já não estava mais correndo sozinha. Tinha a minha equipe, tinha gente que vinha ao shopping todos os dias, pessoas que corriam ao meu lado, outras que gritavam meu nome, mandavam mensagens, acompanhavam de longe.

Os 866 quilômetros vão estar registrados. Mas o que eu vou guardar é olhar para os lados nos momentos em que estava no meu limite e encontrar alguém dizendo: “Vai, Débora”.

”Descobri que uma conquista pode ter um nome, mas pertencer a muita gente.”

Existe alguma Débora que entrou naquela esteira e que não saiu dela?

Existe. A Débora que ainda precisava provar para si mesma que conseguia ficou lá. Em 2019, eu cheguei muito perto. Fiz 800,61 quilômetros, conquistei os recordes brasileiro e sul-americano, mas não consegui o mundial.

Durante sete anos carreguei comigo a pergunta: “Será que eu consigo?”. Quando voltei, em 2026, essa pergunta subiu na esteira comigo. Hoje ela não está mais aqui. Eu não preciso mais provar que consigo. Agora eu sei. E não vou parar por aí, ainda tenho mais dois grandes recordes para buscar. Mas isso não é pro agora, agora eu preciso me recuperar bem para poder voltar a treinar e a seguir buscando meus sonhos, que já sei que não são só meus.

Antes da Ultra Deby

Há uma distância enorme entre correr nove quilômetros despretensiosamente e passar sete dias consecutivos sobre uma esteira. Débora percorreu essa distância aos poucos. Ela começou a correr aos 34 anos. Não havia um projeto de carreira esportiva ou a ambição de estabelecer marcas mundiais. Havia uma mulher trabalhando, pagando contas e vivendo uma rotina semelhante à de tantas outras brasileiras. A ultramaratonista ainda nem existia.

Antes da ultramaratonista, dos pódios e dos recordes, quem era a Débora?

Uma brasileira, como tantas que todos os dias acordam e correm atrás de seus sonhos. E, para falar a verdade, continuo sendo. Nunca tive uma vida montada ao redor do esporte. Sempre trabalhei, paguei minhas contas, organizei meus horários e encaixei os treinos onde era possível. Antes de alguém me chamar de ultramaratonista, eu já era uma pessoa muito determinada. Talvez a corrida só tenha encontrado uma forma de mostrar isso.

Você começou a correr aos 34 anos. O que aquela mulher estava procurando quando participou da primeira prova?

Ela não estava procurando um recorde mundial, isso eu posso garantir. Eu trabalhava em uma lanchonete dentro de uma academia em Florianópolis e surgiu a oportunidade de participar de uma prova de nove quilômetros. Fui de uma maneira muito despretensiosa. Não existia um grande plano.

Minha treinadora percebeu que eu tinha uma resistência diferente e começou a me direcionar para distâncias maiores. Às vezes penso nisso: uma decisão tão pequena mudou completamente a minha vida. Eu fui correr nove quilômetros sem imaginar que, anos depois, estaria tentando correr durante sete dias.

Sua primeira maratona veio em 3h27 e já com pódio. Em que momento percebeu que a corrida poderia ocupar um lugar muito maior na sua vida?

A primeira maratona foi um sinal muito forte. Fazer 3h27 e subir ao pódio logo na primeira experiência mostrou que talvez houvesse alguma coisa ali que eu ainda não conhecia sobre mim.

Mas acho que o mais importante não foi o resultado. Foi perceber como eu me sentia correndo. Eu gostava de descobrir até onde conseguia ir. Quando terminava uma distância, surgia aquela curiosidade: “E se eu tentar um pouco mais?”. Essa pergunta nunca mais foi embora.

O que daquela Débora de 34 anos ainda está presente na mulher que, aos 55, alcançou o maior resultado da carreira?

A curiosidade. Ela continua sendo o que me move. Ainda quero descobrir o que existe depois do ponto em que acho que não consigo mais, porque é justamente ali, nesse limite, que eu me encontro de verdade.

E existe também a mesma Débora trabalhadora, que não se separa da atleta em nenhum momento. O recorde mundial não apagou a mulher que acorda cedo, que chega cansada, que encaixa o treino entre jornadas longas. Pelo contrário: talvez seja exatamente essa mulher comum, feita de rotina e esforço diário, que tenha sustentado tudo o que parecia extraordinário.

