Ela começou a correr aos 39 anos, sobreviveu a três paradas cardíacas em 2021 e se tornou a primeira mulher brasileira a completar os 250 km da Marathon des Sables. Uma conversa sobre recomeço, fé e o que significa ser mulher em provas extremas.
Josy Madruga começou a correr aos 39 anos sem imaginar o quanto aquele esporte transformaria sua vida. Em 2021, depois de três paradas cardíacas, intubação e coma provocados pela Covid, precisou reconstruir a confiança no próprio corpo e a forma de enxergar a corrida. Depois de tudo o que viveu, tempos, resultados e performance deixaram de ser o mais importante. Correr passou a representar, antes de tudo, o privilégio de estar viva.
Depois da recuperação, Josy voltou a se desafiar e foi cada vez mais longe, passando por montanhas, selvas e desertos. No Saara, se tornou a primeira mulher brasileira a fazer e completar os 250 km da Marathon des Sables. Depois vieram a Namíbia e o Atacama, e cada experiência trouxe um aprendizado diferente. Nesta entrevista à Runners Brasil, a atleta de Rio Verde de Mato Grosso (MS) fala sobre transformação, fé e os desafios de ser mulher em provas extremas. Sua história inspira e incentiva outras mulheres ao mostrar que não existe idade certa para começar, recomeçar ou descobrir a própria linha de chegada.
Quando você começou a correr, aos 39 anos, o que imaginava que a corrida representaria na sua vida?
Não imaginava que ela me levaria tão longe. Naquele momento, era uma descoberta, uma maneira de me desafiar e de conhecer meus próprios limites. Eu não sabia que a corrida se tornaria muito mais do que um esporte: ela seria parte da minha identidade, minha terapia e, mais tarde, uma ferramenta fundamental na reconstrução da minha vida. Hoje, quando olho para trás, vejo que cada quilômetro ajudou a construir a mulher que sou.
O que a corrida fez você descobrir sobre si mesma que talvez ainda não conhecesse?
Descobri uma força que eu não sabia que existia dentro de mim. Aprendi que sou capaz de continuar mesmo quando o caminho fica difícil, quando o corpo pede descanso e a mente começa a questionar se vale a pena. A corrida me ensinou disciplina, paciência, humildade e resiliência. Também me mostrou que não preciso ser a mais rápida para chegar longe. Preciso acreditar no meu propósito e respeitar o meu processo.
Não preciso ser a mais rápida para chegar longe.
Seu primo teve um papel importante no começo dessa história. Em que momentos você mais lembra dele quando está correndo?
Lembro dele como alguém importante na origem dessa história. Existem pessoas que passam pela nossa vida e deixam marcas que nos acompanham por muito tempo. Quando estou diante de um desafio, penso nas pessoas que fizeram parte do caminho até aqui, porque nenhuma trajetória é construída completamente sozinha. Carrego comigo essa lembrança e a importância que ele teve no meu início.
Em 2021, a Covid colocou você diante de uma situação extrema. Você enfrentou a possibilidade real de não sobreviver. Que papel a corrida teve no seu processo de recuperação e na reconstrução da confiança em você mesma?
A Covid foi o divisor de águas da minha vida. Em 2021, enfrentei três paradas cardíacas, fui intubada e fiquei em coma. Estive diante de uma realidade em que sobreviver não era algo que eu pudesse dar como certo. Voltar à vida foi uma oportunidade que passei a enxergar de outra maneira. A recuperação exigiu tempo, coragem e muitos passos pequenos. A corrida entrou nesse processo como um símbolo de recomeço. Cada vez que eu conseguia fazer algo que antes parecia impossível, recuperava um pouco mais da confiança em mim. Eu não voltei a correr sendo a mesma mulher. Voltei com outra consciência sobre a vida, o tempo e as oportunidades. Hoje, quando enfrento uma ultramaratona, sei que minha história é muito maior do que a distância que tenho pela frente. Eu já precisei lutar para estar aqui. Correr passou a ser também uma forma de honrar essa segunda chance.
Depois de chegar tão perto de perder a vida, sua relação com metas, resultados e performance mudou?
Mudou completamente. Antes, ficava muito concentrada em números, tempos, colocações e resultados. Hoje, valorizo muito mais o privilégio de estar viva, ter saúde para treinar e poder me colocar diante de desafios que um dia nem imaginava enfrentar. Isso não significa que deixei de ser competitiva ou de buscar evolução. Continuo treinando com seriedade e estabelecendo metas. Mas aprendi que o resultado não pode ser maior do que a vida. Uma medalha é importante, mas a possibilidade de cruzar uma linha de chegada com gratidão é ainda mais significativa.
O que levou você a decidir correr a Marathon des Sables, no Marrocos, uma prova de seis dias e cerca de 250 quilômetros, carregando seus próprios mantimentos e enfrentando condições extremas?
