A Maratona de Londres em 2026 entrou para a história. Em vinte e seis de abril, Sabastian Sawe cruzou a linha de chegada em 1h59min30s e se tornou o primeiro ser humano a completar a distância em uma prova oficial abaixo das duas horas. Poucos segundos depois, o etíope Yomif Kejelcha cruzou em 1h59min41s, em sua estreia na maratona. Pela primeira vez na história, dois homens ficaram abaixo das duas horas na mesma prova. A barreira que muita gente acreditava intransponível caiu duas vezes em pouco mais de dez segundos.
Mas o que aconteceu depois da prova chamou tanta atenção quanto os tempos. Em entrevista pós-corrida, Kejelcha disse ao seu treinador: “desculpa, Alfonso. Eu perdi duas garrafas e perdi a prova.” A equipe técnica estimou que ele deixou de consumir cerca de dezenove gramas de carboidrato ao pular dois pontos de reabastecimento, em torno dos quilômetros vinte e cinco e trinta e cinco. Faltando pouco mais de um quilômetro para a chegada, ele sentiu a maratona pesar de uma forma que não esperava.
Do outro lado, Sawe executou o plano com precisão milimétrica. Sua patrocinadora, a sueca Maurten, passou trinta e dois dias dentro do acampamento dele realizando testes para identificar a capacidade de absorção do atleta e treinando o intestino dele para absorver carboidrato em alta intensidade sem desconforto. O plano previa cerca de cento e quinze gramas de carboidrato por hora, o que coloca a estratégia em outro nível de exigência. Kejelcha, por sua vez, é patrocinado pela espanhola Santamadre e tinha um plano mais conservador com em torno de 71g de carboidratos por hora e com ele perdendo dois pontos isso acabou caindo para algo em torno de 60g por hora.
Para um corredor amador, a primeira leitura dessa história pode parecer distante. Mas é exatamente o oposto. Acima de um determinado limite de intensidade, o estoque de glicogênio muscular (o que você consome nos dias anteriores a prova e nas horas anteriores) e o estoque de glicogênio hepático ( o que você consome intra prova) passam a ser variável determinante na performance do corredor, junto com outros importantes pontos como biomecânica, musculatura, condicionamento e volume de treinamento.
O glicogênio é a forma como o corpo armazena glicose nos músculos e no fígado. Em ritmo de maratona, é o substrato preferido para gerar energia. Um atleta bem treinado tem em média entre quatrocentos e quinhentos gramas de glicogênio total entre músculos e fígado, o que oferece energia para algo em torno de noventa a cento e vinte minutos de corrida em ritmo de prova. Acima disso, se não houver reposição contínua de carboidrato ao longo do percurso, o organismo começa a depender mais da gordura como fonte de energia. E gordura, em ritmo de maratona, simplesmente não dá conta. É aí que aparece o quebrar clássico entre o quilômetro trinta e cinco e o quarenta e dois.
A lição prática para o corredor amador é direta: a estratégia de carboidrato precisa ser treinada com a mesma seriedade com que se treina outros aspectos da corrida. Não basta levar gel no dia da prova. É preciso ter feito longos com a mesma fórmula, no mesmo intervalo, e ter o intestino acostumado àquela carga sob ritmo competitivo. Em provas longas, a recomendação atual gira entre setenta e cento e vinte gramas de carboidrato por hora, mas se você não treinou isso, eu definitivamente não recomendo que o faça na prova, a chance de ter um desconforto intestinal é enorme.
Outro ponto importante é a execução durante a prova em si, você pode consumir carboidrato de variadas maneiras, hoje temos géis de carboidrato com quantidades de carboidrato distintas, também temos opções de carboidratos em pó que podem ser diluídos em agua e levados para serem consumidos ao longo da prova, outra variação são as flasks que podem comportar 3-4 embalagens de géis de carboidrato e podem ser consumidas de uma forma mais intervalada com pequenas quantidades em mais vezes ao longo da prova. Cada opção tem seu ponto positivo, as formas liquidas ajudam não só na energia como também na reidratação mas são menos práticas do que as formas em gel, independente de qual estratégia for escolhida o mais importante é ter treinado diversas vezes antes do dia da prova.
Talvez a maior lição de Londres 2026 não esteja nos tempos, mas no nível de detalhe que o corredor de elite trata o que muitos amadores ainda enxergam como secundário. A barreira das duas horas caiu, e hoje fica cada vez mais claro que temos mais variáveis na corrida do que apenas treinar corrida, fortalecimento, alimentação, recuperação, periodização são cada vez mais importantes para conseguirmos superar nossos limites e os limites da humanidade contra o relógio.

