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Destaque da Edição – Com Hilde Dosogne – Português

O grande nome da maratona mundial - 55 anos, 42 km, 366 dias e seu nome gravado na história!

Por: Dani Christoffer Edição 46 - fevereiro 2025
Destaque da Edição – Com Hilde Dosogne – Português

A atleta Belga é a primeira mulher a correr uma maratona por dia, durante 366 dias ininterruptos. Hilde correu no ano de 2024 cerca de 15.500 km, um feito inédito que a colocou no livro dos recordes.  

Durante o ano de 2024, ela quebrou barreiras, bateu recordes, ultrapassou os limites do corpo e com força mental, de vontade, muita garra e um propósito, escreveu seu nome no Guiness Book e na história da corrida mundial.

Foram 366 dias e 42 km por dia, sem parar. Hilde passou um ano da sua vida se dedicando a acordar e correr uma maratona todos os dias, fazendo chuva ou sol. 

“A parte mental foi a mais difícil, mas também tive alguns problemas físicos. Tive bolhas, dor nos dedos dos pés (meus pés incharam e precisei usar um número maior de calçado), bursite, algumas quedas, um dedo deslocado, dores nas solas dos pés, calcanhares e, na última semana, uma lesão no posterior da coxa. Mas nada foi grave o suficiente para me fazer parar”.

Hilde Dosogne

Hilde nasceu em Waregem, e mora hoje em Lochristi também na Bélgica, é Bioengenheira com Ph.D. em Ciências Veterinárias e mãe de quatro filhos.

A Revista Runners Brasil é do Brasil, mas é internacional e tivemos o prazer de bater um papo, com exclusividade, com Hilde Dosogne. 

Início e Motivação 

Revista Runners Brasil: Hilde, como e quando começou sua paixão pela corrida, especialmente pelas ultramaratonas? 

Hilde Dosogne: Comecei em 2017, depois da minha segunda maratona. Eu queria correr uma maratona em menos de 4 horas. Tentei muitas vezes, e só consegui na décima tentativa! Comecei a correr cada vez mais maratonas por ano. Tinha duas provas na minha lista de desejos: 1) a Marathon des Sables, uma corrida por etapas no deserto do Marrocos (depois de assistir a um documentário sobre ela) e 2) a Spartathlon na Grécia, uma corrida de 246 km em uma só etapa, que precisa ser completada em até 36 horas.

Comecei a treinar para essas provas e, ao longo do caminho, corri várias ultradistâncias. Primeiro, foram corridas sociais, como percorrer a costa da Bélgica (75 km), depois vieram as provas de 6 horas, 100 km, 100 milhas.

RRB: O que te motivou a encarar o desafio de correr uma maratona por dia durante um ano inteiro?

Hilde Dosogne: Depois de completar minhas provas dos sonhos, fiquei pensando no que mais eu poderia fazer, algo especial. Eu seguia Candice Burt no Instagram, uma corredora americana que correu 200 ultramaratonas consecutivas entre 2022 e 2023. Quando ela parou, decidi que no ano seguinte correria maratonas diárias consecutivas. Considerei quebrar o recorde de ultramaratonas consecutivas, mas isso tomaria muito do meu tempo e eu queria continuar trabalhando (meio período).

RRB: Você sempre foi atleta ou descobriu sua paixão pela corrida mais tarde?

Hilde Dosogne: Sempre amei correr, mas só comecei a correr mais e participar de provas mais tarde na vida.

RRB: Como sua família te apoia? Você tem filhos? Como gerencia tudo?

Hilde Dosogne: Minha família me apoia muito. Temos quatro filhos. Meu marido assumiu grande parte das tarefas domésticas no ano passado: fazia as compras, cozinhava e cuidava das crianças. Eu ainda lavava as roupas e a louça. Foi difícil conciliar tudo, principalmente porque eu ainda trabalhava. Quase não sobrava tempo livre.

O Desafio das 366 Maratonas 

“Foi a maior meta que já estabeleci para mim mesma”. Hilde Dosogne 

RRB: Qual foi o momento mais desafiador dessa jornada? Você pensou em desistir? O que te manteve firme?

Hilde Dosogne: O mais desafiador foi a parte mental: estar na linha de largada todos os dias no horário definido. Eu precisava de testemunhas para a validação do recorde pelo Guinness World Records, então sempre anunciava antecipadamente onde e quando ia correr. Eu tinha que estar lá, não importava o quanto me sentisse mal ou como estivesse o clima. Pensei em desistir várias vezes, especialmente quando fiquei doente (tive COVID-19 em agosto) ou quando sentia dor.

RRB: Qual era sua rotina diária para enfrentar tantos quilômetros sem descanso?