A Marathon des Sables representava um daqueles desafios que mexem com a gente antes mesmo de a prova começar. Era o Saara, uma distância enorme, vários dias de corrida e a responsabilidade de carregar o que eu precisava para sobreviver e avançar naquele ambiente. Depois de tudo o que vivi, entendi que não queria passar a vida me perguntando até onde poderia chegar. Queria descobrir isso na prática, com preparação, responsabilidade e respeito pelos meus limites. Também existia um desejo de representar o Brasil, Mato Grosso do Sul e Rio Verde de Mato Grosso em um cenário tão grandioso. Eu queria mostrar que uma mulher que começou a correr aos 39 anos e passou por uma experiência tão difícil de saúde poderia construir uma trajetória extraordinária no esporte.
Você se tornou a primeira mulher brasileira a fazer e completar a Marathon des Sables. Entre tempestade de areia, calor, frio, escuridão, cansaço e solidão no Saara, de onde veio a força para continuar?
Minha força veio de vários lugares: da minha fé em Deus, da preparação, da minha história e da certeza de que eu havia escolhido estar ali. Houve momentos de cansaço, solidão e desconforto em que eu precisava me concentrar apenas no próximo passo. Em uma prova assim, não adianta pensar o tempo todo nos quilômetros que faltam. É preciso dividir o desafio em pequenas etapas, cuidar do corpo e conversar com a própria mente. Também me lembrava de tudo o que havia enfrentado para chegar até ali. Eu levava comigo o nome do Brasil, de Mato Grosso do Sul e de Rio Verde de Mato Grosso. Isso tinha um significado especial. Mas aprendi que a força não é nunca sentir medo ou cansaço. A força é reconhecer o que está acontecendo e, com consciência, encontrar uma maneira de seguir.
Ao cruzar aquela linha de chegada, o que essa conquista representou para você de diferente de todas as outras que já havia vivido na corrida?
Representou muito mais do que completar 250 quilômetros. Foi olhar para a mulher que quase perdeu a vida em 2021 e perceber a dimensão do caminho percorrido. Aquela chegada reuniu anos de treinamento, renúncias, apoio, fé e superação. Foi a confirmação de que minha história não precisava terminar na experiência mais difícil que vivi. Eu podia escrever novos capítulos. A medalha do Saara tem um significado que vai além do esporte. Ela me lembrava que recomeçar é possível, mesmo quando a vida nos leva a lugares que jamais imaginamos conhecer. E que não existe idade certa para descobrir uma nova versão de nós mesmas.
Como mulher, qual é a maior dificuldade de enfrentar provas que duram vários dias? O que você precisou aprender sobre seu corpo, preparação, segurança e logística para estar nesses ambientes?
Em provas de vários dias, não basta ter resistência física. É preciso administrar energia, alimentação, hidratação, sono, equipamentos e recuperação. Cada decisão pode influenciar os dias seguintes. Como mulher, também considero importante compreender as necessidades do próprio corpo e planejar a logística com atenção, inclusive os cuidados pessoais e a segurança em ambientes extremos. Aprendi que a preparação começa muito antes da largada. Treinar com mochila, fortalecer a musculatura, desenvolver resistência em subidas e adaptar-se às condições da prova são partes fundamentais. Também aprendi, especialmente depois das experiências nos desertos, que a hidratação precisa começar antes de a sede aparecer e que não podemos negligenciar os sinais do organismo. Não existe coragem que substitua preparação. Enfrentar o extremo exige respeito, conhecimento e responsabilidade.
A presença feminina cresceu muito nas provas de corrida nos últimos anos. O que você acredita que fez tantas mulheres encontrarem na corrida um espaço para elas?
Acredito que a corrida oferece algo muito poderoso: a possibilidade de uma mulher descobrir sua própria força sem precisar se comparar o tempo todo com ninguém. Cada uma tem sua história, seus motivos e seu ponto de partida. Algumas começam para cuidar da saúde, outras para enfrentar uma fase difícil, encontrar amizades ou conquistar algo que parecia impossível. A corrida nos ensina que podemos ocupar espaços, superar barreiras e estabelecer nossos próprios objetivos. E isso vai muito além do esporte. Quando uma mulher percebe que consegue avançar um quilômetro de cada vez, muitas vezes começa a acreditar que também pode transformar outras áreas da vida.
No Mountain Do Deserto do Atacama, em setembro, você falou sobre o privilégio de atravessar o deserto. O que mudou na sua relação com esses desafios para que a experiência deixasse de ser apenas sobre vencer e passasse também por respeitar o lugar que você atravessa?
