”A corrida sempre foi uma terapia para mim”. Natural de Uberlândia (MG), Gustavo Carneiro é amante do esporte desde criança — foi campeão mineiro de Tênis e campeão brasileiro de Squash. Em 2013, sua vida mudou com a descoberta de um câncer; em 2017, um novo diagnóstico de lipossarcoma abaixo da panturrilha levou à amputação. Mas o obstáculo não foi maior do que a sua fé, e ele se viu diante da oportunidade de se tornar atleta profissional. Confira:
Você encarou muito bem a notícia da amputação. De onde buscou forças?
Foi um momento muito complicado, e sempre tive muita fé em Deus. Quando o câncer voltou em 2017 e o médico confirmou que deveria amputar, eu só pensava que queria ficar vivo, independentemente da perna. Colocar a vida em perspectiva fez toda a diferença: perder a perna era muito pouco perto da minha vida.
Como era sua relação com a corrida antes da amputação?
Sempre amei correr — a corrida sempre foi uma terapia para mim. Muitas vezes saía com um problema na cabeça e voltava com a solução. Comecei aos 15 anos, indo para o kung-fu correndo às 5h30. Entre 2009 e 2014 parei por dores no joelho, mas em 2015 voltei a treinar e, em 2016, completei minha primeira maratona, no Rio de Janeiro.
E depois da amputação?
Amputei em outubro de 2017 e desde então venho me esforçando para voltar a correr com uma prótese de corrida. Precisei de uma segunda cirurgia em 2019, o que atrasou o sonho. Hoje, com a prótese bem ajustada, tenho feito uns trotes algumas vezes por semana. Poder voltar a correr, nem que sejam 100 metros, já está sendo maravilhoso.
Já fez uma maratona amputado? Pretende fazer?
Ainda não, mas com certeza farei. Em abril de 2018, com apenas cinco meses de amputação, completei os 30 km da Ultra Fiord, na Patagônia chilena, com prótese de andar e muletas. Achei que faria em 15h, mas precisei de 27h. O percurso era todo de lama — em muitos momentos era preciso rastejar — e cruzamos a madrugada sem dormir, com -5 ºC. Ainda não fiz uma maratona, mas a Ultra Fiord já me deu aquele gostinho de superação.
Como amadureceu a ideia de se dedicar ao tênis?
Foi muito rápido. Acabei de sair da sala do médico em SP, sentei na recepção e comecei a pensar como seria a vida amputado. Aos 14 anos eu jogava tênis e sonhava em ser profissional. Ali decidi que seria atleta paralímpico e mudaria minha vida para disputar Tóquio 2020. Eu nem sabia como o tênis paralímpico (jogado em cadeira de rodas) era jogado, mas tive a certeza de que queria esse caminho.
E a sensação de saber que vai competir em nível olímpico?
É maravilhoso pensar que consegui. Um filme passa na minha cabeça todos os dias, desde a notícia da amputação até aprender a jogar na cadeira. Foram três anos de muita dedicação; tive pouco tempo para aprender um novo esporte e jogá-lo bem a ponto de conseguir a vaga. A sensação é de que já ganhei a minha medalha de ouro.
Como está a sua rotina?
Treino seis dias por semana, entre quadra, academia e fisioterapia, num total de 6h por dia. Procuro me alimentar bem e dormir mais cedo, já que acordo todos os dias às 5h30.