“Se eu tivesse desistido naquele dia, ninguém acreditaria que mulheres poderiam correr uma maratona”. – Kathrine Switzer
Ela correu, fez história e abriu caminhos para milhares de mulheres em todo mundo.
Há pessoas que correm para vencer, outras para sobreviver. E há aquelas raríssimas pessoas que, ao dar um único passo, mudam a direção da história para muitas outras.
Antes de existirem multidões femininas nas largadas das maiores maratonas do mundo, antes das medalhas, dos recordes, dos patrocinadores, dos clubes de corrida e da explosão global do universo running entre mulheres, existiu uma jovem de moletom molhado, tênis simples e coragem silenciosa alinhada na largada da Maratona de Boston em 1967.
Kathrine Switzer não entrou naquela prova querendo se tornar símbolo.
Não entrou pensando em revolução.
Não entrou imaginando que seu número de peito atravessaria décadas, continentes e gerações.
Ela apenas queria correr.
“Eu não estava tentando fazer história. Eu só queria correr”. – Kathrine Switzer
Mas algumas revoluções começam exatamente assim: quando uma mulher decide ocupar um espaço que o mundo inteiro jurava não pertencer a ela.
O que aconteceu naquele dia ultrapassou o esporte. A imagem de Kathrine Switzer sendo atacada durante a corrida tornou-se uma das fotografias mais emblemáticas do século XX, não apenas porque mostrava uma mulher correndo, mas porque revelava algo muito maior: o exato instante em que o medo encontrou resistência. O momento em que um corpo feminino em movimento desafiou estruturas inteiras construídas para mantê-lo parado.
Quase seis décadas depois, o impacto daquele gesto continua ecoando em cada linha de chegada ocupada por mulheres ao redor do planeta.
Hoje, quando vemos milhares de corredoras cruzando cidades ao amanhecer, formando comunidades, transformando saúde em liberdade, disciplina em autoestima e movimento em identidade, é fácil esquecer que houve um tempo em que diziam que mulheres não eram capazes sequer de correr uma maratona. Diziam que seus corpos eram frágeis demais, que o emocional não suportaria, que resistência era território masculino.
Kathrine Switzer correu contra tudo isso, e venceu muito mais do que uma corrida.
Nesta entrevista exclusiva para a Runners Brasil, Kathrine, aos 79 anos, revisita não apenas o episódio que transformou sua vida, mas também as décadas de luta, impacto social, amadurecimento e propósito que vieram depois dele. Aos quase 80 anos, ela continua sendo uma presença luminosa no esporte, não como memória do passado, mas como força ativa de transformação.
Ao longo desta conversa, Kathrine fala sobre coragem, envelhecimento, disciplina, liberdade, feminilidade, comunidade e sobre o poder quase invisível que existe em colocar um pé diante do outro quando o mundo espera que você pare.
Mais do que a história da primeira mulher a correr oficialmente a Maratona de Boston, esta é a história de como uma corrida ajudou a reescrever o lugar das mulheres no esporte, e, de certa forma, no próprio mundo.
Porque algumas pessoas atravessam linhas de chegada.
Outras atravessam fronteiras.
Kathrine Switzer fez as duas coisas.
O Dia Que Mudou Tudo
Antes da fotografia histórica, antes do número 261 se tornar símbolo global, antes das multidões femininas ocuparem as ruas das maiores maratonas do planeta, existia apenas uma jovem determinada a correr. E isso bastou para mudar o mundo.
Revista Runners Brasil: Kathrine, quando você olha para trás e pensa naquele momento decisivo em 1967, você tinha alguma noção da história que estava fazendo ou era apenas uma jovem determinada a correr?
Kathrine Switzer: Não, de forma alguma. Eu era simplesmente uma jovem que queria correr. Estava animada, realmente emocionada, por estar na largada da Maratona de Boston, porque para mim era a maior corrida do mundo. Eu não estava lá para fazer história, estava lá para correr 42 quilômetros. Eu havia treinado duro, conquistado o direito de estar ali, e só queria a chance de fazer aquilo que amava. A história veio depois. Na época, parecia algo pessoal, só mais tarde entendi que algo muito maior havia acontecido.
