Q&A

Q&A com Camila Monteiro

Por: Sabine Weiler Edição 58 - fevereiro 2026
Q&A com Camila Monteiro

Camila Monteiro descobriu, entre escadas, subidas e longas caminhadas, que não conseguia viver a viagem como sonhava. Com 111 kg e uma história marcada por emagrecimentos sem exercício, o período no Japão abriu uma oportunidade para encarar o mundo de outro jeito: mais saudável e com foco no condicionamento. Muito além da estética, a primeira mudança veio no humor e na disposição, como se o corpo passasse a “pedir mais”. Aos poucos, o que começou com caminhadas virou corrida. E, quando cruzou a linha de chegada pela primeira vez em uma prova de 5 km, ela percebeu que não era sobre tempo ou pace, e sim sobre construir uma relação nova com o próprio corpo — menos cobrança, mais presença e constância. Em pouco tempo, a transformação foi gigante. Camila, que mal corria 100 metros, se tornou corredora e, em apenas 11 meses de corrida, encarou uma maratona. Nesta entrevista à Runners Brasil, ela fala de corpo real e corrida real: desafios, vitórias, como encontrou seu ritmo e o que significa sustentar a coragem de treinar sem pedir licença — e, principalmente, sem cair na comparação.

Sabine Weiler: Por que você corre? E desde quando?

Camila Monteiro: Passei por uma virada em julho de 2024. Eu viajei para o Japão e me deparei com uma realidade muito dura: eu não conseguia fazer os passeios. Lá se caminha muito para quase tudo; pra completar, os templos possuíam longas escadas e subidas a pé. No começo, eu achava que poderia resolver tudo através de carro de aplicativo, mas uma simples viagem de 10 minutos era uma fortuna. Senti uma revolta muito grande em pensar que estava em um lugar tão incrível e não conseguia fazer nada. E eu só tinha 32 anos! Estava pesando 111 kg e já estava em processo de emagrecimento (já tinha perdido 9 kg), mas não fazia exercício nenhum. Vim de longos emagrecimentos; inclusive, no último cheguei a 150 kg e perdi 90 kg, chegando a 60 kg. Reganhei 60 kg. Não fiz exercícios em nenhum dos meus emagrecimentos, principalmente porque sempre foi uma punição pra mim. Eu associava tudo com queima de calorias. A viagem para o Japão mudou tudo, pois eu comecei a focar em condicionamento. Eu apenas queria conseguir fazer os passeios. Fiquei quase um mês lá e caminhava praticamente todos os dias, por cerca de dois km. Foi muito difícil, muito duro. As pernas doíam, os pés inchavam, formavam bolhas. Era um sofrimento, mas com poucas semanas eu já comecei a sentir a mudança, principalmente no humor. Aquilo mexeu muito comigo. Quanto mais eu caminhava, melhor eu me sentia. Não tinha nada a ver com emagrecimento. Voltei para o Brasil e já estava tão melhor que percebia que o corpo “pedia” pra correr. Comecei a dar corridas mais curtas. Não aguentava muita coisa, mas pra mim já era uma vitória. Resolvi me inscrever para a minha primeira prova de 5 km e, após isso, nada mais foi como antes.

Sabine: O que significa “corpo real” para você dentro do esporte?

Camila: Significa resistência e coragem. Antes eu achava que correr não era para pessoas gordas; eu achava que não era possível uma pessoa acima do peso ter um bom condicionamento. Além de toda aquela história de que gordo não pode correr por causa do joelho. Tudo caiu por terra quando eu comecei a ver a mudança em mim mesma. Eu consegui construir um bom condicionamento mesmo bem acima do peso. Com o tempo, conheci mais histórias como a minha, mas infelizmente não é tão comum de se ver. Não porque outras pessoas não conseguiriam também, mas porque falta incentivo. As pessoas demonizam a corrida para as pessoas gordas. 

Sabine: Como a corrida te ajudou a se aproximar do seu corpo real, na prática e na cabeça?

Camila: A corrida me mostrou sobre o real significado de usar o meu corpo. O foco não era mais em como o meu corpo poderia parecer, mas no que ele era capaz de fazer. Antes eu só queria encolher, mesmo que custasse a minha saúde. Quando cheguei a 60 kg (do emagrecimento anterior), eu tinha perdido muita massa magra, estava fraca e debilitada. Mas estava magra, e isso era o que mais me importava. Nesse último emagrecimento eu mudei tudo. Tudo virou em prol da corrida: comecei a comer melhor (e parar de demonizar carboidrato), passei a fazer musculação, pois tinha medo de lesionar, e tudo me ajudou a construir um relacionamento mais positivo com o meu corpo. 

