Depois de fazer história nas águas abertas e conquistar uma medalha olímpica, Poliana Okimoto encontrou na corrida uma nova maneira de viver o esporte. Aos 43 anos, a ex-nadadora fala sobre recomeços, maternidade, competitividade, liberdade e os desafios de quem já subiu ao pódio e continua descobrindo novos caminhos.
Durante boa parte da vida, Poliana Okimoto teve o olhar voltado para uma linha preta no fundo da piscina ou para o horizonte de uma prova em águas abertas. Foram décadas de treinos, renúncias, conquistas e desafios que a levaram a três Jogos Olímpicos e a um lugar definitivo na história do esporte brasileiro.
Campeã mundial dos 10 km em Barcelona, em 2013, e medalhista de bronze nos Jogos Olímpicos do Rio, em 2016, Poliana construiu uma carreira marcada pela persistência.
Quando ela se despediu do alto rendimento, em 2017, começou uma nova etapa. E com ela vieram a maternidade, o empreendedorismo e, quase naturalmente, a corrida de rua.
Acostumada à resistência de longas distâncias dentro da água, Poliana descobriu que o asfalto exigia outra preparação, outros limites e, sobretudo, paciência. A atleta que passou anos competindo contra as melhores nadadoras do mundo precisou aceitar caminhar durante os treinos e recomeçar sem a obrigação de vencer.
Hoje, aos 43 anos, ela divide a rotina entre a família, os negócios e os treinos. Continua competitiva, sonha com novos desafios e encontrou na corrida algo que o alto rendimento nem sempre permitia: a liberdade de praticar esporte simplesmente pelo prazer de estar em movimento.
Nesta entrevista à Revista Runners Brasil, Poliana revisita os momentos decisivos da carreira, fala sobre os desafios enfrentados pelas mulheres no esporte e mostra que, mesmo depois de chegar ao pódio olímpico, ainda existe muito a descobrir quando se tem coragem de começar de novo.
O encontro com o esporte
Quando você olha para a menina que começou a nadar, consegue imaginar o caminho que aquela escolha iria te levar? Como foi o início?
De jeito nenhum. Eu entrei na piscina com 2 anos, então nem foi uma escolha minha: foi dos meus pais. O objetivo era aprender a nadar, para a minha segurança.
O que eu lembro é de gostar da água desde sempre e de, muito cedo, gostar de competir. Aos 13 anos eu já estava na seleção brasileira. Aquela menina só queria nadar mais rápido que na semana anterior. Ela não fazia ideia de que isso ia dar em três Olimpíadas.
O que a natação te ensinou sobre disciplina, persistência e competição que continua presente na sua vida hoje?
A natação é um esporte de repetição. Você olha para uma linha preta no fundo da piscina por horas, todos os dias, e o resultado demora meses, anos para aparecer. Isso me ensinou que o que constrói qualquer coisa é a constância, e não a motivação do dia. Hoje eu levo isso para a empresa, para a maternidade e para a corrida: fazer o básico bem feito, todo dia, mesmo quando ninguém aplaude.
Você passou praticamente duas décadas representando o Brasil. O que significa para você olhar para essa trajetória hoje?
Significa orgulho e, principalmente, paz. Eu encerrei a carreira com a sensação de missão cumprida, sem aquele “e se”. Quando ganhei minhas primeiras medalhas em Mundiais, quase ninguém no Brasil sabia o que era maratona aquática. Hoje a modalidade tem campeã olímpica, tem criança sonhando com isso, tem prova lotada no fim de semana. Saber que eu ajudei a abrir essa porta vale tanto quanto as medalhas.
Em que momento você percebeu que o esporte não seria apenas uma profissão, mas uma parte da sua identidade?
Acho que eu só percebi de verdade quando parei. Enquanto você compete, o esporte é a sua rotina e você nem questiona. Quando eu me aposentei, em 2017, eu podia ter ido fazer qualquer outra coisa. E no dia seguinte à minha última prova eu já estava correndo 6 km.