Hilde Dosogne: Acordava às 6h15, tomava café da manhã e ia trabalhar. Entre 12h e 13h tirava um cochilo, corria das 14h às 18h, voltava para casa, jantava e dormia por volta das 22h. Nos fins de semana, corria de manhã das 8h às 12h, almoçava, descansava à tarde, jantava às 18h e dormia às 22h.

RRB: O que passou pela sua cabeça quando quebrou o recorde mundial após 151 dias e continuou até o final do ano?

Hilde Dosogne: Foi uma sensação ótima atingir o objetivo inicial. Fiquei um pouco sobrecarregada com a atenção da mídia (principalmente na Bélgica e na Holanda), mas sabia que ainda tinha um longo caminho pela frente.

RRB: Como equilibra as exigências físicas e mentais de um desafio tão extremo?

Hilde Dosogne: A parte mental foi a mais difícil, mas também tive alguns problemas físicos. Tive bolhas, dor nos dedos dos pés (meus pés incharam e precisei usar um número maior de calçado), bursite, algumas quedas, um dedo deslocado, dores nas solas dos pés, calcanhares e, na última semana, uma lesão no posterior da coxa. Mas nada foi grave o suficiente para me fazer parar.

RRB: Esse recorde mundial mudou sua vida?

Hilde Dosogne: Foi a maior meta que já estabeleci para mim mesma. Me deu muita confiança e satisfação. Agora as pessoas me reconhecem nas ruas e querem tirar selfies, especialmente em provas. Faço muitas entrevistas e participações em podcasts. Meu trabalho também mudou: antes trabalhava meio-período, agora trabalho 4/5 do tempo, antes de 2024, eu trabalhava em tempo integral.

RRB: Isso já foi oficialmente reconhecido pelo Guinness World Records?

Hilde Dosogne: Ainda não, estou trabalhando no upload de todos os dados para o servidor do GWR. Está indo bem devagar.

Preparação e Estratégia 

RRB: Como você se preparou antes de embarcar neste desafio?

Hilde Dosogne: Eu não me preparei especificamente para ele, já estava correndo muito como treino para as minhas ultracorridas, pelo menos 100 km por semana. Às vezes, eu corria maratonas consecutivas por 2 ou 3 dias, e fiz um treino de 7 x 20 km em um final de semana como preparação para o Spartathlon.

RRB: Você seguiu uma dieta específica ao longo do ano para manter seu desempenho?

Hilde Dosogne: Tentei comer saudável em geral, também comia proteínas extras e muita massa. Eu precisava de 2 vezes mais calorias do que o normal. Pela manhã, comia panquecas com proteína extra em pó e o resto da manhã fazia um carbo loading no trabalho (principalmente waffles e biscoitos). Depois de cada maratona, bebia um shake de recuperação. Às vezes, tomava um shake de proteína à noite também, antes de dormir.

RRB: Como você lida com a recuperação muscular, já que não há tempo para descansar entre as corridas? E com as lesões?

Hilde Dosogne: Eu tomava banho todas as noites para relaxar os músculos, e me alongava sempre antes da próxima maratona. Às vezes usava um rolo de espuma e fazia massagens semanais. Também usava creme de recuperação nas pernas e fazia exercícios de estabilidade do core com o fisioterapeuta. O tempo de descanso sempre foi suficiente, mesmo entre a tarde de sexta-feira e a manhã de sábado. Eu realmente precisava de mais sono, então dormia durante o intervalo de almoço.

RRB: Existe alguma técnica mental que você usa para se manter focado durante tantas maratonas?

Hilde Dosogne: Dividia em partes menores, os primeiros 10 km eram o aquecimento, depois aos 20 km você está quase na metade e aí os últimos 10 km eram só contar regressivamente 10 – 9 – 8… Eu corria em voltas de 5 km, fazia isso 8 vezes e depois uma volta extra de 2,5 km. Eram apenas 8 voltas, não 42,5 km, parecia mais curto. Também tentava me distrair conversando com as pessoas que corriam comigo, ou ouvindo música ou podcasts. Eu também conseguia colocar tudo em perspectiva porque já tinha corrido o Spartathlon 2 vezes, e as maratonas são muito mais curtas. Eu me dizia: “Isso é só uma maratona”. Durante todo o ano também tentei dividir, tenho várias metas no meio, como o 1º mês, o dia 60, o dia 100, o dia 151, o dia 200, 266 (só faltando 100), 300 e, por fim, 366. Tentava viver o dia e não pensar muito no próximo dia.

Impacto e Propósito 

“Nos momentos mais difíceis, pensava nelas, nas vítimas do câncer de mama”- Hilde Dosogne

RRB: Você arrecadou uma quantia significativa (se puder compartilhar o total) para pesquisa de câncer de mama. Como essa causa te inspirou ao longo da jornada?

