Neurociência e a Corrida

A maratona começa na mente

Como seu cérebro define seus 42 km

Por: Carlos Campelo Edição 61 - maio 2026
A maratona começa na mente

Por qual motivo você desacelera, mesmo quando ainda poderia continuar?

Se você já correu um longo, ou sonha com os 42 km, provavelmente já viveu essa cena em que o corpo ainda responde, mas a mente começa a negociar. O ritmo cai não porque as pernas falharam, mas porque algo dentro de você decidiu que já era suficiente.

E aqui está o ponto que poucos corredores entendem de verdade.

A maratona não começa nas pernas e sim no cérebro. 

·       Quando o cérebro pisa no freio antes do corpo:

Em desafios de longa duração, como a maratona, o cérebro assume o papel de “gestor de risco”. Ele monitora sinais internos como fadiga, temperatura, gasto energético e assim ajusta seu comportamento para evitar um colapso.

Essa regulação não é consciente.

Ela é protetiva.

Regiões como o córtex pré-frontal (responsável por decisão e planejamento) e o sistema límbico (emoção e sobrevivência) trabalham juntas para responder a uma pergunta silenciosa:

“Vale a pena continuar nesse nível de esforço?” 

O detalhe é que essa resposta nem sempre reflete o seu real limite físico.

  • Insight importante:

Você não desacelera apenas quando acaba energia.
Você desacelera quando o cérebro acredita que ela vai acabar.

Ou seja, a sensação de limite muitas vezes é uma previsão e não um fato.

·       O pensamento que acelera ou trava sua corrida:

Na perspectiva da Terapia Cognitivo-Comportamental (TCC), o que define sua reação não é apenas o esforço, mas a forma como você interpreta esse esforço.

Durante uma prova, três corredores podem sentir o mesmo cansaço e reagir de formas completamente diferentes:

  • “Estou cansado, não vou aguentar” → ameaça
  • “Estou cansado, isso é esperado” → adaptação
  • “Estou cansado, estou no controle” → performance

O corpo recebe o mesmo estímulo, mas o comportamento muda.

Aqui mora uma das maiores diferenças entre corredores consistentes e os que oscilam:

“Não é a dor que define o resultado, é o significado que você dá a ela.” 

·       42 km é um desafio físico resolvido com estratégia mental:

A maratona exige preparo físico, mas ela cobra, sobretudo, preparo mental.

A boa notícia é que isso pode ser treinado.

Veja estratégias simples e poderosas que você pode aplicar já no próximo treino: 

1.     Quebre a prova em partes menores

O cérebro lida melhor com objetivos curtos.

Ao invés de pensar “faltam 30 km”, pense:

  • “só até o próximo km”
  • “só até o próximo ponto de hidratação”

Você não corre 42 km de uma vez, você corre um km de cada vez.

2.     Reinterprete o desconforto

Desconforto não é inimigo, ele é parte do processo.

Troque o pensamento automático:

  • “isso está ruim”

por

  • “isso é esperado nesse ponto da prova”

Essa mudança reduz o impacto emocional do esforço e preserva sua tomada de decisão.

3.     Assuma o controle do diálogo interno

Durante a corrida, você já conversa consigo mesmo e a questão é: essa conversa te fortalece ou te limita?

Use frases curtas e direcionadas:

  • “ritmo sob controle”
  • “um passo de cada vez”
  • “eu já passei por isso”

Isso ajuda o cérebro a manter foco e organização diante do desgaste. 

4.     Use sua própria história como prova

Seu cérebro responde a evidências. Lembre-se de treinos difíceis que você superou. Isso ativa memórias de competência e reduz a percepção de ameaça. 

·       Expectativa é o detalhe invisível que define sua prova: 

Existe um fator pouco discutido, mas decisivo na maratona: a expectativa.

O que você acredita sobre a prova antes mesmo da largada influencia diretamente sua experiência durante ela.

Se você entra pensando: “vai ser sofrimento do início ao fim” seu cérebro ativa um estado de alerta constante.

Se você entra com a ideia de: “vai ser desafiador, mas controlável” ele distribui melhor seus recursos.

Isso acontece porque o cérebro trabalha com previsões. Ele não reage só ao que acontece,  ele reage ao que espera que aconteça.

·        Mais um insight importante:

Expectativa não é apenas motivação. Expectativa é programação mental antecipada. 

·       O que realmente está em jogo nos 42 km:

Você não controla o clima.

Não controla totalmente o corpo.

Não controla todos os imprevistos da prova.

Mas você pode controlar três coisas fundamentais:

  1. O significado que dá ao esforço
  2. O diálogo que mantém consigo mesmo
  3. A expectativa que leva para a largada

E isso muda completamente sua performance. 

·       A virada de chave: 

No final, a maratona revela algo simples e profundo:

“O corpo executa, mas o cérebro decide.” 

E talvez o maior aprendizado dos 42 km não seja o tempo no relógio e sim perceber que muitos dos seus limites não eram físicos, mas eram interpretações.

Carlos Campelo

Carlos Campelo

Psicólogo Esportivo - CRP 18/9852

Kenya XP 2024 🇰🇪 Kibet Maratonista Six Star 8x42k e 39x21k Analista Coach PNL Hipnose Neurociência Comportamental