Ali ficou claro que eu não era atleta por causa da competição. Eu sou assim: preciso de movimento para me sentir eu mesma.
Eu sou assim: preciso de movimento para me sentir eu mesma.
Existe algum momento da sua carreira que você considera um divisor de águas na mulher que você se tornou?
Jogos Olímpicos de Londres 2012. Eu cheguei como uma das favoritas e saí da água sem completar a prova, com hipotermia. Foi o pior dia da minha carreira. Voltei para o Brasil e enfrentei uma depressão muito forte, e foi ali que eu aprendi a separar o resultado de quem eu sou. Um ano depois eu fui campeã mundial dos 10 km em Barcelona, e quatro anos depois veio a medalha no Rio. Nada disso teria acontecido se eu não tivesse aprendido a levantar depois de Londres.
Medalhista olímpica: a conquista que atravessa gerações
A medalha de bronze conquistada nos Jogos Olímpicos do Rio, em 2016, foi muito mais do que o resultado de uma prova. Para Poliana, representou uma trajetória inteira, inclusive os momentos em que o resultado esperado não veio. Dez anos depois, o que permanece não é apenas a lembrança do pódio, mas o impacto daquela conquista na vida de outras pessoas.
Rio 2016 foi o momento mais emblemático da sua carreira. O que você lembra daquele dia que talvez o público nunca tenha visto?
O que o público realmente não vê é o dia a dia. Os treinos, a abdicação da vida pessoal, a dor diária do treino pesado, os fins de semana sem família, os feriados sem descanso, as festas de que nunca participamos.
No dia da prova tudo é lindo, a arena é linda, ter o público vibrando por você é lindo, e se vem uma medalha então, nem se fala. A ansiedade pré-prova também é algo difícil de descrever, é um misto de medo, vontade e expectativa.
Você viveu três Olimpíadas e conquistou uma medalha na última. O que mudou dentro de você entre Pequim, Londres e Rio?
Em Pequim eu era a novata: a maratona aquática estreava nos Jogos e eu fiquei em sétimo, feliz só de estar ali. Em Londres eu era favorita e carregava o peso de ter que ganhar. Não terminei a prova. No Rio eu tinha 33 anos e já tinha entendido que não controlo o resultado, só a minha entrega.
Eu nadei mais leve na Olimpíada em que a pressão era maior. A diferença entre as três não foi física, foi a minha maturidade.
A medalha de bronze veio depois de uma prova muito difícil. Quando você olha para aquela conquista dez anos depois, o que ela representa?
Representa insistência. Aquela medalha não é de uma prova, é de 30 anos de piscina e de duas Olimpíadas em que ela não veio. Dez anos depois, o que mais me toca nem é o pódio: é encontrar gente que começou a nadar no mar por causa daquele dia. A medalha fica guardada, mas o que ela provocou nas pessoas continua acontecendo, e isso me emociona muito.
Você foi a primeira brasileira a conquistar uma medalha olímpica na natação em águas abertas. Você tinha consciência, naquele momento, do tamanho histórico daquela conquista?
Na verdade, sim. Eu sabia, e era isso que eu buscava desde que comecei a nadar em águas abertas. Eu sabia que estaria escrevendo a história da modalidade, e lutei dia após dia para que isso acontecesse.
Depois de tantos anos vivendo para performance, treino e competição, como foi o momento de decidir parar?
Foi uma decisão tranquila, e eu sei que isso é raro. Eu tinha 34 anos, tinha sido campeã mundial, tinha a medalha olímpica e um sonho que o alto rendimento estava adiando: ser mãe.
Me despedi em dezembro de 2017, em Copacabana, no mesmo mar onde comecei na maratona aquática e onde ganhei a medalha. Fechou um ciclo!
Difícil mesmo não foi decidir parar, foi descobrir quem eu era nos meses seguintes.
Quando a campeã virou iniciante
Se na água Poliana dominava cada movimento, na corrida descobriu um universo completamente diferente. A experiência olímpica não a poupou das dificuldades de uma nova modalidade, mas trouxe a oportunidade de viver o esporte sem a pressão dos resultados.