Hilde Dosogne: Arrecadei 75.500 euros para a Big Against Breastcancer. Essa causa me ajudou a persistir porque eu sabia que não estava fazendo isso só por mim, mas também para apoiar as vítimas de câncer de mama mental e financeiramente. Elas têm uma luta muito mais difícil pela frente e não escolheram isso. Nos momentos mais difíceis, pensava nelas. Tive uma amiga de juventude que morreu de câncer de mama, minha vizinha faleceu disso no ano passado e fui inspirada por Joëlle Thils, que atualmente luta contra o câncer de mama metastático.

RRB: O que significa para você correr por algo maior do que apenas um recorde pessoal?

Hilde Dosogne: Adicionou uma dimensão extra ao que eu fazia. Sentia que estava melhorando um pouco o mundo. Foi bom e positivo ajudar as pessoas com câncer de mama.

RRB: Como foi a resposta das pessoas que acompanharam sua jornada?

Hilde Dosogne: Recebo principalmente reações (muito) positivas das pessoas que me conhecem. Elas têm muito respeito por mim, me admiram. Nas redes sociais, às vezes recebo reações negativas, mas essas pessoas não me conhecem. Não dou muita atenção a elas.

Inspiração e Futuro 

“Se você sonha com algo, acredite em si mesmo e vá em frente. Mas certifique-se de que suas metas são realistas” – Hilde Dosogne 

RRB: Que conselho você daria para alguém que quer começar no mundo das ultramaratonas ou maratonas?

Hilde Dosogne: Se você sonha com algo: acredite em si mesmo e vá em frente. Mas tenha certeza de que seus objetivos são realistas. Vá construindo aos poucos e seja paciente. Seu trabalho árduo (treinamento) será recompensado.

RRB: Entre as corridas nas quais você participou, como o Spartathlon e o Ultrabalaton, qual foi a mais desafiadora e por quê?

Hilde Dosogne: O Spartathlon foi o mais desafiador por causa do calor e da distância longa (246 km). O Ultrabalaton foi mais fácil, a distância era apenas 210 km e não estava tão quente, cerca de 23°C e com menos elevação do que o Spartathlon. Eu gostei de ambas as corridas, mas gosto mais do Spartathlon, também porque é mais internacional (o Ultrabalaton tem cerca de 95% de húngaros). A chegada do Spartathlon é a mais magnífica que você pode imaginar, com todas as pessoas aplaudindo, as bandeiras e, finalmente, a estátua do rei Leonidas, cujos pés os finishers beijam.

RRB: Você tem novos desafios em mente para o futuro?

Hilde Dosogne: Sim, adoraria correr o Spartathlon pela 3ª vez.

RRB: O que correr representa na sua vida hoje?

Hilde Dosogne: Ainda é muito importante, mas este ano finalmente recuperei minha liberdade: posso correr onde e quando quero, não em horários e lugares predefinidos. Ainda gosto muito e mal posso esperar para correr outra corrida este ano.

RRB: Existe uma maratona ou ultramaratona dos seus sonhos que ainda quer correr?

Hilde Dosogne: Já corri todas as corridas da minha lista, mas talvez a Badwater, nos EUA, possa ser uma opção, ou uma corrida de ultra trail no exterior. 

“Acredite que você pode”. – Hilde Dosogne 

RRB: O que correr significa para você?

Hilde Dosogne: Liberdade e propósito

RRB: O que a vida significa para você?

Hilde Dosogne: Aproveitar as pequenas coisas.

RRB: Uma corrida inesquecível?

Hilde Dosogne: O Spartathlon.

RRB:Um alimento favorito para recuperar energia.

Hilde Dosogne: Chocolate.

RRB: Quem é Hilde Dosogne?

Hilde Dosogne: Uma corredora determinada com a paixão de fazer a diferença.

RRB: Um momento de superação que você nunca vai esquecer?

Hilde Dosogne: 11 de setembro de 2024, o dia em que caí depois de correr 27 km, fui para o hospital com um dedo deslocado e recomecei a maratona quando cheguei em casa.

RRB: Uma frase que te inspira?

Hilde Dosogne: Acredite que você pode.

RRB: Você já foi ao Brasil? Que mensagem você daria para os corredores e leitores da revista Runners Brasil que se sentem inspirados por você?

Hilde Dosogne: Acredite nos seus sonhos, acredite em si mesmo, a mente pode ser mais forte do que o corpo. Nos momentos difíceis, acredite que as coisas só podem melhorar e elas vão.

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Dani Christoffer

Dani Christoffer

Editora Runners Brasil e Jornalista (Time Runners)

Jornalista Periodista • Maratonista VIVÍ MEJOR @ellitoral Editora-chefe Revista Runners Brasil