Ela já correu em busca de melhores tempos, até a corrida se transformar em números, metas e cobranças. Logo vieram as lesões — e com elas, aquela pausa forçada. Foi nesse momento que Gisela Saback Costa ressignificou a corrida na sua vida. O olhar para o esporte mudou, e o prazer de simplesmente correr voltou. Hoje, a influenciadora, atleta e inspiração para milhares de mulheres vive uma nova fase: está grávida de oito meses do primeiro filho, João Pedro, e mais do que nunca, conectada com o corpo — e com o presente mais valioso que já recebeu. Correr, agora, é com o coração, com leveza, com alma. Nesta edição da Runners Brasil, Gisela compartilha como tem aprendido a lidar com a autocobrança, respeitar os próprios limites e valorizar o equilíbrio — dentro e fora das pistas.
Sabine Weiler: Você é referência para tantas mulheres. Já sentiu que esperam de você alta performance o tempo todo?
Gisela Saback Costa: Na verdade, essa cobrança vem muito mais de mim do que dos outros. Sempre me posicionei de forma simples e verdadeira no esporte. Comecei a correr junto com quem me acompanha, e minha audiência viu de perto a minha evolução ao longo dos anos. O que mais sinto é torcida — e não uma pressão externa por desempenho. Claro, há exceções. Mas, no geral, sou eu mesma quem se cobra mais.
Sabine: Como lida com a autocobrança, tanto nos treinos quanto na vida pessoal?
Gisela: Estou aprendendo a me cobrar menos. No meu caso, treino e vida pessoal se misturam muito. Quando alívio a cobrança em um, o outro também se beneficia. Acredito que o equilíbrio precisa acontecer de forma integral. Pela primeira vez, desde que engravidei, sinto que estou sendo menos dura e mais generosa comigo mesma. Mas não vou mentir: ainda é um desafio. Maturidade, terapia e desenvolver minha espiritualidade têm sido fundamentais nesse processo.
Sabine: Em algum momento da sua trajetória como corredora, você já sentiu ansiedade por querer bater metas específicas?
Gisela: Sim. Depois da minha primeira maratona, acabei criando um bloqueio com provas. Deixei de participar de várias por achar que precisava superar meus próprios tempos. Me arrependo profundamente. Perdi experiências que poderiam ter sido incríveis. Foi uma fase em que perdi o propósito. Deixei de aproveitar a corrida e passei a enxergar apenas números. Logo depois me machuquei e ressignifiquei a corrida. A vida dá um jeito de nos ensinar, né? Mesmo que na marra.
Sabine: De que forma a busca por tempo, ritmo e resultado pode acabar tirando a leveza e o prazer da corrida?
Gisela: Quando foquei apenas em resultado, transformei algo que era prazeroso em estresse. Vira cobrança, obrigação e sacrifico. Acaba perdendo o brilho. Nessa fase, eu vivia me machucando e estava sempre frustrada. Lembro de me perguntar por que estava fazendo aquilo e não ter resposta. Sentia falta de simplesmente correr. Sem relógio, sem planilha, correr com o coração, sabe? Precisa existir um equilíbrio. Senão, a gente perde o encanto e a motivação por um esporte que ama.
Sabine: Como você enxerga essa busca constante pelo RP/alta performance tão falado entre os corredores amadores nas redes sociais?
Gisela: É normal buscar o RP. Muitas vezes, é o que nos motiva, o que nos faz acordar cedo e encarar os sacrifícios que o esporte exige. Eu só não acho saudável quando a corrida se resume a um número. Quando tudo o que importa é o pace ou o resultado a qualquer custo. A comparação constante, alimentada pelas redes, pode gerar frustração e esgotamento. A performance faz parte da jornada, mas ela não pode ser tudo.
Sabine: Como foi encontrar o equilíbrio entre treinar com motivação e, ao mesmo tempo, respeitar seus próprios limites?
Gisela: Tive que me machucar e ficar seis meses sem correr para entender que não vale a pena!
Sabine: Essa cobrança por resultado já afetou sua saúde mental de alguma forma?
Gisela: A cobrança por resultado acabou me levando a uma lesão. E quando precisei ficar quase seis meses sem correr, minha saúde mental foi, naturalmente, afetada. Mas, de certa forma, usei esse tempo a meu favor. Foi uma oportunidade de ressignificar a corrida e repensar minhas condutas. Um momento de me olhar com mais profundidade, de me conhecer de verdade. Eu sempre falei sobre saúde, mas, naquele período, percebi que não me sentia, de fato, saudável.
Sabine: Quais sinais o seu corpo e a sua mente costumam dar quando é hora de desacelerar?
Gisela: As lesões começam a dar sinais, cansaço excessivo, sono desregulado, falta de energia até para fazer o que eu amo. E a mente acompanha. Fico mais irritada, abatida, sem disposição mesmo. Corpo e mente estão sempre interligados. Se um entra em disfunção, o outro sente também.
Sabine: Como você adaptou sua rotina esportiva depois que descobriu a gravidez?
Gisela: No início, desacelerei bastante. Mãe de primeira viagem, ainda cheia de medos, fui aos poucos conhecendo e entendendo esse novo corpo, respeitando todas as mudanças que vem com a gravidez. Deixei de lado a intensidade e passei a priorizar o bem-estar. A corrida deu lugar às caminhadas, o fortalecimento virou ainda mais essencial, e natação e Pilates entraram com força na minha rotina. O mais importante foi perceber que seguir em movimento, mesmo de um jeito diferente, era o que realmente me fazia bem.
