Correr sem Lesão

Antes da Medalha, Existe o Corpo que Vai Sustentar os 42 km

Por: Alexandre Rosa Edição 61 - maio 2026
Antes da Medalha, Existe o Corpo que Vai Sustentar os 42 km

Decidir correr a primeira maratona costuma ser um momento marcante na vida de qualquer corredor. Os 42 quilômetros carregam um simbolismo forte: superação, disciplina, resistência física e mental. Porém, junto com a empolgação da inscrição, também nasce uma responsabilidade importante. A maratona é uma prova exigente e o corpo precisa estar preparado para suportar meses de treinamento, aumento progressivo de volume e impactos repetitivos. Mais do que coragem, completar uma maratona exige cuidado.

Um dos erros mais comuns entre corredores iniciantes é acreditar que a preparação começa apenas quando a planilha chega. Na verdade, ela começa antes mesmo da inscrição. O corredor precisa entender seu momento atual: como está sua condição física, seu histórico de lesões, qualidade do sono, rotina de trabalho, alimentação e capacidade de recuperação. Muitas vezes, a vontade de participar de uma prova específica faz com que a pessoa ignore sinais importantes do próprio corpo.

É exatamente nesse ponto que a fisioterapia esportiva pode fazer diferença. A avaliação fisioterapêutica ajuda a identificar limitações de mobilidade, desequilíbrios musculares, déficits de força e padrões de movimento que podem aumentar o risco de lesão ao longo da preparação. Pequenos detalhes que passam despercebidos no dia a dia podem se tornar grandes problemas quando o volume de treino aumenta.

Além da prevenção, o fisioterapeuta auxilia o corredor a construir um corpo mais resistente para suportar a carga da maratona. Exercícios de fortalecimento, melhora da estabilidade, controle de impacto e orientação sobre recuperação fazem parte de um processo que vai muito além de “tratar dor”. Hoje sabemos que corredores mais fortes e conscientes do próprio corpo conseguem tolerar melhor os treinos e reduzir oscilações bruscas de desempenho durante o ciclo.

Outro ponto importante é compreender que a evolução para os 42 km não acontece de forma linear. Haverá semanas boas e semanas difíceis. Em alguns momentos, o corpo responde muito bem; em outros, o cansaço aparece, a musculatura pesa e pequenas dores surgem. Isso não significa necessariamente que algo está errado. O corredor precisa aprender a diferenciar desconfortos naturais do treinamento de sinais reais de sobrecarga.

Mesmo com todos os cuidados, lesões podem acontecer — e isso não deve ser encarado como fracasso. Em muitos casos, a lesão faz parte do processo de aprendizado do corredor. Ela obriga a desacelerar, observar hábitos, reorganizar prioridades e entender melhor os próprios limites. O problema não está apenas na lesão em si, mas na maneira como o atleta reage a ela.

Muitos corredores entram em desespero quando precisam reduzir treinos ou ficar alguns dias sem correr. Surge a sensação de perda de condicionamento, medo de não completar a prova e ansiedade por interromper a rotina construída. Porém, períodos de pausa também podem trazer benefícios importantes quando bem conduzidos.

O período off pode ser uma oportunidade para recuperar estruturas sobrecarregadas, melhorar aspectos negligenciados da preparação e fortalecer áreas que normalmente recebem pouca atenção durante os treinos intensos. É um momento valioso para investir em fortalecimento, mobilidade, qualidade do sono e recuperação mental. Muitas vezes, o corredor retorna mais equilibrado e consciente do que antes da lesão.

Além disso, a pausa ajuda a desenvolver maturidade esportiva. O corredor aprende que performance não depende apenas de volume de treino, mas também da capacidade de respeitar limites e recuperar o corpo adequadamente. A longo prazo, essa visão costuma ser determinante para construir uma relação mais saudável e duradoura com a corrida.

A primeira maratona não deve ser apenas uma busca pela medalha. Ela pode ser uma experiência profunda de autoconhecimento. Ouvir o corpo, respeitar processos e entender que cuidar da saúde é parte do treinamento talvez seja a maior lição que os 42 quilômetros podem ensinar.

Alexandre Rosa

Alexandre Rosa

Fisioterapeuta (Time Runners)

Fisioterapeuta, Professor e Ultramaratonista 44x maratonas + 50k (45/50) Fisioterapia Esportiva e Ortopédica