Você já disse que começou a correr “para se divertir”. Como foi descobrir a corrida depois de tantos anos sendo uma atleta de elite?
Foi estranho e delicioso. Pela primeira vez na vida eu fazia um esporte sem planilha, sem técnico me esperando na borda e sem meta de tempo. Eu calçava o tênis e ia.
A corrida também tem uma coisa que a natação não tem: você conversa, vê a cidade, encontra gente. Depois de décadas com a cabeça dentro d’água, olhando para o fundo da piscina, correr na rua parecia um passeio.
O que a corrida te proporcionou que você não estava procurando quando começou?
Um outro jeito de fazer esporte, de começar do zero, de ser uma aprendiz.
Na água, você era uma campeã mundial e olímpica. No asfalto, você voltou a ser iniciante. Como foi lidar com essa mudança de papel?
No começo, meu ego sofreu. Meu coração e meu pulmão são de atleta olímpica, mas minhas pernas nunca tinham levado impacto na vida. A cabeça queria um ritmo que o corpo não sustentava. Tive que aceitar ser ultrapassada, andar no meio do treino, perguntar coisas básicas. Hoje eu acho isso um privilégio. Pouca gente tem a chance de ser iniciante de novo depois dos 40.
Existe uma liberdade em correr sem precisar provar nada para ninguém?
Existe, e é enorme. Durante vinte anos, cada treino meu tinha consequência: vaga na seleção, patrocínio, resultado. Hoje, se o treino foi ruim, foi só um treino ruim. Ninguém vai escrever sobre isso. Essa leveza me fez gostar ainda mais de esporte.
Hoje, se o treino foi ruim, foi só um treino ruim. Ninguém vai escrever sobre isso.
Você se surpreendeu com alguma coisa no universo da corrida?
Com o tamanho e com a festa. A largada de uma prova de rua tem uma energia que eu não conhecia: milhares de pessoas, cada uma com a sua história, todo mundo torcendo por todo mundo.
O que é mais difícil: começar uma modalidade nova aos 40 e poucos anos ou aceitar que você não precisa ser imediatamente uma campeã?
Aceitar, sem dúvida. Começar é fácil, basta um tênis. O difícil é desligar a voz que passou trinta anos me dizendo que só serve se for para ganhar. O corpo se adapta em meses, a cabeça de atleta de elite demora bem mais, e ainda estou nesse processo.
Você contou que começou forte demais e acabou tendo uma lesão. O que essa experiência te ensinou sobre respeitar o corpo em uma nova fase?
Me lembrou que não dá para pular etapas. Eu sempre amei o processo e sempre amei fazer força nos treinos. Meu corpo estava 100% preparado para a natação, mas para a corrida não. Então tive que aprender o processo de novo, do zero, respeitando limites que eu ainda não conhecia direito.
Hoje, quando você corre, você ainda pensa como uma atleta de alto rendimento ou consegue simplesmente correr?
Minha cabeça ainda funciona como a de uma atleta de alto rendimento, mas meu corpo é de uma atleta amadora iniciante. É frustrante, mas estou consciente de que preciso pegar leve comigo mesma.
Mulher, corpo e esporte
A mudança de modalidade também trouxe uma nova relação com o corpo. Depois de anos dedicados à alta performance, Poliana passou a olhar para o esporte a partir de outras prioridades. A maternidade, o envelhecimento e as cobranças que acompanham as mulheres dentro e fora das competições fazem parte dessa reflexão.
Você passou muitos anos submetida às exigências de um esporte de alto rendimento. Como mudou sua relação com o próprio corpo depois que saiu da competição?
Durante a carreira, meu corpo era uma ferramenta de trabalho: pesado, medido e avaliado o tempo todo.
Depois que parei, ele mudou, veio a maternidade, e eu precisei reaprender a olhar para ele sem a régua da performance. Hoje a minha relação é de parceria. Eu cuido dele para que ele me deixe fazer o que eu amo por muitos anos, e não para render em uma data específica.
