Q&A

Q&A com Wanderlei de Oliveira

A voz que corre com o Brasil

Por: Sabine Weiler Edição 56 - dezembro 2025
Q&A com Wanderlei de Oliveira

Na manhã do dia 31 de dezembro, quando as câmeras de TV sobem e mostram a Avenida Paulista tomada por milhares de corredores, uma voz conhecida dos apaixonados pela São Silvestre assume o comando: é Wanderlei de Oliveira. O paulistano de 66 anos, construiu uma trajetória que o coloca entre os nomes que mais entendem dessa prova centenária – tanto na pista quanto atrás do microfone. Desde o ano 2000, é o comentarista oficial da Corrida Internacional de São Silvestre na TV Gazeta. Jornalista esportivo e consultor, Wanderlei já correu o equivalente a três voltas ao redor do planeta Terra. Foi pioneiro em levar atletas brasileiros para maratonas internacionais como Nova York, Boston, Paris, Rotterdam, Berlim e Comrades Marathon. Fundou a CORPORE – Corredores Paulistas Reunidos – em 1982 e o Pão de Açúcar Club, em 1992. Entre 1980 e 2010, esteve à frente da Federação Paulista de Atletismo e, nesse caminho, treinou mais de 30 mil atletas. Na bagagem, ele soma 24 participações nas Maratonas Nova York, Paris, Rotterdam e Chicago. Agora, às vésperas da histórica centésima edição da São Silvestre, Wanderlei se prepara para narrar mais uma vez as chegadas que emocionam o Brasil e traduzir em palavras o que os corredores amadores sentem ao percorrer os 15 km da maior corrida de rua do país. Em entrevista à Runners Brasil, ele relembra histórias, conta um pouco dos bastidores e divide o que aprendeu ao longo de uma vida como corredor e técnico de atletismo.

Sabine Weiler: Wanderlei, você tem uma história incrível com a corrida desde 1965. É considerado a maior referência em corridas de rua no Brasil. O que te
motiva todos os dias a correr?

Wanderlei de Oliveira: No dia 1º de dezembro de 1965, aos 6 anos de idade, meu pai, Olavo de Oliveira, me levou para minha primeira prova de atletismo no Centro Olímpico de Treinamento e Pesquisa, no Ibirapuera, em São Paulo.
A distância era de 50 metros. Ele me posicionou na raia 4 e disse: ‘Siga em frente, faça o seu melhor, só pare quando cruzar a linha de chegada’. Como não cruzei a linha de chegada, continuo correndo. Desde então, já são mais de 152 mil quilômetros, o equivalente a 3 voltas ao redor do planeta Terra.

Sabine: Você lembra da primeira vez em que viveu a São Silvestre de perto? Que imagem ficou gravada na sua memória daquele dia? Você já correu?

Wanderlei: Assistia à Corrida Internacional de São Silvestre pela televisão. Minha primeira participação foi em 1969, edição 45, largada às 23h45, na Avenida Paulista, 900. Fui acompanhar meu pai, que ia correr os 8.700 metros da prova. Eu tinha 10 anos, fiquei esperando na chegada. O vencedor foi o mexicano Juan Martinez, com o tempo de 24 minutos e 2 segundos.
Ao cruzar a linha de chegada, meu pai disse: ‘O esporte e a música têm o poder de unir os povos’. Esse pensamento ficou marcado em minha memória!

Sabine: O que a São Silvestre representa para você, pessoalmente e profissionalmente? É mais trabalho, mais paixão ou um pouco dos dois?

Wanderlei: A São Silvestre faz parte da minha vida. Pessoalmente, pelas participações familiares; profissionalmente, por trabalhar na Federação Paulista de Atletismo, responsável pela organização e cronometragem nas décadas de 1980 e 1990. Há 46 anos sou técnico de atletismo especializado em meio-fundo e fundo e, por ter treinado mais de 30 mil atletas, a grande maioria participou e participa da prova.

Sabine: Desde o ano 2000 você comenta a prova na TV. Como essa convivência anual com a São Silvestre mudou o seu olhar sobre a corrida de rua e sobre o corredor brasileiro?

Wanderlei: Nesse período era diretor do departamento de corrida de rua da Federação Paulista de Atletismo e escrevia semanalmente no jornal A Gazeta Esportiva (papel) e tinha um blog no portal Gazeta Esportiva. A Fundação Cásper Líbero, criadora e responsável pela prova, me convidou para ser o comentarista oficial. Já são 25 anos consecutivos na transmissão ao vivo, na TV Gazeta, por mais de 3 horas ininterruptas. A São Silvestre, nos 100 anos, é a única prova que nunca parou, mesmo nas duas guerras mundiais, catástrofes; somente na pandemia, em 2020, mas, mesmo assim, fizemos a virtual. É a corrida mais importante da América Latina, todo brasileiro um dia sonha em correr a prova.