“O que as pessoas veem na fotografia é drama. O que eu senti naquele momento foi medo, depois raiva e, então, uma profunda determinação”. – Kathrine Switzer
Revista Runners Brasil: A imagem de você sendo confrontada durante a corrida se tornou um dos momentos mais icônicos do esporte. Como foi viver aquela experiência por dentro?
Kathrine Switzer: Por dentro, foi assustador, confuso e tudo aconteceu muito rápido. Em um minuto eu estava correndo feliz naquela corrida magnífica, e no minuto seguinte um oficial furioso estava me agarrando e gritando para eu sair da corrida dele. Foi chocante!
Eu era uma jovem mulher e, de repente, estava no meio de um incidente internacional sem nem entender isso. O que as pessoas veem na fotografia é drama, mas o que eu senti naquele momento foi medo primeiro, depois raiva e, então, uma profunda determinação.
Revista Runners Brasil: O que te deu força para continuar correndo naquele momento, em vez de sair da prova?
Kathrine Switzer: Muito rapidamente eu percebi que, se desistisse, ninguém acreditaria que mulheres poderiam correr uma maratona. Eles diriam: “Está vendo? Ela era uma piada. Mulheres não pertencem aqui.” E eu sabia que aquilo não era verdade. Eu sabia que conseguia completar a distância, já tinha feito isso nos treinos. Então terminar a prova se tornou algo maior do que eu, tornou-se uma responsabilidade. Essa percepção me deu força. Acho que muitas mulheres conhecem esse sentimento, quando de repente entendem que o que fizerem a seguir pode impactar os outros tanto quanto a si mesmas.
Revista Runners Brasil: Se você pudesse falar hoje com aquela jovem usando o número 261, o que diria a ela?
Kathrine Switzer: Eu diria: “Ah, querida, aguente firme. Sua vida está prestes a ficar muito mais difícil, mas também muito mais significativa do que você consegue imaginar.” Diria para ela não ter medo da luta, porque é justamente a luta que vai revelar seu propósito. E diria algo em que ainda acredito profundamente: quando algo acontece e parece terrível naquele momento, pode, na verdade, ser a porta de entrada para a vida que você nasceu para viver.
Revista Runners Brasil: Além daquele dia, quais foram os maiores obstáculos que você enfrentou como mulher na corrida naqueles primeiros anos?
Kathrine Switzer: O maior obstáculo não era uma pessoa, nem mesmo uma única regra. Era toda uma cultura de limitação. As pessoas acreditavam que mulheres eram frágeis demais, fracas demais, emocionais demais, inadequadas para provas de resistência. Não havia oportunidades, pouco incentivo e muita ridicularização. Tivemos que superar a ciência, atitudes ultrapassadas e muito preconceito. Mas talvez o mais difícil de tudo fosse que muitas mulheres haviam internalizado essas limitações e frequentemente eram hostis ou ameaçadoras comigo. Então o trabalho não era apenas abrir portas, era ajudar as mulheres a acreditarem que tinham todo o direito de atravessá-las, e depois perdoá-las por terem sido cruéis.
Em 1967, mulheres ainda não eram oficialmente autorizadas a correr a Maratona de Boston. Kathrine Switzer inscreveu-se utilizando suas iniciais, K.V. Switzer, e entrou para a história poucos quilômetros depois da largada.
Correndo Pela Vida
Com o passar das décadas, a corrida deixou de ser apenas competição. Tornou-se linguagem, propósito, identidade e ferramenta de transformação social.
Revista Runners Brasil: Depois daquela corrida histórica, você continuou correndo maratonas ao redor do mundo. Como sua relação com a corrida evoluiu ao longo dos anos?
Kathrine Switzer: No começo, correr era alegria e liberdade, depois tornou-se propósito. Em seguida virou minha profissão, minha plataforma e, realmente, a linguagem da minha vida. Ao longo dos anos me tornei uma atleta muito melhor, muito mais séria e competitiva, e eventualmente entendi que a corrida estava me dando não apenas medalhas ou tempos, mas uma forma de me comunicar com o mundo. A corrida deixou de ser algo que eu fazia para se tornar algo através do qual eu podia servir.
Revista Runners Brasil: Você teve uma vida extremamente longa e ativa no esporte. O que a corrida te ensinou sobre resistência, não apenas física, mas mental e emocional?
