A mente do corredor no ritmo mais forte, e a diferença entre o incômodo que faz parte do treino e o sinal que pede para parar.
Por Carô Queiroz, psicóloga, coluna Mente em Movimento
Todo corredor sabe que correr no limite não é apenas um desafio físico, mas também mental. Quando a intensidade aumenta, entramos em contato com sensações que naturalmente provocam desejo de parar: respiração acelerada, aumento da frequência cardíaca, fadiga muscular e a percepção de que manter aquele ritmo exige muito esforço.
A capacidade de permanecer nesse estado por alguns minutos é uma das habilidades psicológicas que diferencia um treino bem executado de uma desistência precoce.
A forma como uma pessoa responde a uma situação desafiadora não depende apenas do evento em si, mas também da interpretação que ela faz daquela experiência. O mesmo desconforto físico pode ser percebido como uma etapa esperada de um treino mais intenso ou como um sinal de incapacidade, dependendo de experiências anteriores, expectativas, objetivos e recursos percebidos para lidar com aquela situação.
O que a psicologia chama de flexibilidade psicológica
É nesse ponto que conceitos como aceitação e tolerância ao mal-estar se tornam relevantes. Para Steven Hayes, psicólogo clínico americano e professor na Universidade de Nevada, a flexibilidade psicológica envolve a capacidade de permanecer em contato com experiências internas difíceis sem permitir que elas determinem automaticamente nossas ações.
Na prática da corrida, isso significa perceber pensamentos como “não vou conseguir” ou sensações como fadiga e desconforto sem necessariamente abandonar o planejamento ou entrar em uma luta contra aquilo que está sendo sentido.
”A mente treinada não é aquela que nunca quer parar. É aquela que sabe quando insistir e quando ajustar.”
O desconforto existe, mas não significa necessariamente que algo está errado. Nesses momentos, algumas estratégias cognitivas ajudam a manter o foco.
- Dividir o esforço em pequenas etapas. Em vez de concentrar a atenção na distância total ou na dificuldade que ainda falta, o corredor direciona o foco para ações imediatas: manter o ritmo até determinado ponto do percurso, controlar a respiração por alguns minutos, executar bem o próximo bloco do treino. Isso reduz a sensação de sobrecarga e aumenta a percepção de controle.
- Direcionar a atenção para a respiração, a postura ou a passada.
- Ajustar pensamentos automáticos. Trocar “não vou conseguir” por interpretações mais realistas: “está difícil, mas essa sensação faz parte do estímulo que estou treinando”.
A proposta não é eliminar sensações desconfortáveis, mas desenvolver uma relação diferente com elas. Entender que sentir desconforto não significa que é preciso interromper a ação. Em muitos contextos, aprender a permanecer presente diante de uma experiência difícil é justamente o que permite alcançar os objetivos que são importantes para você.
Aprenda a diferenciar
Desconforto esperado
- Incômodo crescente durante um treino intenso
- Esforço respiratório compatível com o ritmo
- Fadiga muscular proporcional à intensidade
- Vontade de diminuir o ritmo nos últimos blocos
Sinal de alerta, exige atenção e muitas vezes parar
- Dor aguda ou dor que altera a mecânica da corrida
- Tontura ou confusão mental
- Falta de ar desproporcional ao esforço
- Qualquer sinal que indique comprometimento da saúde
Na corrida, isso significa compreender que existe uma diferença entre o desconforto esperado e o sinal de alerta real. Aquele incômodo crescente de um treino intenso, a sensação de esforço respiratório ou a fadiga muscular compatível com a intensidade proposta fazem parte da adaptação ao treinamento.
”Desenvolver tolerância ao desconforto sem perder a capacidade de escutar o corpo.”
Essa diferenciação é uma das grandes aprendizagens da corrida. A habilidade de sustentar um ritmo mais forte ou constante não está em ignorar sinais, mas em interpretar o que está acontecendo, entendendo quando é hora de insistir e quando é hora de ajustar.
Uma habilidade que se constrói
Importante lembrar que a tolerância ao desconforto é construída progressivamente, e todos são capazes de desenvolvê-la. Um corredor pode ampliar esse repertório aprendendo a:
- Permanecer alguns segundos a mais em uma sensação difícil durante um treino controlado.
- Praticar atenção à respiração quando o esforço aumenta.
- Observar pensamentos sem reagir imediatamente a eles.
- Refletir depois de cada treino sobre como lidou com o desafio.
E esse aprendizado ultrapassa a pista
A capacidade de permanecer diante de situações desconfortáveis é fundamental em diferentes áreas da vida. Pessoas que desenvolvem maior tolerância ao desconforto conseguem seguir engajadas em processos importantes mesmo quando eles envolvem insegurança ou frustração.
A corrida oferece um ambiente concreto para treinar essa habilidade porque transforma conceitos abstratos em experiências observáveis. O corredor sente a aceleração da respiração, percebe a vontade de diminuir o ritmo e aprende, pouco a pouco, que nem todo desconforto é perigoso e precisa ser evitado. Ao mesmo tempo, aprende que escutar o corpo é parte fundamental da evolução.
Correr exige preparo físico, mas exige também uma mente capaz de interpretar sinais, regular respostas emocionais e tomar decisões, independentemente do seu ritmo. A evolução do corredor depende dessa capacidade de diferenciar o desconforto esperado do treino dos sinais que exigem cuidado, construindo uma relação mais consciente com o próprio corpo.
Não é sobre nunca querer parar. É sobre saber o que fazer quando a vontade aparece.
Carô Queiroz é psicóloga e assina a coluna Mente em Movimento.