Quando 42 km deixam de ser o fim

Vieram as maratonas. Depois, as ultramaratonas. Vieram a BR-135, os 1000 quilômetros, a Volta à Ilha, as competições internacionais, os pódios e as centenas de largadas. Mas, nas distâncias realmente longas, Débora encontrou uma adversária que não aparece nas planilhas de pace. Ela mesma.

Em que momento uma maratona deixou de parecer longa para você?

Não sei se deixou de parecer longa. Acho que mudou a minha referência do que é longe. Quando você começa a fazer ultramaratonas, entende que o corpo consegue permanecer em movimento por muito mais tempo do que imaginava. Quarenta e dois quilômetros continuam merecendo respeito. A diferença é que passei a ter curiosidade pelo que acontecia depois deles.

O que você encontrou na ultramaratona que não encontrou nas distâncias menores?

Encontrei a cabeça. Nas distâncias muito longas chega um momento em que não é mais apenas sobre pernas, condicionamento ou velocidade. Você fica muito tempo consigo mesma. Tem que negociar com a dor, com o sono, com o medo, com a vontade de parar. A ultramaratona me colocou diante de mim mesma muitas vezes. E nem sempre gostei do que encontrei. Mas aprendi a permanecer.

Entre centenas de provas, Brasil 135, os 1000 km e competições internacionais, qual experiência mais transformou você, mesmo que não tenha sido seu melhor resultado?

A tentativa de 2019 me transformou muito. Foram 800,61 quilômetros em sete dias. Eu saí com os recordes brasileiro e sul-americano, então havia muito para comemorar. Mas o recorde mundial não veio.

Hoje consigo enxergar o valor daquela experiência de outra maneira. Talvez eu precisasse daqueles quilômetros que faltaram. Eles me ensinaram que uma derrota, se podemos chamar assim, não precisa ser o fim de uma história. Às vezes ela é o começo da parte mais importante. Voltar ao Beiramar Shopping, sete anos depois, e ser acolhida da forma que eu fui acolhida, reforçou ainda mais esse pensamento.

”Chegar perto também tem uma força: você deixa de pensar ‘será que é possível?’ e começa a pensar ‘o que preciso fazer para conseguir?’”

Depois de mais de duas décadas competindo, ainda existe medo antes de uma largada?

Mas o frio na barriga, aí sim, e eu acho bom que exista. O dia em que eu achar que sei exatamente o que vai acontecer, seja em corridas ou em uma ultramaratona, provavelmente estarei cometendo um erro. A distância sempre pode surpreender você.

Mas uma coisa eu posso afirmar: o medo hoje não me paralisa. Ele me lembra de respeitar a prova.

Os 800,61 km que não bastaram

Talvez seja impossível compreender completamente os 866 quilômetros de 2026 sem voltar a 2019. Naquele ano, Débora correu durante sete dias e chegou aos 800,61 quilômetros. Conquistou dois recordes, brasileiro e sul-americano. Para quase qualquer pessoa, seria a conclusão perfeita de uma história. Para ela, faltava um capítulo.

Em 2019 você correu mais de 800 km, conquistou recordes brasileiro e sul-americano, mas o mundial não veio. Você conseguiu celebrar ou enxergava primeiro aquilo que tinha faltado?

Naquele momento era difícil não olhar para o que faltou. Eu sabia que 800,61 quilômetros eram uma conquista enorme. Sabia dos recordes brasileiro e sul-americano. Mas, quando você passa sete dias perseguindo um objetivo e chega tão perto, os quilômetros que faltaram parecem maiores do que os 800 que você percorreu.

Mas em momento nenhum eu desmereci aquele feito. Celebrei, vivi o momento, mas jamais desisti do sonho. Aquela Débora fez tudo o que podia naquele momento. E foi ela que tornou possível a Débora de 2026.

O que dói mais para uma atleta: ficar muito longe de um objetivo ou chegar perto o suficiente para quase tocá-lo?