Kathrine Switzer: A corrida ensina que resistência nem sempre é sobre dureza no sentido dramático, embora certamente tenha havido muitos treinos longos e solitários em condições muito escuras, frias e difíceis que realmente me tornaram fisicamente e mentalmente forte. Mas a resistência é principalmente sobre paciência. É aprender que coisas difíceis passam se você continuar se movendo. Você descobre que o pânico não ajuda, que a autopiedade é exaustiva e que coragem muitas vezes parece algo muito comum.
“Um pé na frente do outro é uma filosofia profunda. A corrida me ensinou que o espírito humano pode ser treinado, assim como o corpo. Você pode se tornar mais forte de todas as maneiras”. – Kathrine Switzer
Revista Runners Brasil: Ao se aproximar dos 80 anos, você continua ativa e inspiradora. Como cuida do seu corpo e da sua saúde hoje?
Kathrine Switzer: Eu cuido de mim mesma com respeito, e não com ego. Isso é muito importante. Embora muitas vezes eu me arrependa das vezes em que fiz coisas estúpidas comigo mesma por pura irresponsabilidade ou por adiar exames importantes de saúde, eu me perdoo e sigo em frente tendo aprendido uma lição difícil. Hoje eu não treino mais para provar nada, treino para ser saudável, móvel, energética e viva para o mundo. Continuo me movimentando, mantenho consistência, faço fortalecimento e trabalho de core, recupero corretamente e presto atenção ao meu corpo. Acho que um dos grandes presentes da idade é finalmente entender que condicionamento físico não é punição, é gratidão em ação. No meu site oficial eu continuo descrevendo como se manter ativa nas corridas masters.
“Mentalidade faz você sair de casa, disciplina mantém você em movimento quando o entusiasmo desaparece, e a consistência cria o milagre”.
Revista Runners Brasil: Qual o papel da consistência, mentalidade e disciplina na sua longevidade?
Kathrine Switzer: Talento é maravilhoso, mas eu nunca tive muito disso e aprendi cedo que consistência é o que muda sua vida, e que treino regular frequentemente supera o “talento”. Mentalidade faz você sair de casa, disciplina mantém você em movimento quando o entusiasmo desaparece, e consistência cria o milagre. Nunca acreditei em esperar pela inspiração. Acredito em rotina, comprometimento e propósito. São essas coisas que sustentam uma pessoa ao longo das décadas. E quando você corre, a inspiração flui! Tive minhas melhores ideias criativas durante corridas. (De verdade, essa é uma grande dica: o oxigênio entra no cérebro vindo do movimento constante e comprovadamente gera novos pensamentos; além disso, estar na natureza, ar fresco e no sol, se possível, é extremamente inspirador e restaurador.)
Revista Runners Brasil: Sua definição de performance e sucesso mudou ao longo do tempo?
Kathrine Switzer: Ah, sim, enormemente. Quando eu era mais jovem, sucesso frequentemente significava evolução, velocidade, competição, conquista. E essas são coisas maravilhosas, mas com o tempo, sucesso passou a significar usar plenamente os dons que tenho e ajudar a criar oportunidades para os outros. Performance não é mais apenas sobre o que meu corpo consegue fazer em um determinado dia, é sobre como me apresento ao mundo, como continuo contribuindo, crescendo e vivendo com coragem e alegria.
Aos quase 80 anos, Kathrine continua:
- correndo;
- escrevendo;
- palestrando;
- liderando o movimento 261 Fearless;
- inspirando mulheres no mundo inteiro.
Quando Mulheres Ocuparam as Ruas
Hoje, mulheres representam quase metade dos corredores de maratona no mundo. Mas houve um tempo em que correr era considerado inadequado para elas. Kathrine viu essa transformação acontecer passo a passo.
Revista Runners Brasil: Hoje, as mulheres representam cerca de 40% dos corredores de maratona no mundo e, em muitas provas, já estão próximas da igualdade — ou até são maioria nas distâncias menores.
Quando você correu Boston em 1967, mulheres nem eram oficialmente autorizadas a participar.
Quando vê hoje largadas cheias de mulheres, o que passa pela sua mente?
