Construindo Corredores Fortes

200 milissegundos: a velocidade acontece no tempo de contato de cada passada

Quanto menor o tempo de contato com o solo, maior precisa ser a capacidade de produzir força. Como força, potência, pliometria e economia de corrida se unem para destravar seus 5 e 10 km.

Por: Gustavo Jorge Edição 64 - agosto 2026
200 milissegundos: a velocidade acontece no tempo de contato de cada passada

Quando um corredor decide baixar seu tempo nos 5 km ou nos 10 km, a primeira estratégia costuma ser aumentar os treinos de velocidade. Faz sentido, mas apenas até certo ponto.

Quanto maior a velocidade, menor é o tempo disponível para produzir força contra o solo. Em ritmos elevados, cada passada acontece em cerca de 200 milissegundos. Nesse curto intervalo, o corpo precisa absorver o impacto, estabilizar as articulações e gerar força suficiente para impulsionar o próximo passo. Se essa força não for produzida rapidamente, a velocidade simplesmente não acontece.

Na fisiologia, essa capacidade é conhecida como Rate of Force Development (RFD), ou taxa de desenvolvimento de força. Quanto maior a RFD, maior a capacidade de aplicar força ao solo durante o breve contato de cada passada.

Mais do que aumentar a velocidade máxima, essa adaptação melhora a economia de corrida, reduzindo o custo energético de cada passada e permitindo sustentar ritmos elevados por mais tempo. É a diferença entre correr rápido por alguns quilômetros e sustentar o ritmo até a chegada.

A velocidade segue uma sequência

Cinco etapas, nenhuma delas pode ser pulada:

  • 1. Técnica: controle motor antes de qualquer carga.
  • 2. Força: a base que sustenta tudo o que vem depois.
  • 3. Potência: força aplicada com intenção de velocidade.
  • 4. Pliometria: energia elástica e resposta rápida.
  • 5. Corrida: aplicação, onde tudo vira desempenho.

Desenvolver potência antes de consolidar força e controle motor aumenta o risco de lesões e reduz a eficiência do treinamento.

Força não é apenas levantar mais peso

O Velocity Based Training (VBT) mostrou que a velocidade de execução também controla a carga do treinamento. Para o corredor, a principal mensagem é simples: em determinados momentos, mover a carga com máxima intenção de velocidade é tão importante quanto o peso utilizado.

Produzir força, porém, é apenas parte da equação. O organismo também precisa transferi-la ao solo com eficiência, e é aí que entram o pé e o tornozelo.

O pé e o tornozelo: transformando força em velocidade

Músculos, tendões e fáscias funcionam como um sistema elástico. Durante o contato com o solo, armazenam energia e a devolvem na impulsão seguinte. Essa capacidade depende da rigidez musculotendínea, o stiffness.

Rigidez não significa um tornozelo travado. Significa um sistema estável o suficiente para evitar perdas de energia e móvel o bastante para absorver impactos.

”Rigidez não significa um tornozelo travado. Significa um sistema estável o suficiente para não perder energia, e móvel o bastante para absorver impactos.”

Fortalecer panturrilhas e a musculatura intrínseca dos pés, utilizar exercícios isométricos, equilíbrio unipodal e pequenos saltos progressivos melhora essa transmissão de força, favorecendo a economia de corrida.

Pliometria: potência exige progressão

A pliometria é um método de treinamento que utiliza movimentos rápidos, como saltos e impulsões, para desenvolver a capacidade de produzir força em pouco tempo. O objetivo é melhorar o aproveitamento da energia elástica armazenada nos músculos e tendões, tornando a passada mais eficiente e responsiva.

Ela favorece adaptações nas estruturas elásticas, aumentando o reaproveitamento da energia durante a corrida. Mas a carga precisa ser controlada.

Progressão sugerida: contatos com o solo por sessão

  • Iniciante: 40 a 60 contatos
  • Intermediário: 60 a 100 contatos
  • Avançado: 80 a 140 contatos

Antes de aumentar a intensidade, é preciso dominar a técnica.

A carga é controlada por cinco variáveis

  • Intensidade dos exercícios escolhidos
  • Contatos: número de impactos com o solo
  • Velocidade de execução do movimento
  • Recuperação entre séries e sessões
  • Técnica: qualidade acima de volume

A velocidade começa antes da largada

Quanto mais rápido queremos correr, menos tempo temos para produzir força. A velocidade não nasce apenas dos treinos de tiro. Ela é resultado da construção da força, do desenvolvimento da potência, da melhoria da RFD, do treinamento da rigidez musculotendínea e da capacidade de transferir força ao solo com eficiência.

O corredor mais rápido não é, necessariamente, aquele que treina mais. É aquele que consegue aplicar mais força ao solo no menor tempo possível, armazenar e reutilizar melhor a energia elástica e repetir esse processo milhares de vezes ao longo de uma prova.

”O corredor mais rápido é aquele que aplica mais força ao solo no menor tempo possível.”

Referências: Balsalobre-Fernández, C. et al. Journal of Strength and Conditioning Research, 2016. Chu, D. A.; Myer, G. D. Plyometrics. Human Kinetics, 2013.

Gustavo Jorge

Gustavo Jorge

Fisiologista do Exercício (Time Runners)

Fisiologista do Exercício