Chegar perto. Quando está muito longe, talvez você aceite que ainda não estava preparada. Quando consegue enxergar o objetivo, quase tocar nele, fica imaginando onde poderia ter feito diferente. Mas chegar perto também tem uma força, porque você deixa de pensar “será que é possível?” e começa a pensar “o que preciso fazer para conseguir?”. E isso não apenas nas provas de corrida, isso em tudo na nossa vida. É assim desde que descobrimos os primeiros passinhos, ainda bebês, e a maior façanha do ser humano talvez seja manter essa chama sempre acesa.

Em algum momento desses anos você pensou que talvez aquele recorde não fosse para você?

Não diria que eu pensei que não fosse pra mim, mas eu me questionei se conseguiria chegar lá, afinal, sou humana. Existiram dúvidas. Existiram momentos em que pensei na minha idade, na dificuldade de organizar tudo novamente, no tamanho da preparação e no que sete dias fariam com meu corpo.

Mas havia uma coisa que me incomodava mais do que o medo de tentar novamente: imaginar que um dia eu poderia olhar para trás e pensar que não tentei quando ainda tinha condições. Eu preferia descobrir a resposta na esteira.

”Eu preferia descobrir a resposta na esteira.”

Por que voltar justamente ao mesmo lugar, ao mesmo tipo de desafio? Existia alguma conta emocional para fechar?

Ele foi parte ativa dessa minha trajetória, um lugar que me acolheu, que acreditou no projeto desde o início e que abriu as portas para que algo tão grande pudesse acontecer. Foi ali que vivi uma das maiores experiências da minha carreira, com uma estrutura e um apoio que fizeram toda a diferença, e foi ali também que o recorde mundial escapou por muito pouco.

Voltar tinha um significado muito especial. Era mais do que retomar uma conversa interrompida sete anos antes, era reencontrar um lugar que confiou em mim quando tudo ainda era só uma ideia, e que novamente se colocou ao lado do sonho em 2026, com a mesma generosidade e entrega. O Beiramar Shopping fez valer o seu slogan, o shopping no coração da cidade, que se transformou na minha casa durante sete dias e acolheu a todos, para que juntos a gente buscasse esse recorde.

Em 2019 eu saí dali sabendo que faltava alguma coisa. Em 2026 voltei para buscar.

O recorde que foi construído quando ninguém estava olhando

Existe uma distância entre a fotografia de uma recordista mundial e a vida necessária para chegar até ela. Débora não teve dois anos exclusivamente dedicados ao treinamento: teve dois anos em que o treinamento precisou coexistir com dois empregos, cansaço, compromissos, contas e rotina. Não existia uma vida esperando que o sonho acontecesse, o sonho é que precisava sobreviver dentro dela.

Você preparou um recorde mundial enquanto conciliava treinos, dois empregos e uma vida comum. Como se faz um sonho desse tamanho caber dentro da vida que existe?

Fazendo caber. Não é sobre encaixar o sonho na vida, é sobre sustentar o sonho dentro da vida real, mesmo quando ela não pausa para te esperar. Não existe fórmula bonita. Eu conciliava dois trabalhos e o treino precisava acontecer antes, depois ou entre essas coisas. Muitas vezes eu saía de um lugar direto para o outro, com o corpo cansado e a cabeça já tentando negociar comigo mesma. E ainda assim eu ia.

Foram dois anos de preparação, com os últimos seis meses muito intensos. Muitas vezes eu estava cansada antes mesmo de começar a treinar. Só que ninguém acorda um dia pronta para correr 866 quilômetros. Isso não nasce de um momento de inspiração, nasce de repetição, de disciplina silenciosa, de escolhas que ninguém vê.

O recorde foi construído nesses dias em que ninguém estava olhando, quando seria muito mais fácil dizer: “Hoje não”. Mas foi justamente nesses dias que ele começou a existir de verdade. Porque é quando ninguém está vendo que você descobre se o sonho é só ideia, ou se ele já virou parte de você.

”O recorde foi construído nesses dias em que ninguém estava olhando.”

Muitas vezes você treinou sozinha em casa, acompanhada apenas pela sua gata. Quando ninguém estava vendo, quem sustentava a sua convicção de que aquilo era possível?

Eu precisava sustentar. Minha equipe acreditava, as pessoas próximas acreditavam, mas existiam muitas horas em que era só eu, a esteira e a minha gata ali por perto. E isso ensina muito.

