Mente em Movimento

Corrida como laboratório de autopercepção

Por: Carô Queiroz Edição 61 - maio 2026
Corrida como laboratório de autopercepção

A ansiedade se manifesta com tensão, preocupação antecipatória e alta ativação fisiológica e emocional, e muitas vezes persiste de forma que altera o funcionamento diário. Segundo dados da Organização Mundial da Saúde, os transtornos de ansiedade e depressão aumentaram mais de 25 % desde a pandemia de COVID‑19 em todo o mundo e mais de 1 bilhão de pessoas convivem com condições de saúde mental que incluem ansiedade em algum momento da vida. No Brasil, historicamente o país ocupa uma das posições mais elevadas em prevalência de ansiedade segundo levantamentos anteriores da OMS, com cerca de 9,3 % da população afetada e números absolutos superiores a 18 milhões de pessoas. Diante desse cenário, pensar na corrida como cuidado implica articular ciência do movimento e psicologia para compreender como o corpo em movimento pode influenciar estados mentais que geram sofrimento.

A literatura científica aponta que a atividade física regular impacta processos neuroquímicos e psicofisiológicos relacionados à ansiedade. Revisões acadêmicas indicam que a prática de exercícios aeróbicos está associada à redução dos sintomas de ansiedade, estimulando a liberação de neurotransmissores como a serotonina e promovendo efeitos ansiolíticos comparáveis a intervenções psicológicas e medicamentosas em alguns quadros leves a moderados, sempre com orientação profissional adequada. Esses efeitos incluem melhora no humor, regulação do estresse e maior sensação de bem-estar geral, elementos que também são reconhecidos por profissionais da saúde mental como relevantes no manejo de estados ansiosos.

Do ponto de vista psicológico, responder de forma adaptativa à ansiedade envolve reconhecer que ela faz parte da experiência humana, mas também requer estratégias de manejo que envolvem tanto fatores cognitivos quanto comportamentais. A corrida pode ser uma dessas estratégias quando estruturada como atividade regular e integrada ao cotidiano de forma sustentável, pois coloca em jogo aspectos que influenciam a experiência emocional: organização da rotina, percepção de esforço e recuperação, adaptação a variáveis ambientais e corpóreas, e a oportunidade de experimentar sensações de domínio e competência física.

Cada treino de corrida pode ser usado como um laboratório de autoconhecimento. Observar respiração, cadência, postura e percepção de esforço oferece dados concretos sobre como o corpo e a mente respondem ao exercício. A atenção a esses sinais permite testar estratégias de controle da ansiedade, como ajustes no ritmo, variação na intensidade, técnicas de respiração e tolerância ao desconforto físico e mental. Ao experimentar diferentes abordagens em contextos controlados, o corredor aprende quais recursos funcionam melhor para si e quais situações exigem maior cuidado, transformando o treino em uma oportunidade de aprendizado contínuo. Ou seja, a própria resposta adaptativa do corpo ao treinamento regular pode, com o tempo, diminuir a tendência a reagir com hipervigilância ou preocupação excessiva diante de estímulos que antes geravam ansiedade.

Essa percepção mais acurada favorece a construção dessa postura menos reativa com sensações de desconforto, tensão ou alerta, elementos frequentemente exacerbados na ansiedade. Incorporar o movimento à vida cotidiana com regularidade transforma trajetos e treinos em indicadores tangíveis de progresso e adaptação, conferindo significado a ações concretas que impactam estados mentais.

É importante também perceber que a própria corrida pode se tornar fonte de ansiedade se houver alto foco em desempenho. Quando o treino deixa de ser um espaço de saúde, cuidado e autoconhecimento e passa a ser medido apenas por números, tempo ou ritmo, ele pode gerar estresse adicional, frustração e sensação de cobrança constante. Reconhecer limites, equilibrar expectativas e priorizar a percepção individual em vez de comparações externas permite que o corredor mantenha consistência sem sobrecarga emocional.

Então, a prática consciente da corrida, quando orientada por autopercepção, experimentação e cuidado com o próprio desempenho, contribui para reduzir os sintomas de ansiedade. A prática regular não elimina a ansiedade como um fenômeno clínico complexo, mas oferece um ambiente de treino que gera informações sobre como o corpo e a mente respondem ao esforço, ao ritmo e à recuperação, permitindo que cada treino contribua para a construção de maior equilíbrio emocional. Cada quilômetro, cada ajuste e cada treino oferecem informações valiosas sobre como o corpo e a mente reagem, fortalecendo a confiança e a habilidade de gerenciar estados ansiosos. Essa abordagem transforma a corrida em um espaço de cuidado, aprendizado e equilíbrio, alinhando evolução física e bem-estar mental. E claro, precisando de maior ajuda, procure um psicólogo ou psiquiatra.

Carô Queiroz

Carô Queiroz

Psicóloga (Time Runners)

Carô Queiroz é gaúcha, corredora amadora desde 2019 e meia maratonista. É Psicóloga pela Universidade Federal do Rio Grande (FURG), com expertise nas áreas de orientação de carreira e atendimento clínico. Ajuda profissionais a construírem trajetórias de carreira mais estratégicas e com sentido, além de líderes a trabalharem carreira e performance em suas equipes. Produz conteúdos sobre o assunto nas redes sociais, com o objetivo de desenvolver maior protagonismo de carreira no público que a acompanha e educar sobre como alcançamos maior saúde na nossa relação com o trabalho. É membro da Associação Brasileira de Orientação Profissional e de Carreira (ABRAOPC) e acredita que pensar a carreira é uma questão de saúde mental.