Kathrine Switzer: Sinto uma gratidão imensa. E digo isso muito profundamente. Passar de ser a única mulher com um número oficial em Boston, em 1967, para ver milhares e milhares de mulheres nas largadas ao redor do mundo é simplesmente glorioso. É uma das transformações mais felizes que eu poderia ter imaginado. Na verdade, uma das coisas mais bonitas que aconteceram quando corri a Maratona de Boston aos 70 anos, no meu aniversário de 50 anos da prova, foi que, pela primeira vez na história da corrida, homens e mulheres estavam em proporção de 50-50. Eu não olho para essas largadas e penso: “Olhem o que aconteceu comigo.” Eu penso: “Olhem o que as mulheres fizeram.” É magnífico.
“Eu não olho para essas largadas e penso: ‘Olhem o que aconteceu comigo.’ Eu penso: ‘Olhem o que as mulheres fizeram”. – Kathrine Switzer
Revista Runners Brasil: Na sua opinião, quais barreiras ainda existem para as mulheres no esporte hoje, mesmo que sejam menos visíveis?
Kathrine Switzer: Muitas barreiras hoje são mais sutis, mas continuam reais. Liderança desigual, salários desiguais, atenção desigual da mídia, preocupações com segurança, desincentivo cultural, falta de acesso e, em muitos lugares do mundo, proibição explícita. Nunca devemos confundir progresso com conclusão. Ainda existem meninas que são ensinadas a não suar, não lutar, não ocupar espaço, não serem ambiciosas com seus próprios corpos. Então sim, muita coisa mudou, mas ainda há muito trabalho a ser feito.
Revista Runners Brasil: Você se tornou não apenas corredora, mas também comunicadora como comentarista e autora. No seu livro Marathon Woman, você compartilha sua trajetória de forma muito pessoal. Que mensagem você mais espera que os leitores levem consigo?
Kathrine Switzer: Espero que levem isto: que uma pessoa comum, ao dizer sim para um desafio difícil, pode criar mudanças extraordinárias. Quero que os leitores entendam que o medo não é o inimigo. Ceder ao medo é o inimigo. Também espero que percebam que a história não é feita apenas por pessoas famosas em grandes salas. Às vezes, a história é feita por uma jovem com um moletom molhado que APARECE e simplesmente se recusa a desistir. Fui muito pessoal no meu livro Marathon Woman porque muitas pessoas achavam que eu tinha tido muitas oportunidades de sorte, muito dinheiro, ótimos empregos e “fama”, quando na verdade houve muitos momentos preocupantes e muito sofrimento na minha vida, como acontece com muitas mulheres. Hoje fico feliz que meu trabalho chegue ao público como comentarista, palestrante e autora e continue sendo parte central do meu legado.
261: O Número Que Virou Movimento
O número que um dia tentaram arrancar de seu peito transformou-se num símbolo global de coragem feminina. Hoje, o 261 Fearless atua em diferentes países usando a corrida como ferramenta de autoestima, liderança e emancipação.
Revista Runners Brasil: O 261 Fearless cresceu e se tornou um movimento global. O que faz da corrida uma ferramenta tão poderosa para o empoderamento feminino?
Kathrine Switzer: Uma mulher não precisa de permissão para se tornar mais forte depois que descobre o próprio poder através do movimento. A corrida muda postura, energia, autoimagem, coragem, saúde, comunidade e possibilidades. Não é apenas exercício. É autonomia. É por isso que o 261 Fearless existe: para usar a corrida como um veículo prático de confiança, conexão e transformação. O 261 Fearless descreve sua missão como empoderar mulheres globalmente através da corrida e de programas comunitários. Essa é uma descrição modesta para uma organização jovem, poderosa e em constante crescimento. As mulheres sabem que não estão sozinhas lá fora; nós estamos ao lado delas!
“Eu não queria que o 261 fosse uma peça de museu. Eu queria que estivesse vivo”. – Kathrine Switzer
Revista Runners Brasil: Por que foi importante transformar o número 261 em algo maior do que sua história pessoal?
Kathrine Switzer: Mulheres ao redor do mundo começaram a me dizer que o 261 significava coragem para elas, ausência de medo para elas, um ponto de virada em suas vidas. Isso me emocionou profundamente. Percebi que o número havia escapado da história e entrado no campo do significado. E, quando isso aconteceu, tive a responsabilidade de ajudá-lo a se tornar útil, não apenas simbólico. Eu não queria que o 261 fosse uma peça de museu. Eu queria que estivesse vivo.