É fácil acreditar em um sonho quando existe gente aplaudindo. O difícil é manter essa crença numa terça-feira qualquer, cansada depois do trabalho, quando ninguém está vendo e o recorde mundial parece uma coisa muito distante, quase irreal. E, no fim, foi exatamente nesses dias silenciosos que ele começou a ser construído e que ele ganhou base para virar realidade. Eu precisei dos dias em silêncio, onde passava horas em cima da esteira, na companhia de minhas filhas de quatro patas, da minha televisão, do meu rádio, para chegar na Débora que percorreu mais de 866 km durante sete dias consecutivos. Tudo foi importante, pois tudo é uma construção.

Existe uma diferença entre admirar a disciplina de alguém e conhecer o preço dela. Do que você precisou abrir mão para chegar até aqui?

De tempo. De descanso. De encontros. De finais de semana. Muitas vezes, de conforto. As pessoas veem os sete dias porque são a parte extraordinária. Mas não veem todas as escolhas pequenas feitas durante anos. Disciplina tem um preço. Para dizer “sim” para um sonho muito grande, você precisa aprender a dizer “não” para muitas coisas pelo caminho.

”Disciplina tem um preço. Para dizer sim para um sonho muito grande, você precisa aprender a dizer não para muitas coisas pelo caminho.”

E o que você decidiu que não abriria mão, nem por um recorde mundial?

De ser quem eu sou. Eu jamais deixaria que um recorde me transformasse em alguém que não reconhecesse depois. Minha vida, meu trabalho, as pessoas que amo, minhas relações, tudo isso continua existindo. O esporte é uma parte enorme da minha vida, mas não pode ser maior do que a própria vida.

168 horas: quando o mundo se reduz ao próximo passo

Pensar em sete dias é grande demais. Pensar em 866 quilômetros também. Débora encontrou uma maneira diferente de atravessar a dimensão do desafio: fazê-lo ficar pequeno. O próximo quilômetro, a próxima hora, a próxima refeição, o próximo descanso. E depois, novamente, o próximo passo.

Cento e sessenta e oito horas é tempo demais para pensar no todo. Como você dividia esse desafio mentalmente?

Eu não corria 168 horas. Eu corria até o próximo objetivo. Se você estiver cansada, com dor, dormindo três horas e pensar “ainda faltam quatro dias”, a cabeça pode destruir você. Então eu diminuía o tamanho do problema.

Tem uma coisa que a ultramaratona me ensinou: quando o caminho inteiro parece impossível, cuide apenas do próximo passo.

Houve momentos de dor extrema, sono, cãibras e exaustão. Como você aprendeu a diferenciar “está doendo” de “eu realmente preciso parar”?

Com experiência e, principalmente, confiando na equipe. Quem corre ultradistância aprende que desconforto e dor fazem parte. Mas existe uma diferença entre uma dor que você consegue administrar e um sinal de que alguma coisa pode estar errada. Depois de tantas horas, você também perde um pouco a capacidade de avaliar tudo sozinha. Por isso havia médico, fisioterapeuta, treinador, enfermagem, nutrição. Às vezes eu queria continuar e precisava ouvir que era hora de reduzir. Em outras, minha cabeça queria parar e eles sabiam que meu corpo ainda tinha condições.

Confiar neles foi parte do recorde. Aqui, em especial, eu tinha a Magda Chagas ao meu lado. Minha enfermeira, coordenadora geral, corredora, mas acima de qualquer prenome, minha amiga. E mais: parar nunca foi uma das possibilidades. Eu tinha as pausas, essas sim faziam parte do planejamento, mas apertar o botão vermelho, aquele que encerrava, apenas no fim do ciclo dos sete dias.

”Confiar neles foi parte do recorde.”

Qual foi o momento dessas 168 horas em que você esteve mais perto de pensar “chega”?

Eu nunca pensei em desistir, não fazia parte do projeto e eu estava muito focada, assim como toda a minha equipe. Mas a quarta-feira à noite foi muito difícil. Tive uma cãibra muito forte, cheguei perto de apagar e nossa estratégia precisou ser refeita. Quando o corpo chega naquele lugar e você sabe que ainda existem muitos quilômetros pela frente, a cabeça começa a fazer perguntas perigosas.

