Maio é o mês da saúde mental. Um convite coletivo à pausa, ao olhar interno, à revisão dos excessos silenciosos que vamos acumulando na rotina; muitas vezes sem perceber. E como colunista da Corrida e Carreira, senti que precisava dividir uma experiência pessoal que, por muito tempo, mantive guardada como uma fraqueza. Hoje entendo que foi um ponto de virada.
Em 2020, treinei intensamente para a minha primeira prova internacional, a Semi de Paris. Era um marco para mim, atleta amador, apaixonado pela corrida, disciplinado nos treinos e com aquele frio na barriga típico de quem está prestes a realizar um sonho. Os dias que antecederam o embarque foram de ansiedade boa. As malas prontas, a rota estudada e o Kit com a camiseta personalizada com meu sobrenome, em mãos, era pura felicidade. Mas, um dia antes da prova, veio o cancelamento: o surto de COVID-19 colocou tudo em suspenso. Literalmente de um dia para o outro, o que era realização virou frustração.
O que eu não sabia é que aquela decepção marcaria muito mais do que a ausência de uma medalha. Ela foi o estopim, um entre vários episódios que, acumulados, me levariam a um diagnóstico de burnout alguns meses depois.
Na época, eu estava no limite: pressão no trabalho, responsabilidades familiares, medo do futuro, e, para completar, a corrida, que deveria ser meu alívio, passou a ser mais um fator de cobrança. Comecei a me comparar com amigos que corriam mais rápido. Me cobrar por resultados, por pace, por constância. Não havia espaço para o descanso, nem margem para a vulnerabilidade. O esporte que sempre me fez tão bem começou a me machucar; não fisicamente, mas emocionalmente.
Foi preciso buscar ajuda médica, fazer uso de medicação, desacelerar em todas as áreas da vida. E a corrida entrou nesse pacote. Aos poucos, fui me reconectando com ela de outra forma. Deixei a competição de lado. Desativei notificações, rankings, comparações. Voltei a correr por prazer e não mais por performance.
Esse processo me fez refletir muito sobre como a nossa mente pode ser cruel quando alimentada por padrões inalcançáveis. E como somos rápidos em transformar algo bom em mais uma fonte de cobrança. É exatamente isso que vejo também nas conversas com profissionais em processo de mentoria: pessoas que se dedicam demais, se comparam demais, se cobram demais e esquecem de viver o agora.
No ambiente corporativo, o “índice” pode ser a promoção que não veio, o salário que não acompanha o esforço, o reconhecimento que nunca chega. Assim como na corrida, a carreira também pode virar uma corrida contra o tempo. Contra os outros. Contra a gente mesmo. E o preço é alto.
Maio nos convida a fazer diferente. A desacelerar. A lembrar que nenhum resultado vale a perda da nossa paz. Que não precisamos provar nada para ninguém. E que saúde mental também é sobre reconhecer nossos limites e respeitá-los.
Hoje sigo correndo. Com menos volume, um pace mais alto, talvez; mas com muito mais presença. Aprendi, na dor, que performance não é tudo e que o equilíbrio é o verdadeiro troféu.
Que essa história possa tocar outros corredores, outros profissionais. E que sirva como um lembrete: Não corra para fugir de si. Corra para se encontrar.