Revista Runners Brasil: Você pode compartilhar uma história do movimento que te tocou profundamente?
Kathrine Switzer: Existem muitas, e geralmente não são as histórias mais barulhentas. São as silenciosas. Uma mulher que começa dizendo: “Estou com medo, tenho vergonha, não pertenço a este lugar”, e meses depois está mais ereta, sorrindo, incentivando outras mulheres e dizendo: “Venha comigo.” Essa transformação sempre me emociona. Já vi mulheres isoladas se tornarem líderes, mulheres que se sentiam invisíveis tornarem-se visíveis para si mesmas. E também vi mulheres saírem da pobreza porque começaram a correr, se fortaleceram e buscaram um caminho por meio da educação, formação e autoconfiança, para conseguir um emprego e salvar a si mesmas e seus filhos dessa pobreza e ignorância geracional. OS EXEMPLOS MAIS DRAMÁTICOS E VISÍVEIS DISSO ESTÃO NO BRASIL!! (VEJA A SEÇÃO SOBRE O BRASIL). Isso é muito poderoso. Essa é a verdadeira vitória.
Revista Runners Brasil: O que significa ser “fearless” para você hoje?
Kathrine Switzer: Fearless não significa nunca sentir medo. Isso é bobagem. Fearless significa sentir medo e seguir em frente mesmo assim, porque existe algo mais importante. Hoje, ausência de medo significa usar plenamente a sua vida, significa falar quando o silêncio seria mais fácil, significa abrir espaço para os outros. Significa transformar adversidade em serviço. Esse, para mim, é o verdadeiro significado do 261.
Brasil: Corrida, Liberdade e Revolução Social
A conexão de Kathrine com o Brasil vai muito além das pistas. O país tornou-se um dos capítulos mais emocionantes da sua trajetória internacional.
Revista Runners Brasil: Você teve alguma conexão ou experiência com a comunidade de corrida brasileira? O que mais te marcou?
Kathrine Switzer: SIM! O TEXTO A SEGUIR FOI RETIRADO DO MEU LIVRO MARATHON WOMAN. SUGIRO QUE VOCÊ LEIA O CAPÍTULO COMPLETO, POIS TIVE QUE EDITÁ-LO POR QUESTÃO DE TAMANHO.
O que mais me chama atenção no Brasil é o entusiasmo, o calor humano e o espírito de comunidade, que parecem estar naturalmente incorporados à cultura da corrida no país. Os corredores brasileiros trazem uma energia extremamente humana para o esporte. Quando visitei pela primeira vez a praia no Rio, por volta de 1980, fiquei impressionada com a energia da cultura do corpo. As mulheres eram muito divertidas, cheias de calor humano, espírito comunitário e alegria em se movimentar e sentir a liberdade dos próprios corpos. Eu senti que a corrida seria algo natural para elas, porque elas iriam amar correr pelas ruas.
Fui procurada pela primeira vez para organizar uma corrida no Brasil por Eleonora Mendonça, que na época era a principal corredora de longa distância do país e conhecia as pessoas-chave da organização esportiva brasileira. Na Avon, decidimos fazer isso, já que a Avon era popular no Brasil e eu queria um país sul-americano forte e visível para adicionar à nossa campanha global pela inclusão da maratona feminina nos Jogos Olímpicos. Precisávamos de 24 países e 3 continentes para que o evento pudesse ser incluído nas Olimpíadas — e nem isso garantia certeza.
Quando me encontrei com o presidente da federação brasileira de atletismo, ele disse que as mulheres do Brasil jamais correriam pelas ruas (acho que ele não frequentava muito as praias!) e que compareceria à corrida porque era sua obrigação, mas não levaria sua esposa, nem permitiria (permitiria!!) que sua filha de 14 anos participasse. Esse comentário realmente me entristeceu, porque uma menina de 14 anos teria amado aquilo.
Mas havia outro aspecto da vida brasileira que eu também queria tocar: a enorme quantidade de mulheres vivendo em extrema pobreza. Correr não exige equipamentos da moda. A Avon forneceria gratuitamente toda a estrutura, incluindo uma camiseta vermelha de tricô. Era um novo cenário para meu antigo lema: oportunidade é tudo.