Também tivemos uma madrugada de sexta para sábado muito dura, com contraturas e bastante dor. Nesses momentos eu não precisava que alguém me dissesse que estava fácil, porque não estava. Precisava que me lembrassem por que eu tinha escolhido estar ali. Meu mentor fazia muito isso: me trazia de volta quando eu entrava no “buraco”.

E qual foi o momento em que descobriu uma força que nem sabia que ainda tinha?

Foram dois momentos. No sábado, pelo desgaste acumulado, todo mundo imaginava que seria um dos dias mais críticos. E aconteceu o contrário. Meu corpo respondeu, minha cabeça respondeu e conseguimos avançar muito. Foi quase como se, depois de tantos dias negociando com o meu corpo, naquele momento nós dois tivéssemos finalmente feito um acordo: “Vamos terminar isso juntos”.

E outro momento foi no domingo, depois das 9h14, quando eu superei o recorde que era da Emma. Uma força sobrenatural me moveu até os quilômetros finais. Meus técnicos pediam para eu reduzir e eu segui aumentando a velocidade. Era como se eu corresse na rua com vento no rosto, aquela sensação de dever cumprido, do “eu consegui”, e o apoio do público foi fundamental, um combustível indescritível.

9h14. E ela continuou.

No domingo, veio finalmente o momento imaginado durante anos. Às 9h14, a marca de 846,16 quilômetros estava atrás dela e Débora havia conseguido. A equipe comemorava, o público comemorava. A pergunta que carregara desde 2019 tinha uma resposta. Mas havia um detalhe que praticamente ninguém sabia: para Débora, ainda não tinha terminado.

Às 9h14 daquele domingo você ultrapassou a marca mundial. O que passou pela sua cabeça exatamente naquele momento?

Primeiro eu pensei: “Consegui”. É uma palavra pequena para uma coisa tão grande. Vieram 2019, os treinamentos, as madrugadas, as dores, as pessoas que estavam comigo. Foram muitos anos comprimidos em alguns segundos. Mas eu precisava seguir focada.

E quando olhei ao redor e vi todo mundo comemorando, entendi uma coisa muito bonita: aquele recorde já não era mais meu. Eu tinha corrido os quilômetros, mas muita gente tinha chegado comigo até ali.

E eu tinha um compromisso comigo mesma: o número 860 eu queria alcançar. Fui além, eu consegui. Eu cumpri com êxito a promessa que tinha feito apenas pra mim mesma, no silêncio dos meus pensamentos.

Você já tinha alcançado o objetivo, mas continuou porque carregava em segredo a meta dos 860 km. Por que aquele número era tão importante para você?

Porque eu não queria apenas tocar no recorde. Queria entregar tudo o que ainda tivesse. Os 846,16 quilômetros eram a marca que precisávamos superar, mas, dentro de mim, existia essa meta dos 860. Era algo que eu guardava porque não queria colocar mais uma pressão sobre a equipe nem sobre mim.

Quando o recorde veio, poderia ter desacelerado e estaria tudo certo. Só que eu sabia que ainda tinha alguma coisa para entregar. E, no fim, fomos além até dos 860: chegamos aos 866 quilômetros. Isso tornou tudo ainda mais especial.

”Eu não queria apenas tocar no recorde. Queria entregar tudo o que ainda tivesse.”

Existe algo muito forte nisso: o mundo já dizia “você conseguiu”, mas você ainda dizia “não terminei”. Isso diz algo sobre quem é a Débora?

Acho que diz muito. Sempre fui assim. Quando assumo um compromisso, quero saber até onde consigo levá-lo.

Mas hoje também entendo que ir além não significa ignorar limites. Durante aqueles sete dias eu tive uma equipe inteira dizendo quando acelerar, quando reduzir, quando dormir, quando cuidar do corpo. Muitos me perguntaram o que era aquela folha que eu tanto olhava, colada na esteira e em que eu fazia anotações. Ali estava meu objetivo traçado, além de bilhetinhos como “Não dance”, “Não cante”, “Tente não conversar com o público”. Em alguns momentos eu até ficava chateada, pois aquilo me fazia bem, mas eu também tinha consciência de que qualquer distração poderia ocasionar uma queda, uma lesão, e ali todos queriam que eu chegasse naquele 9 de agosto, ao meio-dia, com um recorde conquistado.

