Os esportes de endurance, como corrida, ciclismo e natação, têm sido amplamente promovidos por seus benefícios cardiovasculares e pela melhora da qualidade de vida. No entanto, pesquisas recentes destacam um ponto de alerta para atletas recreacionais e profissionais: o excesso de exercício pode estar associado ao desenvolvimento de aterosclerose coronária. Este fenômeno, embora raro, sublinha a importância de buscar equilíbrio no treinamento e priorizar a saúde como um todo.
O paradoxo do exercício
Embora o exercício regular seja uma arma poderosa na prevenção de doenças crônicas e cardiovasculares, estudos têm demonstrado que atletas de endurance expostos a volumes e intensidades extremas de treino por longos períodos podem desenvolver calcificações arteriais e placas ateroscleróticas. Isso não significa que o exercício seja prejudicial, mas sim que há um “ponto de equilíbrio” que precisa ser respeitado.
Os dados sugerem que a relação entre o volume do exercício e a saúde arterial segue uma curva em forma de “J”: níveis moderados de exercício são protetores, mas volumes extremamente altos podem ter o efeito contrário, aumentando os riscos de alterações vasculares.
Veja este estudo: “Coronary atherosclerosis in athletes: emerging
concepts and preventive strategies” publicado no European Heart Journal agora em Janeiro de 2025: https://doi.org/10.1093/eurheartj/ehae927
O entupimento da coronária, ou aterosclerose, ocorre quando placas de gordura, cálcio e outras substâncias se acumulam nas paredes das artérias coronárias, que são os vasos responsáveis por levar sangue ao coração. Com o tempo, essas placas endurecem e estreitam a passagem do sangue, podendo levar a angina (dor no peito) ou até mesmo a um infarto, caso o fluxo sanguíneo seja totalmente bloqueado.
Analogamente, imagine o revestimento de teflon de uma panela: enquanto ele está intacto, o ovo desliza facilmente, sem grudar. No entanto, com o uso excessivo ou inadequado, o teflon começa a desgastar, expondo a superfície áspera da panela. Quando isso acontece, o ovo começa a grudar, dificultando o cozimento e a limpeza. Da mesma forma, as artérias, quando saudáveis, têm um revestimento liso que facilita o fluxo do sangue. Mas, com maus hábitos (ou até mesmo excesso de estresse físico, como no caso do exercício extremo), esse “revestimento” interno sofre danos, permitindo que gorduras e outras substâncias se acumulem, causando os “entupimentos” nas coronárias.
Este é um tópico de crescente interesse, uma vez que, tradicionalmente, acredita-se que altos níveis de condicionamento físico protegem contra doenças cardiovasculares. Contudo, evidências recentes sugerem que doses extremas de exercício podem estar associadas a certos riscos cardiovasculares. Muitos dos participantes do estudo eram homens de classe média ou alta, com alta exposição a exercícios intensos ao longo da vida (eu diria para ser mais polêmico, o perfil ideal que faz costumeiramente a ultramaratona Comrades na África do Sul). Esses grupos apresentaram maior prevalência de calcificação arterial e placas ateroscleróticas quando comparados a indivíduos sedentários ou moderadamente ativos.
Por que isso acontece?
Exercícios de alta intensidade e longa duração geram estresse mecânico nas paredes arteriais, elevação de marcadores inflamatórios e alterações na homeostase do cálcio, todos fatores que podem contribuir para o desenvolvimento de aterosclerose. Além disso, o treinamento extremo pode levar a microdanos repetitivos no coração, que, com o tempo, acumulam-se em alterações estruturais.
Foi identificado um padrão em forma de “J” ou “U” no qual exercícios leves a moderados reduzem o risco de doenças cardiovasculares, mas volumes e intensidades extremos podem aumentar o risco de aterosclerose. Especificamente, volumes semanais muito altos de treinamento estavam associados à progressão de calcificação arterial e placas.
Mas quanto de exercícios em termos de números? Apartir de 5h de exercícios intensos parece ter um risco moderado e para piorar um risco elevado acima de 8h de treinos por semana. O ideal e mais seguro parece estar em 1h a 3h por semana e com maioria das atividades moderadas.
Outro ponto crucial é a interação entre fatores genéticos e ambientais. Muitos atletas podem apresentar predisposição genética para doenças cardiovasculares, o que, combinado ao treinamento intenso, aumenta os riscos. Cuidado!
O estudo destaca a importância de encontrar um equilíbrio entre os benefícios do exercício e os riscos associados a volumes extremos. Eles não sugerem a interrupção da prática esportiva, mas alertam para o controle cuidadoso do volume, da intensidade e da frequência e esse é o X da questão!
O Papel do repouso e da completa recuperação
Um fator negligenciado por muitos é a recuperação. A obsessão por performance e a busca por resultados rápidos muitas vezes levam atletas a negligenciar pausas adequadas entre treinos e competições. Maratonas e outras competições intensas, por exemplo, exigem períodos prolongados de recuperação, que podem variar de semanas a meses.
Recomendo fortemente e principalmente recreacionais master (~40 anos) limitem a participação em maratonas a uma por ano, complementando o calendário com provas menores, como meias maratonas ou corridas de 10 km, para manter a regularidade sem sobrecarregar o sistema cardiovascular.
Diversificação e saúde mental
A busca pelo equilíbrio também envolve diversificar as atividades físicas. Além de reduzir o estresse cardiovascular, incluir outras atividades prazerosas no dia a dia, como encontros sociais agradáveis, eventos culturais, gastronômicos, promovendo assim um bem-estar mais amplo, incluindo saúde mental e social.
Por outro lado, quando o exercício passa a ser uma fuga emocional (escapismo) ou uma necessidade constante de validação (ao melhor estilo narcisista), é essencial buscar ajuda profissional. Nesses casos, o suporte de um psicólogo ou psiquiatra pode ajudar a identificar a raiz dessa necessidade, promovendo mudanças positivas e sustentáveis no estilo de vida.
Conclusão: A dose certa
O exercício é uma ferramenta poderosa de saúde, mas, como qualquer remédio, deve ser usado na dose certa. Priorizar o equilíbrio, respeitar os limites do corpo e garantir uma recuperação adequada são pilares fundamentais para viver com saúde e longevidade. Lembre-se: o objetivo não é parar de se exercitar, mas sim treinar de forma consciente, preservando tanto o corpo quanto a mente.
Seja prudente em seus treinos, busque orientação profissional para ajustar volume e intensidade às suas necessidades individuais e aproveite os benefícios do movimento sem comprometer sua saúde. Afinal, viver bem vai muito além da performance.
Bons treinos camaradas!

