Escrevo esta coluna logo após concluir a minha quinta maratona. Além da experiência pessoal, há anos acompanho diariamente corredores no consultório, e é interessante refletir sobre a relação entre corrida, mente, bem-estar e cobrança. Afinal, será que corremos apenas por índices? Será que apenas isso é válido? O tão sonhado “chasing the unicorn” — correr em busca do índice para Boston — seria a única coisa que realmente importa na corrida?
Para pensarmos sobre isso, compartilho um pouco do que aconteceu comigo nos últimos anos.
Minha melhor maratona até então havia sido Valência, em 2022: 3h13min57s. Fiz essa prova após uma cirurgia de hérnia de disco e um ciclo de apenas 8 semanas. Por algum motivo, tudo deu certo naquele dia. Bati meu recorde pessoal, mesmo com um preparo aquém do ideal. Mas, mais do que o tempo, correr uma maratona naquela ocasião foi mágico. O simples fato de estar saudável e correndo novamente já era uma enorme conquista. Durante minha recuperação, houve momentos em que achei que nunca mais conseguiria correr.
De lá para cá, fiz outras duas maratonas antes da mais recente, em Londres. Com o tempo, aquela sensação de gratidão por poder correr deu lugar a uma pressão constante por baixar tempo e conquistar o índice para Boston. Treinei muito. Em Chicago 2023, estirei a panturrilha no km 16 e terminei a prova dez minutos acima do meu melhor tempo. Frustrado, me inscrevi na Maratona de Paris 2024. Correr, que antes me trazia prazer, virou obrigação. Fiz um ciclo atrás do outro, e cada treino parecia um fardo. A corrida já não me fazia bem.
Movido mais pela raiva do que pelo amor à corrida, fui para Paris e tive minha pior maratona. Quebrei no km 20 e sofri nos 21 seguintes. Terminei a prova indo para a tenda médica, sentindo-me mal física e, principalmente, mentalmente. Onde estava aquele corredor que corria por alegria? Correr maratonas deixou de ser gratificante e passou a ser desgastante.
Foi então que prometi a mim mesmo que só voltaria a correr uma maratona se me sentisse realmente estimulado. Repensei meu treinamento, meu propósito, e depois de um tempo decidi correr Londres 2025 ajudando uma instituição de caridade. Voltei a treinar com mais gosto, buscando evolução pessoal, e não apenas um tempo no relógio. Tirei o peso dos índices.
Fui para Londres com alguns objetivos claros: não desistir, terminar a maratona sorrindo e, se possível, buscar um novo recorde pessoal — mas, acima de tudo, terminar feliz. E assim aconteceu. Bati meu melhor tempo 3:09:12 , entreguei o meu melhor naquele dia e ressignifiquei essa distância. Mais uma vez, consegui correr uma maratona e cruzar a linha de chegada feliz, mas e o índice? Não consegui, Se não consegui não valeu a pena?
É claro que valeu!!!
A corrida não é só sobre índices. Devemos ter cuidado com a pressão excessiva — vinda de fora ou de nós mesmos — que pode nos fazer perder o verdadeiro motivo pelo qual começamos a correr. Corremos por saúde, física e mental. Evoluir é saudável, e muitas vezes será doloroso, mas precisa valer a pena. E isso, só cada um de nós pode definir.