Três mil mulheres apareceram na primeira corrida, no Rio. Na terceira, em São Paulo, eram 10 mil. Você não consegue ignorar 10 mil mulheres correndo pelas ruas de shorts. Muitas viam aquilo como uma celebração divertida; outras conseguiam deixar a pobreza para trás por um momento; talvez algumas corressem até pela camiseta grátis, uma medalha e um batom, coisas que nunca haviam tido antes.
Essas eram mulheres sem sapatos. E não estou falando de Adidas ou Nike. Quero dizer que elas literalmente não possuíam sapatos e corriam descalças, usando as camisetas da Avon. A corrida deu a elas um senso de reconhecimento e importância tão desconhecido quanto uma medalha. Com uma nova autoestima e confiança nascidas daquele programa, muitas, muitas dessas mulheres seguiram para uma vida melhor. Aprenderam a escrever e me enviavam cartas. Conseguiram empregos e concluíram estudos. E certamente educaram seus filhos. Um evento de corrida se transformou numa revolução social. E me proporcionou alguns dos momentos de maior orgulho da minha vida. Às vezes, quando eu me sentia desanimada ou tão exausta do trabalho e das viagens que mal conseguia ficar em pé, eu pensava naquelas mulheres pobres e sabia que todo o esforço valia a pena.
A TV Globo exibiu o evento de São Paulo no jornal todas as noites durante uma semana. As imagens aéreas das mulheres eram simplesmente maravilhosas. Até o Senhor Presidente ficou impressionado, como deveria estar; ele também aparecia na TV todas as noites. Eu estava feliz porque havia conquistado mais um voto seguro no COI. Mas o melhor de tudo foi termos transformado e fortalecido a vida de centenas, talvez milhares de mulheres.
“Uma corrida se transformou numa revolução social.” – Kathrine Switzer
Revista Runners Brasil: Por que você acha que a corrida se tornou um movimento global tão poderoso, especialmente entre as mulheres?
Kathrine Switzer: Porque ela responde a muitas necessidades ao mesmo tempo. É saudável, acessível financeiramente, democrática, eficiente em termos de tempo e profundamente empoderadora. As mulheres, especialmente, descobriram que a corrida oferece não apenas condicionamento físico, mas também identidade e força. Ela permite que as mulheres reivindiquem tempo para si mesmas, espaço para si mesmas e confiança em si mesmas. Quando isso acontece, o efeito se espalha para a família, o trabalho, a comunidade e a liderança. A corrida pode parecer simples por fora, mas socialmente ela é revolucionária.
Revista Runners Brasil: Como você vê o futuro da corrida, tanto como esporte quanto como movimento social?
Kathrine Switzer: A corrida continuará crescendo, especialmente entre mulheres, corredores mais velhos, iniciantes e comunidades que historicamente foram excluídas. Como esporte, continuará evoluindo. Como movimento social, pode se tornar ainda mais poderosa ao focar em acesso, segurança, saúde e liderança. Tenho um interesse especial em como a corrida pode alcançar mulheres que ainda têm muito pouca liberdade. O talento está em todos os lugares. Ele só precisa de uma oportunidade. Nosso trabalho é criar essa oportunidade.
O impacto das corridas femininas organizadas no Brasil:
- milhares de mulheres nas ruas;
- inclusão social;
- acesso ao esporte;
- autoestima;
- educação;
- independência financeira;
- visibilidade feminina.
Legado em Movimento
Quase 60 anos depois da histórica Boston Marathon, Kathrine continua olhando para frente.
Revista Runners Brasil: Ao se aproximar dos 80 anos e de quase 60 anos desde aquela corrida histórica, como você reflete sobre o seu legado?
Kathrine Switzer: Com gratidão, mas também com perspectiva. Legado não é um monumento, legado é aquilo que continua se movendo depois de você. Se minha vida ajudou mulheres a acreditarem na própria força, conquistarem seu espaço e criarem oportunidades para outras pessoas, então isso já é suficiente para mim. Claro que tenho orgulho do que aconteceu, mas sinto ainda mais orgulho não da fotografia, e sim de tudo o que veio depois dela.
“Legado não é um monumento. Legado é aquilo que continua se movendo depois de você”.
Revista Runners Brasil: Que tipo de mundo para as mulheres no esporte você ainda espera ver?
