A Matriz de Eisenhower deveria ser usada regularmente para ajustar o foco. Isso é especialmente útil em períodos críticos da nossa rotina, quando a urgência e a importância das tarefas aumentam significativamente, como quando estamos em preparação para um grande desafio ou uma prova.
Estruturar e manter os treinos de forma organizada é um desafio muito grande para a maioria das pessoas, principalmente quem mora nas grandes cidades. Essa matriz traz uma ordem de prioridades, uma verdadeira matriz de priorização.
Essa classificação de tarefas busca trazer mais direcionamento e lucidez às urgências diárias e aos níveis de importância que podemos dedicar na nossa rotina. Basicamente, ela divide as tarefas em:
- Importante e urgente
- Importante e não urgente
- Não importante e urgente
- Não importante e nem urgente
Localizando e direcionando cada tarefa, podemos ter uma melhor compreensão e menos ansiedade na jornada diária — isso inclui seus treinos.
Agora desacelere e pense. Adapte essa lógica e insira suas prioridades de vida. Nesse sentido, deixo algumas perguntas a você, leitor:
Vale a pena sacrificar a vida social por causa de um índice? Até que ponto?
Esse índice é para quê e para quem? Em que contexto ele vale algo? É para ser validado pelos pares? É para ter um propósito de vida? Repense.
Vale a pena deixar de performar no trabalho para performar tudo nos treinos e depois em uma prova, colocando seu ganha-pão em risco? Até que ponto?
Vale a pena abandonar tempo e dedicação a um estudo aprofundado, aprender outro idioma ou investir na sua carreira em troca de um tempo melhor em uma prova, treinando como um louco e sem controle mental algum? Como uma obsessão que pode te levar à ruína? Repense.
Sua vida nos aspectos familiares, sociais, espirituais, financeiros e mentais está totalmente plena? Tem certeza?
Fazer tudo ao mesmo tempo, todos os esportes, ou ter uma obsessão por tempo, ritmo e pace é saudável para você? Quem é você? Performar é bom, obviamente, mas quando, quanto, onde e para quem? Esse é o X da questão.
Lembre-se que muitos dos obcecados por performance, em qualquer área, não têm nada a perder. Então pouco importa fazer “loucuras”. Alguns já perderam tudo na vida. Outros ganharam tudo, são aposentados, herdeiros ou muito bem financeiramente. Ou pior: já nem almejam ganhar mais nada em outras áreas da vida.
Não estou fazendo juízo de valor de ninguém. Quero apenas usar esse espaço para alertar sobre esse ciclo maldito de ser “obrigado” a performar em tudo o tempo todo.
Estrague sua vida como quiser, mas deixo aqui essa reflexão filosófica para que você tenha mais autoconsciência e não siga automaticamente o “by the book” do mundo do treinamento ou da corrida.
Exemplo:
Se correu 5 km, tem que bater RP.
Se fez 10 km, tem que fazer meia maratona.
Se fez meia, tem que fazer maratona.
Se fez maratona, tem que bater RP e fazer índice para Boston.
Se fez as Majors, agora tem que fazer a ultramaratona Comrades na África do Sul.
Depois um triathlon.
Depois um Ironman.
Depois índice para Kona.
Depois UTMB no Mont Blanc.
Mamma mia. Quem aguentaria tudo isso em tão pouco tempo, sem viver uma vida plena, com pessoas ao redor e alegria no rosto?
Parece mais que o sujeito está fugindo de si mesmo.
Se necessário, procure ajuda profissional. Psicólogo, psiquiatra, terapia. Isso pode ajudar a encontrar seu ponto de equilíbrio e suas próprias prioridades.
Recomendo que você insira suas prioridades de vida nessa matriz e mantenha o foco no seu objetivo de vida.
Desafio é bom, mas com cautela, prudência e autoconsciência.
Não seja escravizado por regramentos e escalonamentos impostos por todos. Fazer seus treinos da forma mais saudável, segura e prazerosa para você é o melhor caminho.
Criar seus próprios objetivos dentro do esporte e da corrida de rua é um ato de rebeldia frente às imposições sociais dos grupos de corrida e dos “desinfluencers”.
Quem treina comigo ou já treinou sabe o quanto tento ser fiel a isso na prática. Correndo minhas quarenta e poucas maratonas e equilibrando com outros aspectos da minha vida.
O que é urgente agora na minha vida?
O que é importante neste momento?
Às vezes melhoro desempenho nos treinos e corridas.
Às vezes foco nos estudos e no trabalho.
Outros momentos dou muito mais valor à minha família e às minhas férias.
E assim vai.
Tem dado certo. Sigo fazendo dessa forma há décadas, sem parar de treinar ou correr.
Já vi muitos obcecados, inclusive desinfluencers, depois da euforia inicial, ficarem meses, semanas ou anos sem treinar corretamente.
Eu sigo em frente há décadas, entre altos e baixos, mas de forma organizada.
E você, vem comigo nessa?
Trago reflexões.
Esse é o X da questão.