Existe uma cobrança diferente sobre o corpo da mulher atleta?
Existe. O atleta homem é avaliado pelo que o corpo dele faz; a mulher é avaliada pelo que o corpo faz e também por como ele parece. Ombro largo de nadadora, por exemplo, sempre vira comentário. Além disso, até pouco tempo atrás quase não se falava de ciclo menstrual, de gravidez e de pós-parto no treinamento. A gente treinava com planejamentos pensados para homens. Isso está mudando, mas ainda devagar.
Em algum momento da carreira você sentiu que precisava escolher entre ser atleta e outros papéis da vida?
Sim, em vários momentos, principalmente com a maternidade. Na minha época, engravidar no meio da carreira significava quase sempre perder patrocínio, bolsa e vaga. Eu adiei o sonho de ser mãe até me aposentar. Não me arrependo, mas fico feliz de ver que hoje há atletas voltando ao pódio depois de ter filho, com apoio. Nenhuma mulher deveria ter que fazer essa escolha.
Nenhuma mulher deveria ter que escolher entre ser atleta e ser mãe.
O que você gostaria que as mulheres soubessem sobre envelhecer praticando esporte?
Que a gente não precisa se despedir do corpo forte. Depois dos 40 muda a recuperação, mudam os hormônios, e o treino de força deixa de ser opcional. Mas dá para evoluir, e muito. Eu estou aprendendo modalidades novas aos 43. O esporte nessa fase deixa de ser estética e passa a ser autonomia: é o que vai me permitir brincar com meu filho, viajar e viver bem daqui a trinta anos.
Hoje, o que significa para você ter performance?
Significa conseguir equilibrar todos os pratinhos do meu dia. Treinar, trabalhar, cuidar do meu filho.
Você acha que nós, mulheres, ainda somos muito cobradas para fazer tudo “perfeito”, inclusive quando começamos a correr?
Acho, e a maior cobrança costuma vir de dentro. Eu vejo isso nas alunas: a mulher chega pedindo desculpa por ser lenta, por não ter o tênis certo, por ter faltado porque o filho ficou doente.
Homem raramente pede desculpa por começar. Corrida não precisa ser perfeita, precisa caber na sua vida. Treino feito pela metade vale muito mais que treino perfeito que não aconteceu.
O que você diria para uma mulher que está começando a correr agora, especialmente aquela que acha que “não leva jeito” para o esporte?
Diria que eu, medalhista olímpica, me machuquei logo no começo da corrida porque também não sabia começar. Ninguém nasce levando jeito. Comece intercalando caminhada e trote, sem vergonha nenhuma de caminhar. Vá devagar a ponto de conseguir conversar. Procure orientação e, se puder, um grupo. E não se compare com ninguém além de você mesma no mês passado.
A competitividade não se aposenta
Deixar o alto rendimento não significou abandonar o espírito competitivo. O que mudou foi a maneira de enxergar as conquistas. Hoje, Poliana encontra novas motivações no próprio desenvolvimento e também nas vitórias de quem está começando.
Contra quem você compete hoje?
Contra a Poliana de ontem. A competitividade não se aposenta junto com a atleta. O que mudou foi o adversário: antes eram as melhores do mundo, hoje é a minha própria preguiça numa manhã fria.
O que mudou na sua definição de vitória?
Vitória era subir no pódio. Hoje é cruzar a linha de chegada inteira, feliz e com vontade de voltar no dia seguinte. E tem uma vitória nova, que eu não conhecia: ver um aluno completar a primeira travessia ou a primeira prova. Essa eu comemoro até mais do que as minhas.
Existe diferença entre querer vencer uma prova e querer vencer a si mesma?
Existe. Vencer uma prova muitas vezes não depende só de você. Você pode fazer a melhor prova da vida e perder, ou nadar mal e ganhar. Vencer a si mesma só depende de você, e por isso é mais difícil de enganar. No Rio eu não venci a prova, fui bronze. Mas venci a mim mesma depois de Londres, e é dessa vitória que eu mais me orgulho.