Kathrine Switzer: Quero mulheres seguras no esporte, remuneradas de forma justa no esporte, respeitadas no esporte, representadas em posições de liderança e livres para buscar excelência sem precisar pedir desculpas por isso. E quero isso não apenas em lugares ricos ou progressistas, mas em todos os lugares, especialmente em todos os lugares.
Revista Runners Brasil: Você ainda tem objetivos pessoais ou sonhos que ainda não realizou?
Kathrine Switzer: Absolutamente. Não acho que a vida deva se tornar apenas um exercício de olhar para trás. Minha maior ambição agora é continuar construindo caminhos significativos para mulheres através do 261 Fearless, por meio da fala, da escrita e, quando possível, do exemplo pessoal. Ainda quero alcançar mulheres que ainda não tiveram a oportunidade de descobrir o que o movimento pode fazer em suas vidas. Enquanto esse trabalho permanecer inacabado, eu também permanecerei. Kathrine continua ativa na escrita e na liderança e programas do 261 Fearless. Ela continua aparecendo!
Revista Runners Brasil: O que continua te inspirando a seguir em frente?
Kathrine Switzer: As mulheres me inspiram. Sempre. Especialmente as mulheres que começam na dúvida e terminam na força. Sou inspirada pela coragem na vida cotidiana, pela resiliência, pela generosidade e pela possibilidade de transformação social que começa em algo tão simples quanto um par de tênis de corrida. E também preciso dizer: continuo inspirada pelo próprio movimento. Correr ainda me faz sentir livre, grata e viva.
Revista Runners Brasil: Se a sua vida tivesse uma única mensagem escrita sobre ela, qual seria?
Kathrine Switzer: Seja fearless, livre e grata. E talvez mais uma frase logo abaixo: não espere permissão; simplesmente apareça.
A Mulher Por Trás do Símbolo
Depois da ativista. Depois da atleta. Depois do ícone, existe a mulher que ainda acredita profundamente no poder do movimento humano
Revista Runners Brasil: O que correr significa para você hoje, comparado ao que significava em 1967?
Kathrine Switzer: Ainda significa essas coisas, mas agora também significa lar. Foi a grande constante da minha vida. A corrida me deu saúde, amizades, trabalho, propósito, uma forma de entender o mundo e o grande amor da minha vida, meu marido, Roger Robinson* (renomado corredor e autor). Começou como algo que eu amava, tornou-se a forma como vivi minha vida.
*Roger Robinson é um renomado corredor e autor.
Revista Runners Brasil: Kathrine, depois de tudo o que você viveu, como definiria o que a vida significa para você hoje?
Kathrine Switzer: Vida significa crescimento através dos desafios, serviço através da experiência e alegria através do movimento e da conexão. Acho que a vida pergunta a cada um de nós, repetidamente: “O que você fará com aquilo que lhe foi dado?” Eu tentei responder usando minhas oportunidades para criar oportunidades para os outros. Isso, para mim, é uma vida bem vivida.
“Não espere até se sentir pronta. Comece agora. Coragem não vem primeiro. A ação vem primeiro — e a coragem vem depois.”
Revista Runners Brasil: Para encerrar, que mensagem você gostaria de deixar para mulheres ao redor do mundo que ainda estão encontrando sua voz e seu caminho?
Kathrine Switzer: Não espere até se sentir pronta. Comece agora. Apareça. Comece de onde você está, com o que você tem, no corpo e na vida que você tem hoje. A coragem não chega primeiro. A ação vem primeiro, e a coragem vem depois. Confie em si mesma o suficiente para começar. Você é muito mais poderosa do que disseram que era e, quando descobrir esse poder, por favor use-o não apenas para si mesma, mas também para abrir caminho para outras mulheres. Se a vida não lhe der uma oportunidade, dê a si mesma essa oportunidade. Ela está aí.
E Obrigada por esta oportunidade!
Kathrine Switzer não mudou apenas o esporte.
Mudou a forma como milhões de mulheres enxergam o próprio corpo, a própria força e o próprio lugar no mundo. E talvez esse seja o verdadeiro significado da maratona:
continuar avançando mesmo quando dizem que você não pertence àquela estrada.
Ela correu, pertenceu, sonhou, realizou e abriu caminho para muitas mulheres.

