Autoestima, medo e a rua como território delas: o custo invisível da vigilância constante e como a confiança se constrói, passo a passo.
Antes de colocar o tênis e sair para correr, muitas mulheres já fizeram uma série de cálculos: qual horário escolher para treinar, qual trajeto parece mais seguro, se é melhor correr acompanhada, se a roupa é a mais adequada, se aquele local permite treinar com tranquilidade, entre outras análises que podem ficar mais complexas a depender do contexto de cada uma. Para elas, a corrida começa antes do primeiro quilômetro, em uma avaliação constante sobre o ambiente e sobre as condições necessárias para se sentirem confortáveis naquele espaço e para tornar a corrida uma prática possível na vida delas.
Essas decisões fazem parte de uma realidade que influencia a experiência de muitas corredoras. A rua, que deveria representar liberdade, autonomia e movimento, pode envolver uma negociação diferente para mulheres que consideram fatores relacionados à segurança antes de iniciar uma prática esportiva. E, considerando a cultura em que ainda vivemos, esse é um dos pontos mais críticos dessa análise prévia: precisar considerar os riscos reais de sofrer algum tipo de violência durante o trajeto.
O risco real e a vigilância constante
Entre as pesquisas mais amplas relacionadas ao tema, a “The Ridiculous Run”, estudo global realizado pela Adidas e divulgado em 2023, revelou que, na sua amostra, 92% das mulheres sentem preocupação com a segurança ao sair para correr. Além disso, 51% relataram medo de sofrer ataques físicos, 38% já passaram por assédio físico ou verbal e 46% perderam o interesse pelo esporte depois dos incidentes.
92% das mulheres da pesquisa sentem preocupação com a segurança ao sair para correr
Fonte: The Ridiculous Run, Adidas (2023)
Não se trata de afirmar que todas as mulheres vivenciam a corrida da mesma forma, até porque faltam pesquisas maiores e mais aprofundadas sobre o assunto. Trata-se de olharmos com a devida atenção para os dados e relatos que já temos e que trazem o medo e a ansiedade que muitas corredoras sentem na sua prática.
O esforço de antecipar, prevenir e se adaptar o tempo todo
Na Psicologia, entendemos que emoções como medo e ansiedade têm uma função importante, já que ajudam a identificar possíveis ameaças e a preparar respostas diante de situações percebidas como risco. O problema não está na existência do medo, mas em quando a necessidade de monitoramento se torna tão frequente que passa a consumir energia mental e a restringir escolhas importantes.
Para uma corredora, isso pode significar dedicar parte da atenção do treino não apenas ao ritmo, à respiração ou às sensações do corpo, mas também à avaliação constante do ambiente. A atenção que poderia estar voltada para a experiência da corrida também é usada para responder a perguntas como: “estou em um local seguro?”, “preciso mudar meu trajeto?”, “devo interromper este treino?”.
Esse processo de vigilância tem um custo psicológico, pois manter-se o tempo todo em estado de avaliação exige recursos cognitivos e pode influenciar a forma como a pessoa se relaciona com a prática esportiva. A corrida, que poderia ser um momento de conexão com o próprio corpo e de recuperação mental, pode acabar acompanhada de uma carga adicional de preocupação.
A corrida começa antes do primeiro quilômetro, em uma avaliação constante sobre o ambiente.
Corrida e autoestima
Em contrapartida, a corrida também tem o poder de fortalecer a autoestima. Começando pelo conceito de autoeficácia, que ajuda a compreender a construção da nossa autoconfiança. Autoeficácia não significa acreditar que nada dará errado ou eliminar completamente o medo, mas desenvolver a percepção de que possuímos recursos para lidar com diferentes situações. Aumentamos esse senso à medida que testamos estratégias de enfrentamento e descobrimos que somos capazes de fazer muitas das coisas que nos propomos a fazer. E essa percepção é construída aos poucos.
Na corrida, ela pode estar no percurso que antes parecia desafiador, na prova concluída, em ser capaz de buscar parcerias para correr ou em perceber que o corpo consegue sustentar esforços maiores do que imaginava. Cada experiência oferece novas informações sobre as próprias capacidades.
A atenção deixa de estar apenas em como o corpo é visto do ponto de vista estético e passa a incluir também aquilo que ele consegue realizar. O corpo passa a ser experimentado como um instrumento de movimento, resistência e adaptação.
Nesse contexto, a corrida pode ser uma excelente ferramenta, sem esquecer que a mesma lógica de cobrança e comparação presente em outros contextos também pode aparecer no esporte. Algumas corredoras podem transformar a performance em mais uma fonte de julgamento, avaliando o próprio corpo apenas pelos resultados entregues. E não é esse o caminho que queremos.
A relação construída com a corrida importa tanto quanto a prática em si.
Por isso, a relação construída com a corrida importa tanto quanto a prática em si. Um corpo que corre não precisa ser apenas um corpo que busca melhorar tempos ou alcançar metas. Ele também pode ser um corpo que “apenas” aprende sobre limites, capacidades e escolhas. Um corpo que ajuda a mente a perceber que ela é capaz de fazer muitas coisas.
Os grupos de corrida como estratégia
Os grupos de corrida também têm um papel relevante nesse processo. Além da dimensão prática de companhia e segurança, eles podem funcionar como espaços de pertencimento e troca de experiências. Compartilhar dúvidas, medos e estratégias com outras mulheres pode reduzir a sensação de isolamento e ampliar a percepção de que aquela prática é possível. Cada contexto terá sua especificidade, mas sempre haverá estratégias possíveis de testar.
Frequentemente falo aqui nos textos sobre a flexibilidade psicológica, e ela cabe na conversa de hoje também. A flexibilidade psicológica é a capacidade de agir em direção ao que é importante mesmo diante de pensamentos, emoções ou sensações desconfortáveis. Aplicada à corrida, essa ideia não significa ignorar riscos reais ou obrigar-se a enfrentar qualquer situação. Longe disso! Significa reconhecer o medo, avaliar o contexto e construir ações coerentes com aquilo que a pessoa valoriza e que é possível.
A mulher que deseja correr, mas ainda sente insegurança, pode começar por pequenos passos: escolher um percurso conhecido e movimentado, combinar um treino com outra pessoa, participar de um grupo em que se sinta segura, estabelecer horários em que se sinta mais confortável ou iniciar com caminhadas antes da corrida.
A confiança é construída por meio de experiências repetidas em que a pessoa percebe que consegue agir, adaptar-se e tomar decisões, construindo uma relação mais consciente com o próprio corpo e com as possibilidades que esse corpo e o ambiente oferecem.
Quer correr, mas ainda tem medo de sair de casa?
Somente a exposição gradual vai te ajudar a lidar com o medo. Comece pelo que parecer menos difícil e depois avance para atividades mais desafiadoras. Alguns recursos ajudam:
- Convide alguém para correr ou caminhar com você
- Comece a correr com um grupo de corrida que te faça bem (há vários perfis diferentes; teste e encontre o que funciona para você)
- Se for sozinha, prefira horários durante o dia
- Busque percursos movimentados e iluminados
- Prefira percursos conhecidos por ter policiamento frequente
- Compartilhe sua localização com alguém de confiança
- Converse com outras corredoras para conhecer mais estratégias
- Busque ajuda psicológica se precisar de apoio para lidar com o medo