Sabine: A maternidade, sendo mãe de gêmeos, mudou sua relação com o corpo e com a corrida? Em que pontos exatamente?

Camila: Além de ter mais disposição e energia, também virei um exemplo para os meus filhos. Muita coisa que eu faço eles querem imitar, seja correr, pedalar, nadar e até mesmo fazer musculação. Eles pegam brinquedos e fingem que são pesos. É muito gratificante ver como o exemplo realmente arrasta. Se o esporte me salvou na faixa dos 30 anos, fico imaginando o que poderia fazer pelos meus filhos na infância. 

Sabine: Em algum momento você sentiu que precisava “provar” algo por causa do seu corpo? Como lidou?

Camila: Em muitos momentos, desde que comecei a mostrar que estava tentando correr. Milhares de pessoas diziam que eu não podia correr e que eu não ia aguentar as distâncias que estava fazendo. Diziam que eu ia morrer e que eu era uma péssima influência para a saúde de quem me seguia. No fim das contas, muita da força que eu tive também veio da necessidade de provar que essas pessoas estavam erradas. Eu queria que as pessoas também vissem, através de mim, que também era possível ir muito longe, mesmo sem histórico de esporte ao longo da vida e mesmo vivendo na sombra da obesidade. 

Sabine: Que tipo de pressão ou padrão mais mexe com a cabeça de quem corre e está buscando aceitação corporal?

Camila: O estereótipo de que todo gordo não tem condicionamento e que é preciso estar magro pra conseguir fazer coisas incríveis com o corpo. Isso é muito comum em filmes, séries e novelas. É claro que o peso mais elevado dificulta o processo, principalmente na velocidade, mas é possível construir uma resistência absurda mesmo estando acima do peso. Em poucos meses de treino eu já estava passando várias pessoas magras em prova de corrida. Eu não tinha velocidade, mas tinha resistência. Me apeguei nisso. 

Sabine: O que você diria para quem acredita que só vai evoluir quando “emagrecer mais”?

Camila: Faça o teste e descubra o quanto se está equivocada. Eu não sou uma exceção. Eu tenho certeza de que qualquer pessoa poderia correr por vários km mesmo estando mais pesada. Vai ser mais difícil do que seria para uma pessoa mais leve? Sem dúvidas, mas difícil por difícil, será para todos. Correr nunca é fácil pra ninguém. 

Sabine: Qual foi a maior vitória que seu corpo te deu na corrida que não tem nada a ver com aparência?

Camila: Acredito que a maior vitória foi a relação positiva que me trouxe com a alimentação. Eu tenho o diagnóstico de Transtorno de Compulsão Alimentar e a corrida me ajudou muito. Perdi o medo de comer carboidrato e percebia a mudança absurda no rendimento quando eu passava a comer mais. E, de forma nenhuma, isso atrapalhou meu emagrecimento; pelo contrário. Se eu estava bem nutrida, eu beliscava menos e não tinha episódios de compulsão. 

Sabine: Quando você percebeu que encontrar o seu ritmo era a melhor forma de manter consistência?

Camila: Quando eu parei de tentar fazer como muitos pediam pra eu fazer. Por exemplo: quando eu voltei do Japão o ânimo de caminhar diminuiu muito. Ao invés de tentar me forçar a manter aquela rotina de antes, eu coloquei na cabeça que só ia treinar pelo menos que achava que bancaria. Tinha dia que eu caminhava 10-15 minutos. Tenho registro de uma caminhada que durou 6 minutos. Foi superimportante fazer isso, pois no fim eu estava construindo o hábito de FAZER; o volume foi consequência desse hábito. 

Sabine: Em que momento você entendeu que o “ritmo de vida” pode ser mais importante do que o ritmo de corrida para sustentar performance?

Camila: Eu sou uma pessoa que busca melhorar meus tempos na corrida, principalmente por ter começado em um pace bem lento. Seria mentira se eu falasse que sou “dane-se o pace”. Mas eu corro para além do pace. Eu entendi isso quando percebi que não era o treino mais forte que me fazia evoluir, e sim o dia seguinte. Quando comecei a dormir melhor, organizar minha rotina, respeitar meus limites, alimentar meu corpo com intenção e não por impulso. Performance não nasce só do pace. Nasce da constância. E constância só existe quando o ritmo de vida é sustentável. E isso exige equilíbrio fora da corrida. 