Sabine: O que mudou, na prática, na forma como você encara os treinos desde então?
Gisela: Passei a treinar com mais presença e menos pressão. Antes, eu estava muito focada em resultado, corpo, performance. Na gravidez, o foco passou a ser me sentir bem, cuidar do corpo — de uma forma mais consciente e saudável — e, principalmente, da mente. Minha conexão com o movimento se intensificou. Entendi que não importa como, o importante para mim é estar em movimento. Treinei (e estou treinando) a gravidez inteira.
Sabine: Como foi o retorno médico ao decidir continuar correndo durante a gestação?
Gisele: Nos primeiros três meses, meu médico não liberou a corrida e eu respeitei. A verdade é que eu não fazia ideia de como meu corpo reagiria à gestação. Foram meses de adaptação e, mesmo sentindo falta da corrida, não virou um sacrifício. Eu me sentia privilegiada por estar grávida e saudável. Aproveitei esse tempo para explorar novas modalidades e criar uma rotina de treinos com elas. Quando me senti mais segura, conversei novamente com meu médico e fui liberada. Retomei a corrida aos poucos, seguindo as orientações e, acima de tudo, ouvindo os limites e sinais do meu corpo. Lembro que me emocionei na primeira vez que corri grávida. Me conectei com o meu bebê. Corri sorrindo do início ao fim, lembrando de toda a minha trajetória e agradecendo por estar ali, fazendo o que eu amo.
Sabine: Você chegou a ser questionada ou criticada nas redes sociais por continuar treinando na gravidez?
Gisela: Acredita que não? Acho que fui muito cautelosa na forma de comunicar meus treinos e minha rotina grávida. Desde o início deixei claro que cada gestação é única, e que ter acompanhamento médico e escutar o próprio corpo é o mais importante. Tenho consciência da minha responsabilidade social, do exemplo que sou para muitas mulheres e das comparações que as redes podem gerar. Sempre tive uma rotina de atleta, então não foi na gravidez que comecei algo novo, sabe? Pelo contrário, adaptei essa rotina de exercícios para que ela fosse leve, respeitosa e benéfica para o meu bebê. Acho que as pessoas sentiram essa leveza.
Sabine: De que maneira a corrida tem contribuído para o seu bem-estar mental nesse período tão especial?
Gisela: Mesmo adaptada, a corrida continua sendo um espaço só meu, onde me conecto comigo mesma e agora com o bebê. É um momento de presença, de respirar, de agradecer. Nessa fase tão intensa, cheia de transformações físicas e emocionais, seguir em movimento me ajuda a manter a mente leve, melhora meu humor e me faz sentir viva. É uma forma de cuidar de mim e, de certa forma, de cuidar dele também.
Sabine: Você tem alguma outra prática, além da corrida, que ajuda a manter o equilíbrio emocional?
Gisela: Para mim, a corrida é uma forma de meditação ativa, mas todos os esportes, de alguma forma, me ajudam a manter o equilíbrio emocional. O yoga, principalmente, me ensina a desacelerar e a me conectar. Durante a gravidez, intensifiquei as práticas de meditação guiada e fiz bastante sound healing, uma ferramenta poderosa para o reequilíbrio emocional e para elevar a vibração. Caminhadas ao ar livre, momentos de silêncio e respiração consciente também me fizeram muito bem.
Sabine: Como faz para equilibrar as expectativas — suas e das outras pessoas — com a realidade do seu momento atual?
Gisela: Aprendi a silenciar um pouco a pressão externa e, principalmente, a minha própria. Nem sempre é fácil, mas entender que não dou conta de tudo me trouxe paz. Prometi para mim mesma que minha gravidez seria um período leve e doce e, agora com oito meses, posso dizer que cumpri essa missão. Foquei muito mais em mim, no meu marido e, claro, no nosso bebê. Estou vivendo um momento único, não faz sentido desperdiçá-lo tentando atender expectativas alheias.
Sabine: Já se permitiu correr apenas por prazer, sem metas, sem cobranças — como agora, na gestação?
Gisela: Me apaixonei pela corrida correndo desse jeito, sem cobranças. Mas confesso que fazia tempos que eu não sentia essa sensação. Foi um resgate do porquê eu comecei. A ausência de pressão me trouxe mais presença e leveza. Na gestação, só corro sorrindo, agradecendo, feliz pelo simples fato de estar correndo. É a primeira vez, em muito tempo, que corro só com o coração…
Sabine: Que mensagem você deixaria para as mulheres que se cobram demais, inclusive durante a gravidez?
Gisela: Não se cobre tanto, se permita, se acolha. É um momento único, abençoado, e passa muito rápido. Mas cada mulher tem seu tempo, seus processos. Acredito muito que, em algum momento, todas encontram suas próprias respostas — e, quando não, a vida dá um jeitinho de mostrar. Quem se cobra demais, às vezes, tem dificuldade até para ouvir conselhos. Por isso, minha sugestão é: se conheça. Busque autoconhecimento, escute os sinais. Muitas vezes, essa rigidez e cobrança excessiva escondem medos, inseguranças, uma vontade profunda de controle. E quando a gente se conhece de verdade, aprende a se tratar com mais gentileza. O que posso dizer é que não existe presente maior do que viver a gravidez com presença, verdade e leveza. Nunca imaginei que diria isso, mas estou amando estar grávida. A maternidade, que mal começou, já me ensinou que a grande verdade é que não temos controle de nada.