Sabine: Muita gente, como eu, é absolutamente apaixonada pela prova. Por que você acha que a São Silvestre mexe tanto com o coração do corredor amador?

Wanderlei: A São Silvestre é uma grande festa popular, assim como o carnaval, tanto que muitos correm fantasiados. É verão, calor, Natal, final de ano, muitos para festejar e correr a prova para se despedir do ano velho e celebrar o ano novo.

Sabine: Se você tivesse que definir o ‘espírito da São Silvestre’ em poucas palavras, quais seriam?

Wanderlei: Correr a São Silvestre é o maior desafio do brasileiro. Completá-la o torna um vencedor, independente da colocação. Salve, São Silvestre!

Sabine: Na largada da São Silvestre, quando começa a tocar ‘Carruagens de Fogo’, o seu coração também bate mais forte? O que passa pela sua cabeça naquele momento, depois de tantos anos vivendo essa prova tão de perto?

Wanderlei: Por algumas frações de segundo, faço uma viagem ao passado, acompanhando meu pai e assistindo à prova, mas, rapidamente, já entro no clima da festa e fico ligado na elite.

Sabine: O que torna a São Silvestre diferente de qualquer outra corrida de rua no Brasil, do ponto de vista técnico e emocional?

Wanderlei: Em viagem a Paris, em 1924, o jornalista e apaixonado pelo esporte Cásper Líbero presenciou uma corrida em que os corredores corriam com tochas acesas. Isso o inspirou a fazer algo parecido. No dia 31 de dezembro de 1925, lá estavam 48 corredores na largada; apenas 37 completaram. Tudo aconteceu no dia de São Silvestre, santo que foi o 33º Papa da Igreja Católica (314-335).

Sabine: Falando do percurso, quais são os trechos que mais merecem atenção do corredor?

Wanderlei: A largada, defronte ao MASP – Museu de Arte de São Paulo –, está a 900 metros de altitude em relação ao nível do mar. Os 4 quilômetros iniciais são em descida. Esse é o trecho mais perigoso. Os corredores descem 200 metros de desnível acentuado (o corpo sofre um impacto de 4 vezes o peso corporal, sobrecarregando tornozelos, quadril, coluna), onde muitos cometem o erro de descer muito forte, além do que estão preparados. Depois, sofrem para subir a Avenida Brigadeiro Luís Antônio.

Sabine: A famosíssima subida da Brigadeiro é um capítulo à parte. Na sua visão de treinador, qual é o jeito certo de encarar a Brigadeiro, física e mentalmente?

Wanderlei: Na grande maioria das edições anteriores, é onde se decide a prova. Quem soube administrar a ansiedade e o ritmo nos 12 quilômetros vai chegar bem e forte para os quilômetros finais. É a parte mais inclinada da prova. Os 200 metros de desnível da largada até o Pacaembu viram uma inclinação que parece o dobro dos 200 metros, além de estar mais quente (as temperaturas chegam a estar em mais de 30 graus). Os primeiros chegam entre 43 e 44 minutos, as mulheres entre 50 e 51 minutos. Esses 3 quilômetros finais são mais para quem se preparou mentalmente para superar a pressão emocional que a prova impõe nos atletas de elite.

Sabine: Antes da Brigadeiro, temos descidas e trechos em que o corredor facilmente se empolga. Como segurar a ansiedade e até a emoção nesses trechos para não comprometer a prova?

Wanderlei: O segredo está em ser consciente e fazer um planejamento estratégico com seu técnico ou treinador. Esses erros são de principiantes que não conhecem a prova e não se prepararam adequadamente. A São Silvestre não é brincadeira, todo cuidado é pouco. Estudem o percurso, preparem-se para esses desafios treinando de forma correta nas semanas que antecedem a prova (vale lembrar que a última semana é para descanso físico, corridas curtas e lentas) e preparem a mente, visualizando-se completando a prova dentro do ritmo estabelecido pelo seu técnico e felizes por superar, com sucesso, os 15 quilômetros da São Silvestre.

Sabine: A São Silvestre é aquela festa em que, nos primeiros quilômetros, muita gente brinca que ‘mal dá para correr, é só ir no fluxo’. Que dicas dá para o corredor aproveitar essa experiência, entendendo que isso também faz parte do encanto da prova?

Wanderlei: Os que vão para vencer, todos já sabem, são os atletas de elite. Largam na frente e saem abaixo dos 3 minutos por quilômetro.
A grande massa está lá para se divertir. Aproveitem o momento festivo, com várias pessoas desconhecidas, para interagir, fazer amizades, conversar, aproveitar o fascínio que gera a São Silvestre. É um momento único!

