O tema doença mental está envolto em um grande manto de preconceito, apesar dos avanços em termos dos tratamentos e sociabilidade. Mais compreendida a partir do último século, a doença mental ganhou holofotes quando a pandemia afetou o equilíbrio mental de muitas pessoas. Segundo dados do Instituto de Psiquiatria da USP, o Brasil, mesmo antes da COVID 19, já era o país com maior prevalência de ansiedade, comprometendo 9,3% da população. A depressão afetava 12 milhões de pessoas no país, sendo a maior incidência da América Latina. Dados pós-pandemia, mostraram um aumento de 90% na depressão, sendo que os episódios de crise de ansiedade e estresse agudo, dobraram.
Depressão, ansiedade, estresse e transtornos alimentares podem também ter impacto direto na saúde bucal por conta da redução dos autocuidados provocando cáries e doenças de gengiva, bruxismo, o que pode levar a fraturas dentárias, desgastes e sensibilidade pela erosão dos tecidos mineralizados dos dentes. Soma-se o efeito de medicamentos que podem reduzir ou modificar a qualidade do fluxo salivar.
No que diz respeito a saliva, mesmo na ausência de distúrbio mental, algumas situações podem alterá-la de forma passageira ou mais definitiva. Ela é inerente a todos nós e possui funções importantes tanto para dentes quanto para a mucosa oral. Dentre elas temos as funções de lavagem da boca, solubilização de substâncias que dão sabor aos alimentos, formação do bolo alimentar, limpeza microbiana dos alimentos, lubrificação dos tecidos moles orais, facilitação na deglutição e fonação. Por sua capacidade de neutralização dos ácidos, a saliva protege os dentes contra perda mineral oriunda de atividade cariosa ou de erosão ácida, bem como provê manutenção do cálcio e fosfato na superfície do esmalte dental.
Assim, situações psicológicas ou sistêmicas específicas podem conduzir a alterações transitórias ou mais duradouras da abrangente proteção que a saliva proporciona. O uso contínuo de medicamentos como antidepressivos, ansiolíticos, diuréticos, anti-histamínicos e anti-hipertensivos determinam uma diminuição do fluxo normal. Doenças auto-imunes, como a síndrome de Sjögren, artrite reumatóide, diabetes e sacordoise, bem como distúrbios de alimentação como a bulimia, anorexia nervosa, desnutrição, jejum frequente e desidratação devem ser incluídos na lista de problemas que também afetam o fluxo e a qualidade salivar. Alterações hormonais durante menopausa também podem causar hipo-salivação. Isso tudo sem mencionar os indivíduos que precisaram de radioterapia na região da cabeça e pescoço, cujo déficit salivar é imenso.
Se as alterações salivares estiverem relacionadas a problemas que envolvem saúde mental, é preciso lembrar que existem alguns fatores protetores. São eles o planejamento alimentar, a espiritualidade, o equilíbrio financeiro, o cultivo de bons relacionamentos em família e amizades, buscar expressar seus sentimentos, além de ter a prática de uma atividade física. Evidências tem revelado que correr exerce grandes benefícios para a saúde mental. Além da liberação de endorfina, hormônio responsável pelas sensações de bem-estar e prazer, a simples prática desta atividade física ajuda a reduzir a ansiedade e a depressão, melhora a autoestima e a autoconfiança, e ainda ajuda a controlar o estresse.
Entretanto, não devemos esquecer que indivíduos que correm de forma constante podem apresentar maior risco de sofrer erosão dental e cárie. Isso se deve não pela prática esportiva propriamente dita, mas por hábitos que estão associados a ela. Segundo a Dra. Cornelia Frese e colaboradores, o alto consumo de carboidratos, bebidas esportivas, géis e barras energéticas durante o treinamento pode diminuir o pH salivar, deixando os dentes mais suscetíveis a perdas minerais do esmalte dentário. Soma-se a isso o efeito da diminuição do fluxo salivar que ocorre em função da respiração bucal durante a prática do exercício.
Para podermos identificar uma possível diminuição da saliva, devemos observar se a cavidade oral não está seca e/ou dolorida, se existe sensação de queimação da mucosa e língua, se existe dificuldade na deglutição dos alimentos, sede, lábios secos, presença de cáries em locais atípicos e aumento de infecções fúngicas orais. Quanto aos sintomas extraorais, temos pele seca, olhos secos, garganta seca, tosse seca e mucosa vaginal também seca.
Muito diferente das propagandas mostrando pessoas sempre sorrindo e saudavelmente interagindo com os demais, a vida real e cotidiana é intercalada por momentos mais alegres, outros mais tristes. Momentos de maior ou menor ansiedade, momentos eufóricos ou depressivos. Algumas pessoas serão diagnosticadas como tendo uma doença mental, outras apenas algum transtorno episódico. As condutas terapêuticas mostram, cada vez mais claramente, que as saúdes física, mental e espiritual estão correlacionadas. Já a saliva, algo que está presente em todos nós, está intimamente relacionada a hábitos, comportamentos e tratamentos. Portanto, observe se você usa medicamentos de forma contínua ou apresenta algum dos sintomas descritos. Procure saber mais e avaliar com o seu médico ou seu dentista as possíveis interações existentes. Faça isso, para tentar manter permanente um saudável equilíbrio bucal.
Victor Ferrás Wolwacz / Ana Chapper

