Atletas da Vida Real

Treinamento mental para corredores

Por: Alex Tomé Edição 49 - maio 2025
Treinamento mental para corredores

Seja pela evolução no treinamento, tecnologia ou adaptação genética, o esporte avança, e atletas das mais variadas modalidades seguem quebrando recordes. O avanço no desempenho deixou de ser atribuído apenas a questões físicas, atualmente cresce a relevância de trabalhos de equipes multidisciplinares visando o bem-estar físico e psicológico como parte essencial na preparação de atletas. Um estudo publicado em 2023 reuniu 25 dos mais renomados cientistas e treinadores do mundo na área do treinamento de endurance para entender o que permitiu a sucessiva quebra de recordes nos últimos 10 a 15 anos. Segundo os autores, além do avanço no treinamento e tecnologia, destaca-se a preparação holística e multidisciplinar, que cria uma excelente base de saúde física e mental, permitindo o atleta a desempenhar seu máximo.

Para entendermos melhor uma área tão ampla quanto os aspectos psicológicos relacionados ao desempenho, decidi separar este texto em três sub áreas consideradas essenciais para o bom desempenho esportivo.

Motivação para o esporte

No Brasil, embora tenhamos atletas de alto rendimento, a maioria dos corredores não consegue depender financeiramente da corrida. Além disso, o maior número de atletas são recreacionais, o que nos faz questionar qual é a motivação dos praticantes em enfrentar o treinamento diário, fazer investimentos financeiros em profissionais como treinador e nutricionista, além de equipamentos para a prática do esporte. Segundo estudos, querer ter domínio do esporte, melhorar aptidão física e reconhecimento social foram as repostas mais citadas.

Outros pesquisadores observaram que ultramaratonistas com melhores resultados tiveram maior pontuação na categoria “social” e “vida significativa”, mostrando que a motivação para enfrentar um desafio dessa magnitude está relacionada com fatores intrínsecos, mas que também visa socialização. Já uma pesquisa feita apenas com mulheres, afirma que, na maioria dos casos, a motivação para treinar e correr uma ultramaratona tem relação com saúde e conquista pessoal, sendo a perda de peso e questões estéticas fatores menos importantes.

Interessante observar até onde a automotivação pode ser considerada saudável. Uma pesquisa entrevistou 1349 ultramaratonistas e perguntou: “Se você soubesse, com certeza absoluta, que correr ultramaratonas é ruim para sua saúde, você pararia de treinar e correr ultramaratonas?”. Dos participantes, 74,1% responderam que não parariam o treinamento e que continuariam competindo, mesmo colocando a saúde em risco. Segundo os autores, embora o grupo entrevistado seja preocupado e cuidadoso com sua saúde, a motivação para continuar praticando o esporte se dá em função dos benefícios psicológicos e de conquista pessoal, indicando que o ganho com esses benefícios seja superior à suposta perda de saúde.

Por fim, a motivação dos corredores também parece ser dependente da idade. Após entrevistarem 1537 corredores, desde iniciantes até ultramaratonistas, pesquisadores concluíram que, para pessoas mais jovens, abaixo de 30 anos, a maior motivação está relacionada com objetivos pessoais, competição e reconhecimento social. Já para os atletas mais experientes, acima de 50 anos, a motivação para o treinamento está relacionada com autoestima e saúde.

Ansiedade pré competitiva

Os momentos que precedem uma competição podem gerar emoções que influenciam positiva ou negativamente o desempenho esportivo. Saber como lidar com a situação é uma habilidade importante a ser dominada e treinada pelos atletas em sua preparação para um desafio. A ansiedade pode ser dividida em três categorias:

Ansiedade cognitiva: componente mental da ansiedade, causado por expectativas negativas em relação ao sucesso ou a autoavaliação;

– Ansiedade somática: refere-se aos elementos fisiológicos e afetivos da ansiedade, que se desenvolve diretamente da excitação autonômica;

– Autoconfiança: relacionada com as percepções globais do atleta em relação ao seu desempenho.

Essa categorização nos ajuda a entender melhor a ansiedade, e nos permite avaliar a influência de cada uma das variáveis do desempenho esportivo.