Sabine: Ao longo dos anos, muita gente começou a correr inspirada pelas imagens da São Silvestre na televisão. Na sua visão, de que forma essa prova ajuda a despertar o desejo de praticar a corrida de rua?

Wanderlei: Desafio. Superação pessoal. Melhorar a saúde. Sentir-se forte, empoderado, corajoso!

Sabine: Em tantos anos de transmissão, qual foi o momento mais marcante que você já comentou em uma São Silvestre?

Wanderlei: Na edição de 2019, a chegada espetacular do queniano Kibiwott Kandie, 19 anos, que ultrapassou o ugandense Jacob Kiplimo, 20 anos, resultado de 42 minutos e 59 segundos, recorde da prova. Após a vitória em São Paulo, Kibiwott Kandie em dezembro de 2020, estabeleceu o recorde mundial da meia maratona em Valência, na Espanha, com o tempo de 57 minutos e 32 segundos. Já Jacob Kiplimo foi medalha de bronze nos 10.000 metros nos Jogos Olímpicos de Tóquio, Japão, em 2020. Em 2023, foi campeão mundial de cross-country em Bathurst, na Austrália. Neste ano (2025), em fevereiro, conquistou o recorde mundial de meia maratona em Valência, na Espanha, com 56 minutos e 42 segundos, e venceu a Maratona de Chicago em outubro.

Sabine: Quando você vê a imagem aérea da Avenida Paulista tomada de gente, bate vontade de descer da cabine e estar no meio da multidão correndo?
Wanderlei: Como chego bem cedo com minha filha, Gisele Oliveira (@runnergisa), vou até a largada, converso com os atletas e participantes, entro no clima da prova e volto correndo para a transmissão no 8º andar do prédio da Gazeta. Ao término, desço para esperar minha filha e vibrar com todos que completam a prova.

Sabine: Como comentarista e treinador, qual é o maior desafio: traduzir a estratégia dos atletas de elite ou explicar para o público de casa a emoção do corredor anônimo?

Wanderlei: Uso a experiência de 46 anos como técnico de atletismo para explicar, nos comentários, o que passa na mente e no corpo dos atletas durante a prova e, como atleta mostrar a emoção que é estar entre os mais de 50 mil corredores.

Sabine: Chegar à centésima edição é um marco gigantesco. Na sua visão, o que essa edição histórica representa para o atletismo brasileiro e para a cultura esportiva do país?

Wanderlei: A São Silvestre colocou o Brasil no mapa do esporte mundial desde seu início. A edição histórica dos 100 anos despertou o fascínio de participar da prova mais emblemática do atletismo internacional.

Sabine: Olhando para a elite: qual é o peso de vencer uma São Silvestre na carreira de um atleta profissional?

Wanderlei: Até vencer a São Silvestre em 1995 pela primeira vez, o queniano Paul Tergat era desconhecido no cenário mundial, fato esse que se repetiria por mais quatro vezes: 1996, 1998, 1999 e 2000. Tergat foi medalhista olímpico, recordista mundial dos 10.000 metros e da maratona. A portuguesa Rosa Mota venceu por seis vezes a São Silvestre: 1981, 1982, 1983, 1984, 1985 e 1986. Foi campeã olímpica da maratona nos Jogos Olímpicos de Seul, Coreia, em 1988, vencedora das maratonas de Roterdã (Holanda), Chicago, Tóquio, Boston, Osaka e Londres.

Sabine: Que cuidados básicos você recomenda para quem está começando a correr agora, usando a corrida para cuidar da saúde, e lá na frente sonha em viver a festa de uma São Silvestre?

Wanderlei: O estresse diário tem levado muitas pessoas a um estado de abatimento, tristeza, melancolia, e muita gente acaba recorrendo a antidepressivos. Pesquisas apresentadas no American College of Sports Medicine mostram que a corrida pode acabar com a depressão, trazendo mais energia, entusiasmo e uma nova perspectiva de vida – desde que seja feita com responsabilidade. Primeiro recado é: cuidado, não vai sair por aí correndo feito um louco. Procure o seu médico, faça uma bateria de exames laboratoriais, avaliação ortopédica, dentária, oftalmológica, nutricional e, principalmente, o teste de esforço para saber como o seu coração reage ao exercício. Com os exames em mãos e o atestado médico liberando para a prática esportiva, aí sim vale procurar um Clube de Corredores ou a Federação de Atletismo da sua cidade e treinar com um profissional experiente em corrida de rua. Dessa forma, você usa a corrida para espantar os seus males e chega muito mais preparado para um dia, viver a experiência de largar em uma São Silvestre.

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Sabine Weiler

Sabine Weiler

Jornalista (Time Runners)

Jornalista