Depois de conquistar uma medalha olímpica, como encontrar novos desafios? Qual é o desafio que mais te empolga?
O segredo é procurar onde você não é boa. Se eu ficasse só na água, tudo seria comparação com o que eu já fui. No asfalto e na bicicleta eu não tenho passado, só futuro. O desafio que mais me empolga hoje é o IRONMAN 70.3 em 2027. Nadar eu sei. Agora eu quero ver o que acontece depois que eu saio da água.
Da água para o asfalto, e para o triatlo
A corrida, que começou sem cobranças, ganhou espaço na rotina. Com a experiência de uma lesão e a necessidade de adaptar o treinamento, Poliana passou a estabelecer novos objetivos. A meia maratona e o triatlo aparecem entre os desafios que pretende enfrentar.
A corrida entrou na sua vida como uma brincadeira e acabou ganhando espaço. Quando você percebeu que ela tinha virado um projeto?
Quando eu me machuquei e fiquei com saudade. Enquanto era só diversão, eu achava que podia largar a qualquer momento. Parada, percebi que a corrida já fazia falta na minha semana e que eu queria voltar direito, com planejamento.
Como estão hoje seus treinos de corrida?
Hoje eu tento (às vezes falho) correr três vezes por semana, nadar e pedalar duas vezes e fazer fortalecimento três vezes por semana, algo que virou inegociável depois da lesão.
Você ainda mantém o projeto de disputar uma meia maratona e o IRONMAN 70.3 continua nos seus planos?
Os dois continuam de pé. A meia vem no ano que vem, e o 70.3 ainda está sem data, mas vivo nos planos.
Para alguém que veio da natação, o que foi mais difícil na corrida: pernas, impacto, respiração ou cabeça?
Impacto, disparado. Nadador vive na horizontal, sem peso, e o meu corpo passou quarenta anos sem saber o que era bater no chão. A respiração nunca foi problema, e isso era justamente a armadilha: a respiração me deixava ir mais rápido e mais longe do que as pernas aguentavam. A cabeça vem em segundo lugar, pela paciência que eu precisei aprender.
Você acredita que a experiência de nadadora de águas abertas te ajuda a correr?
Ajuda muito na parte que ninguém vê. A maratona aquática são duas horas de esforço contínuo, lidando com desconforto, frio, onda e adversária batendo em você. Isso me deu ritmo interno, estratégia de prova e uma boa tolerância ao sofrimento. Eu sei dosar energia e sei que a vontade de parar passa. Mas ela não me deu panturrilha. Essa eu estou construindo agora.
Existe alguma coisa que a corrida te ensinou que você gostaria de ter aprendido durante a sua carreira na natação?
A me divertir mais no processo. Na natação, eu passei muitos anos tratando o treino como um preço a pagar pelo resultado. A corrida me mostrou que dá para gostar do caminho, rir de um treino ruim e comemorar coisa pequena. Se eu tivesse aprendido isso aos 20, acho que teria sofrido menos.
Esporte sempre: da atleta à mentora
O esporte continua sendo parte central da vida de Poliana, agora também do outro lado do treinamento. Ao lado do marido, Ricardo Cintra, ela desenvolveu um trabalho voltado a atletas amadores, levando a experiência das competições de elite para pessoas com diferentes objetivos e rotinas.
Depois de encerrar a carreira, você decidiu continuar no esporte de outra maneira. Por que era tão importante para você não se afastar desse universo?
Porque o esporte me deu tudo: profissão, valores, meu marido, meus melhores amigos. Eu não conseguiria simplesmente virar a página. E eu sentia uma responsabilidade também na parte inspiracional; não dava para largar tudo o que eu tinha construído até ali.
Como nasceu a Okimoto & Cintra?
Nasceu em 2018, logo depois da minha aposentadoria, da parceria que já existia dentro d’água. O Ricardo, meu marido, foi meu técnico durante toda a fase de maratona aquática e trabalhou mais de dez anos com a seleção. A gente percebeu que o método que me levou ao pódio olímpico podia ser adaptado também para atletas amadores. Começamos com natação e águas abertas, e a corrida e o triatlo vieram naturalmente, porque os alunos pediam.