Em uma amostra de 1500 maratonistas, pesquisadores sugeriram que níveis moderados de ansiedade cognitiva e autoconfiança podem ajudar no desempenho, enquanto a ansiedade somática deve ser evitada. A ansiedade pré-competitiva pode até afetar o desempenho motor, cognitivo e fisiológico dos atletas, podendo, inclusive, gerar mudanças hormonais e influenciar o desempenho. Um estudo brasileiro comparou o nível de ansiedade de atletas de canoagem, corrida de rua e jiu jitsu pré treino e pré competição, e percebeu que os níveis de cortisol podem ter aumento abrupto antes de uma prova, diferente de um dia de treino, onde as concentrações não apresentaram variação. Importante observar que corredores costumam treinar por muitos meses para participar de uma competição, carregando alta expectativa na participação de um evento, o que pode aumentar a probabilidade de ansiedade pré competitiva.

                 Controlar a ansiedade cognitiva e somática e aumentar a autoconfiança parece ser o melhor caminho para o bom desempenho em corredores. A ansiedade pré competitiva de maratonistas pode reduzir com a experiência, após os atletas terem corrido a distância várias vezes. Outro importante fator é o maior nível de bem-estar psicológico, sugerindo que a preparação global e holística, visando saúde, felicidade e qualidade de vida podem aumentar a autoconfiança e trazer melhor resultado na corrida.

Resiliência no esporte

A definição da palavra “resiliência” não é unânime, podendo ser interpretada de diferentes maneiras, a depender do autor, e abrindo margem de comparação com outros termos, como “força mental”, por exemplo. “Resiliência” pode ser entendida como “característica que reflete a habilidade de uma pessoa de manter o funcionamento psicológico normal frente a uma situação estressora”, enquanto “Força Mental” pode ser “a capacidade pessoal para produzir consistentemente altos níveis de desempenhos subjetivos (metas pessoais ou esforços) ou objetivos (vendas, tempo de corrida) apesar de todos os desafios estressores, bem como adversidades significativas. Interessante observar que, em muitas dessas definições, os autores expressam a necessidade de seguir realizando a tarefa, mesmo na presença de situações difíceis.

Embora as definições de força mental e resiliência possam ser parecidas, autores sugerem que a força mental atua como um fator de proteção em uma situação adversa, enquanto a resiliência pode ser uma resposta pós dificuldade, permitindo ao indivíduo voltar ao seu estado normal rapidamente após um evento estressor.

A corrida é um esporte que expõe os atletas a situações adversas como treinos em situação de cansaço, variações de clima e temperatura extremas, além de extenuantes horas de duração, criando situações estressoras e desafiadoras em provas e treinos. Frequentemente, atletas afirmam que a corrida pode ser um esporte onde o desempenho dependa predominantemente de fatores mentais, crescendo a importância da preparação psicológica em atletas.

Tentando entender a importância da resiliência no desempenho de ultramaratonistas, pesquisadores entrevistaram 356 corredores participantes da prova de 75km da Travesera Integral Picos de Europa, e identificaram que atletas de elite pontuaram melhor em escala de força mental, tendo também desempenho físico superior na competição. Interessante observar que, corredores do último quarto de colocações, aqueles que lutam para chegar antes do corte de desqualificação, também mostraram melhor desempenho de força mental. Além disso, verificaram que atletas de endurance têm níveis mais altos de força mental e resiliência quando comparados com atletas de outros esportes e sedentários. Os autores do estudo não encontraram diferença entre os sexos, e sugerem que idade e tempo de experiência têm alta correlação com força mental e resiliência. Outros estudiosos avaliaram a pontuação em força mental e resiliência de 307 corredores de trilha portugueses, e compararam essa escala com seu desempenho no ranking International Corrida em trilha Association (ITRA), concluindo que força mental e resiliência explicam 21% da variação total de desempenho, e sugerem que o treinamento mental deve fazer parte da preparação ampla e global de corredores de trilha.

Aparentemente, fatores psicológicos tem forte relação com o desempenho de endurance. A corrida é um esporte individual, que expõe os atletas a muitas horas de treino, exigindo motivação para prosseguir a prática solitária. Após meses de treinamento, a competição, que geralmente acontece em dia único, pode gerar ansiedade pré competitiva, podendo afetar desempenho motor, cognitivo e fisiológico, tanto positivamente quanto negativamente, a depender da habilidade do atleta em lidar com a situação. Para continuar competindo, mesmo frente a situações desgastantes e desconfortáveis, é necessário resiliência, sendo que corredores com melhor desempenho costumam pontuar melhor nessa escala. É crescente o número de estudos e de atletas que usam o treinamento mental como parte da sua preparação global para uma competição, e cada vez será mais comum o debate sobre o assunto.

Alex Tomé

Alex Tomé

Profissional de Educação Física (Time Runners)

Técnico Seleção SkyRunning Mundial2025 Ms e Autor Correndo com(o) os Quenianos Corredores em +47 cidades e 10 países