Sabine: Se você tivesse que descrever seu ritmo ideal em palavras, sem números, como seria?

Camila: Meu ritmo ideal é aquele que me desafia, mas não me esgota. É um ritmo que eu consigo repetir amanhã. 

Sabine: Qual foi a maior mudança prática que você fez quando decidiu respeitar esse ritmo?

Camila: A maior mudança prática foi parar de querer provar alguma coisa em todo treino. Eu comecei a respeitar dias leves de verdade. A dormir melhor. A não negociar recuperação. A entender que intensidade sem estrutura é só ansiedade disfarçada de disciplina. Antes eu queria acelerar sempre. Hoje eu quero sustentar. 

Sabine: Qual é sua regra de ouro quando o treino não sai como o planejado, para não se perder?

Camila: Tentar de novo. Treinos ruins sempre existirão, mas os treinos bons também acontecem e só acontecem porque tentamos de novo. 

Sabine: Você já se comparou com outras pessoas e sentiu que isso te fazia mal? Como percebeu?

Camila: No início sim, e era muito difícil porque a comparação era extremamente injusta, partindo do cenário de que eu comecei na corrida com 111 kg e não tinha vivência anterior com atividade física. Eu queria me inspirar em outras pessoas, mas era muito difícil achar pessoas gordas na corrida que corriam por distâncias maiores. Claro que essas pessoas existem, mas são poucas as que postam sobre isso como influenciadores. Por um período acabei me inspirando em pessoas dentro do padrão e isso me fez muito mal. Essas pessoas nunca lidaram com obesidade ou sequer sobrepeso, muitas já praticavam outros esportes ao longo da vida e isso facilitou a corrida. Era desumano e desleal comigo mesma me comparar com essas pessoas. São outras vivências e outras dificuldades.

Sabine: Hoje, onde a comparação pesa mais para os corredores: nos treinos, nas provas ou nas redes sociais? Por quê?

Camila: Acredito que seja em todos os cenários. As pessoas querem performance até mesmo nos dias de descanso. Isso acontece justamente porque existem, sim, pessoas que fiscalizam pace dos outros, fazem chacota e até julgam caminhadas; pessoas que pausam o relógio, nem que seja só pra amarrar o tênis.

Sabine: Qual tipo de comparação você considera mais perigosa: pace, corpo, volume de treino ou resultados?

Camila: Eu acredito que pace seja a pior comparação de todas, principalmente porque é a métrica mais visada na corrida. Todas as outras comparações existem, mas o peso da velocidade na corrida é a maior de todas.

Sabine: Como foi a decisão de correr uma maratona? O que essa experiência te ensinou sobre corpo real e consistência?

Camila: Eu levava muito tempo para cobrir distâncias tradicionais como 5 e 10 km. Era um trabalho de muita resistência física e mental. Nesse processo comecei a perceber que gostava de treinos mais longos. Comecei a me questionar o quão resistente eu podia ser. Eu tinha apenas 11 meses de corrida quando fiz a Maratona do Rio. Eu fui de uma pessoa que não conseguia correr 100 metros pra alguém que correu sem caminhar por 30 km durante a prova. Quebrei após o km 30, caminhei, mas terminei a prova bem e em um tempo que era inimaginável para alguém com o meu histórico. Não digo que se deve fazer o que eu fiz, maratona é coisa séria, mas eu tampouco me arrependo. Eu faria tudo de novo. Me ensinou que corpo real não é o corpo perfeito. É o corpo presente. Me ensinou que mais vale uma rotina bagunçada do que rotina nenhuma.

Sabine: Mensagem final para quem está buscando “corpo real” e “corrida real”.

Camila: Se você está buscando um “corpo real” e uma “corrida real”, talvez a primeira coisa seja parar de esperar o momento perfeito. Corpo real é o que você tem hoje. É o que sente medo e vai assim mesmo. É o que começa devagar. É o que caminha quando precisa e corre quando consegue. Corrida real não é só sobre pace, medalha ou foto bonita. É sobre processo, sobre repetir, sobre construir algo que caiba na sua vida. Você não precisa parecer atleta para começar. Você começa, e o corpo aprende. E lembrar sempre: o que transforma não é intensidade ocasional. É constância possível.

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Sabine Weiler

Sabine Weiler

Jornalista (Time Runners)

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