Hoje vocês trabalham com natação, corrida e triatlo. O que você aprendeu como atleta de elite que leva para o treinamento de atletas amadores?
Três coisas. Primeiro, que técnica vem antes de volume: nadar ou correr errado muitas vezes pode atrasar o progresso, além de causar lesões. Segundo, que descanso é treino. Terceiro, e mais importante, que todo plano precisa caber na vida real da pessoa. O amador tem emprego, filho, trânsito e boleto. O melhor treino do mundo não serve se ele não consegue cumprir.
O amador tem emprego, filho, trânsito e boleto. O melhor treino do mundo não serve se ele não consegue cumprir.
O que muda quando você passa de atleta para mentora?
Muda o centro. Atleta de alto rendimento é, por necessidade, muito voltada para si: seu sono, sua comida, sua prova, seu treino. Mentora olha para o outro o tempo todo. Tive que aprender a escutar mais do que falar e a entender que o que funcionou para mim não funciona para todo mundo.
Você consegue se enxergar nas pessoas que estão começando agora?
Antes eu entendia o medo do aluno na teoria. Agora, quando alguém me diz que tem vergonha de ser o mais lento do grupo, eu sei exatamente como é, porque senti isso na corrida e sinto na bicicleta.
O que mais te emociona hoje: conquistar algo para você ou ajudar outra pessoa a conquistar?
A emoção de ver alguém que tinha medo do mar sair da água sorrindo depois da primeira travessia não tem preço, seja com os alunos da minha assessoria, seja com os milhares de atletas que fazem a Travessia Poliana Okimoto todos os anos.
Mulheres que abrem caminhos
Pioneira nas águas abertas, Poliana acompanhou as mudanças no esporte feminino ao longo da carreira. Para ela, o crescimento da visibilidade e da participação das mulheres representa uma conquista importante, mas ainda existem desafios ligados a investimento, estrutura, maternidade e presença feminina nos espaços de decisão.
Você foi pioneira em uma modalidade que ainda era pouco conhecida no Brasil. O que significa ser uma mulher que abre caminho?
Quando eu fui para as águas abertas, não havia estrutura, calendário definido, verba, patrocínio, nem uma referência brasileira para eu seguir. Eu e o Ricardo fomos aprendendo prova a prova, errando bastante. Abrir caminho cansa mais do que seguir um, mas tem uma recompensa única: quem vem depois já começa de onde você chegou. Ver a Ana Marcela ser campeã olímpica em 2020 foi como se eu tivesse feito parte da conquista dela.
Você sentiu, em algum momento, que precisava provar mais por ser mulher?
Senti. Por muito tempo, o esporte feminino só virava notícia quando tinha medalha, enquanto o masculino era notícia pela expectativa. A mulher precisa provar seu valor o tempo todo. É como viver com a faca no pescoço: em toda prova você precisa provar que é digna de estar onde está. Para conseguir patrocínio e espaço, eu precisava do resultado antes. E mesmo depois da medalha no Rio eu perdi um dos meus principais patrocinadores. Isso diz muito sobre o quanto a mulher precisa provar, e provar de novo.
O que mudou para as mulheres no esporte desde o começo da sua carreira?
Mudou a visibilidade. Hoje tem transmissão, tem torcida, tem menina com ídola mulher, coisa rara quando eu comecei. Mudou a conversa sobre maternidade, com atletas voltando a competir depois dos filhos. E mudou a base: as largadas de corrida de rua e de travessia estão cheias de mulheres. Nas provas que eu organizo, vejo isso crescer a cada ano.
O que ainda precisa mudar?
A estrutura por trás da vitrine. Ainda há poucas mulheres treinadoras, dirigentes e em cargos de decisão. Ainda existe diferença de investimento financeiro no esporte feminino. Falta ciência do treinamento pensada para o corpo feminino. Falta segurança para as mulheres poderem treinar sozinhas na rua. E falta proteção real para a atleta que engravida. Medalha a gente já mostrou que sabe ganhar. Agora precisamos estar também onde as decisões são tomadas.