Persistência não é continuar de qualquer jeito. É encontrar uma maneira de continuar quando ainda existe caminho.

”Persistência não é continuar de qualquer jeito. É encontrar uma maneira de continuar quando ainda existe caminho.”

Aos 55, o melhor ainda acontece

Talvez uma das partes mais importantes dessa história não esteja no painel da esteira. Está na idade em que ela aconteceu: aos 55 anos, Débora entregou o maior resultado de uma carreira de mais de duas décadas.

O que você gostaria que a sua história dissesse para quem acredita que já passou da hora de tentar?

Que não passou. Por isso, espero que meu legado não sejam apenas os 866 quilômetros. Gostaria que alguém olhasse para a minha história e pensasse: “Talvez eu também possa tentar”.

E aqui não falo apenas do esporte. Não precisa ser correr uma ultramaratona. Pode ser estudar, começar uma profissão, mudar alguma coisa na vida, voltar a sonhar aos 50, aos 60, aos 70. Se a minha história fizer uma pessoa acreditar que ainda existe alguma coisa possível para ela, então os 866 quilômetros terão valido muito mais do que um recorde.

Uma mensagem final, uma frase?

Não deixe que alguém determine a distância dos seus sonhos. E, principalmente, não seja você a pessoa a fazer isso.

”Não deixe que alguém determine a distância dos seus sonhos. E, principalmente, não seja você a pessoa a fazer isso.”

Até onde ainda dá para ir?

Depois de mais de duas décadas correndo, centenas de competições, 1000 quilômetros, BR-135, mundiais, recordes, uma tentativa que ficou incompleta e sete anos carregando a pergunta sobre se conseguiria ou não chegar lá, Débora finalmente atravessou a linha que durante tanto tempo esteve à sua frente. Mas talvez a história termine justamente no momento em que os números deixam de ser suficientes.

Se durante sete dias você perguntou ao seu corpo e à sua cabeça “até onde eu consigo ir?”, hoje, depois de tudo isso, a pergunta é outra: até onde você ainda quer ir?

Hoje eu não sei dizer em quilômetros. E talvez essa seja a resposta mais bonita que eu poderia dar. Durante muito tempo, existia um número: 846,16. Ele estava na minha cabeça, nos meus treinos, na nossa planilha. Era uma linha muito clara que eu queria atravessar. Atravessei. Depois fui aos 860. E terminei com 866.

Agora quero me permitir não colocar outro número imediatamente na minha frente. Quero descansar, viver essa conquista, agradecer às pessoas que chegaram comigo e deixar meu corpo se recuperar. Depois, tenho certeza de que alguma coisa vai começar a me inquietar novamente. Eu me conheço.

Aos 55 anos, depois de correr 866 quilômetros, descobri que a pergunta que mais me interessa já não é “até onde eu consigo ir?”. É “o que ainda tenho vontade de descobrir?”. Enquanto existir essa curiosidade, eu ainda tenho muito caminho pela frente.

Quem é Débora Simas

Nascida em Rio do Sul (SC), 55 anos, mãe de uma gata e uma cachorra. Começou a correr aos 34, trabalhando em uma lanchonete de academia em Florianópolis. Primeira mulher a correr 1000 km no Brasil, tricampeã e recordista da BR-135, com participações em mundiais e pódio em 100% das quase 300 provas que disputou. Em 2019, correu 800,61 km em sete dias (recordes brasileiro e sul-americano). Em agosto de 2026, no Beiramar Shopping, superou às 9h14 de domingo a marca mundial de 846,16 km, e seguiu até os 866,21 km em 168 horas, o novo recorde mundial de corrida em esteira.

Os sete dias: Beiramar Shopping, Florianópolis, agosto de 2026. Fotos: Adriana Laffin.

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Dani Christoffer

Dani Christoffer

Editora Runners Brasil e Jornalista (Time Runners)

Jornalista Periodista • Maratonista VIVÍ MEJOR @ellitoral Editora-chefe Revista Runners Brasil