Medalha a gente já mostrou que sabe ganhar. Agora precisamos estar também onde as decisões são tomadas.
Que nomes do esporte te inspiraram ao longo da sua trajetória?
Na natação, Janet Evans me inspirou muito; passei muitas horas assistindo a vídeos da técnica de nado dela. Fora da água, Ayrton Senna, pela determinação e pela coragem que ele transmitia.
E hoje, que mensagem você gostaria de deixar para a próxima geração de meninas que querem ser atletas, seja da água ou das pistas?
Que o caminho é longo, e que isso é uma boa notícia. Eu ganhei minha medalha olímpica aos 33 anos, na terceira tentativa. Não deixem ninguém dizer que vocês não podem, nem que precisam escolher entre ser atleta e ser mulher. Cuidem do corpo, estudem, cerquem-se de gente que acredita em vocês, e se divirtam. Atleta que gosta do que faz vai mais longe.
A Poliana de hoje
Longe da obrigação de alcançar um resultado em cada competição, Poliana encontrou outras maneiras de medir suas conquistas. O prazer de treinar, o tempo com a família e a possibilidade de inspirar novas gerações fazem parte de uma vida em que o esporte continua presente, mas ocupa um lugar diferente.
Quem é a Poliana que acorda hoje de manhã e vai correr?
É uma mulher de 43 anos, mãe, empresária e uma corredora ainda em construção. Ela acorda com bem menos certezas (e menos energia também) do que a atleta olímpica tinha, mas muito mais leve. Não corre para ganhar de ninguém. Corre porque aquele é o momento do dia que é só dela.
O que te faz levantar para treinar quando ninguém está olhando?
O hábito: eu passei a vida inteira treinando e sinto falta quando não vou. Mas hoje tem um motivo novo: meu filho está olhando. Eu quero que ele cresça achando normal que a mãe se cuide, se desafie, termine o que começou e, principalmente, quero que ele veja o quanto o esporte é bom e nos faz bem.
O que te dá prazer no esporte hoje?
As coisas pequenas. O café depois do treino, a conversa durante o longão, a primeira vez que um ritmo que era difícil fica confortável. E a água. Entrar na água, sem cronômetro, ainda é o meu lugar preferido no mundo.
Você se sente mais livre como atleta hoje do que quando estava no alto rendimento?
Muito mais. No alto rendimento eu tinha foco e propósito, mas a liberdade era pouca: tudo era decidido em função da próxima prova. Hoje eu escolho o desafio, o ritmo e até o dia de não treinar. Só não troco uma fase pela outra. Eu só consigo aproveitar essa liberdade porque vivi intensamente o alto rendimento antes.
O que você ainda quer viver por meio do esporte?
Quero ver o Instituto Poliana Okimoto colocar muita criança na água. Quero ver a Travessia Poliana Okimoto crescer e formar novos nadadores. E quero, um dia, fazer uma prova ao lado do meu filho, se ele quiser. Esse seria o meu pódio.
Se pudesse conversar com a Poliana de 20 anos atrás, o que diria para ela?
A Poliana de 2006 tinha acabado de trocar a piscina pelo mar e achava que cada prova era o fim do mundo. Eu diria: calma, vai dar certo, mas vai demorar e vai doer muito no meio do caminho. Seja forte, persista, que vai valer a pena.
E se pudesse dar um conselho para a Poliana que vai correr amanhã, qual seria?
Vai devagar, alonga e não olha tanto para o relógio. Você não precisa provar mais nada. Aproveita o seu momento.
Depois de conquistar o que parecia impossível, você continua correndo atrás de quê?
De continuar amadurecendo, aprendendo, me conhecendo, vivendo novas vidas dentro desta aqui. Corro atrás da minha melhor versão todos os dias.
Entrevista e texto: Dani Christoffer, editora-chefe da Revista Runners Brasil