O Atacama me ensinou que o deserto não é apenas um cenário para uma conquista esportiva. É um ambiente que exige humildade. A altitude, o ar rarefeito, o terreno e as condições climáticas nos lembram o tempo todo de que não controlamos tudo. Foi uma prova muito difícil para mim. Enfrentei falta de ar, perda de força e momentos em que precisei lutar mentalmente para continuar. Meu corpo mostrou que nem sempre podemos fazer tudo da maneira como planejamos. Ali, compreendi ainda mais o significado de atravessar um lugar como aquele. Não é chegar para dominar o ambiente, mas para aprender com ele. Concluir a prova foi uma conquista, mas respeitar o deserto, reconhecer meus limites e agradecer a oportunidade também fizeram parte da experiência. Hoje, quero viver esses lugares com o olhar de quem sabe que está diante de algo muito maior do que uma medalha.
Em uma prova em condições extremas, muitas vezes o mental exige até mais do que o físico. Como você treina a mente para enfrentar esses desafios?
O treinamento mental acontece também nos dias comuns, quando precisamos cumprir o que planejamos mesmo sem tanta vontade. Ele se constrói na disciplina, na constância e na capacidade de atravessar desconfortos sem perder a consciência do que estamos fazendo. Durante os treinos, procuro aprender a lidar com o cansaço, a controlar a ansiedade e a dividir grandes objetivos em etapas menores. Nas provas, concentro-me no que posso fazer naquele momento, em vez de alimentar o medo da distância que ainda falta. Minha fé também tem um papel fundamental. Converso com Deus, faço minhas orações e busco serenidade para enfrentar cada etapa. Mas aprendi que força mental não é ignorar a dor ou os sinais de perigo. É saber distinguir o desconforto esperado de uma situação que exige parar e buscar ajuda.
Por trás de cada prova extrema também existe uma família que acompanha e torce. Como seu marido e suas duas filhas vivem esses desafios com você?
Minhas filhas fazem parte da minha história e são uma das razões pelas quais a vida tem tanto significado para mim. Quero que elas vejam, por meio das minhas escolhas, que nunca é tarde para descobrir novos caminhos e que podemos enfrentar desafios sem deixar de ser quem somos. Uma prova extrema exige tempo de preparação, viagens, renúncias e organização. Por isso, ela também repercute na vida de quem está ao nosso redor. É uma experiência que não se resume aos dias da competição. Minha trajetória familiar também tem seus próprios desafios e transformações. O que considero essencial é o amor pelas minhas filhas e o desejo de que elas compreendam que uma mulher pode ter sonhos, buscar independência, cuidar de si e construir sua própria história.
Sua trajetória inspira outras mulheres. O que você gostaria que elas enxergassem na sua história além das provas, medalhas e grandes conquistas?
Gostaria que enxergassem a mulher real por trás das medalhas. Uma mulher que teve medo, enfrentou dificuldades, precisou recomeçar e teve dias em que duvidou de si mesma. Não quero que olhem para a minha história e pensem que precisam correr 250 quilômetros no deserto para provar alguma coisa. Quero que entendam que cada pessoa tem sua própria linha de chegada. A minha história começou muito antes do Saara. Começou quando decidi correr, ganhou outro significado depois da Covid e continuou sendo construída a cada escolha de não desistir de viver plenamente. Se minha trajetória puder ajudar uma mulher a voltar a acreditar em si, cuidar da própria saúde ou dar o primeiro passo em direção a um sonho antigo, já terá valido muito a pena.
Cada pessoa tem sua própria linha de chegada.
Antes dos desertos, você já buscava desafios em ambientes extremos nas provas do Mountain Do, passando pelo Mont Blanc, pela neve no Ushuaia e pela Selva Amazônica, encarando 21 quilômetros no sábado e 42 no domingo. Quanto o trail run ajudou a construir a Josy que hoje enfrenta desafios ainda maiores?
O trail run foi uma escola fundamental. Ele me ensinou a lidar com terrenos irregulares, altimetria, mudanças climáticas e condições que exigem muito mais do que velocidade. Aprendi a adaptar meu ritmo, administrar energia e tomar decisões de acordo com o ambiente. Enfrentar provas em montanhas, neve e selva me ajudou a desenvolver resistência física e mental. Cada experiência trouxe um aprendizado diferente e me preparou para desafios que exigiam autonomia e planejamento. O trail também me ensinou que não controlamos o percurso. Precisamos estar preparadas para o inesperado e entender que, muitas vezes, a melhor estratégia não é acelerar, mas saber administrar as forças para chegar bem ao final. As experiências anteriores construíram a base para os desertos. Nada aconteceu de uma hora para outra. Existe uma trajetória de treinamento, aprendizado e evolução por trás de cada conquista.
Como você escolhe os desafios que decide enfrentar e qual é o próximo?
Escolho desafios que tenham significado para mim, que me tirem da zona de conforto e que me permitam continuar evoluindo. Não quero participar de uma prova apenas porque ela é difícil ou porque existe uma medalha esperando na chegada. Quero que a experiência tenha um propósito. Também considero a preparação necessária, as condições de segurança, a logística e o momento de vida. Aprendi que coragem não é aceitar qualquer desafio, mas escolher conscientemente aquele para o qual estamos dispostas a nos preparar. Depois de viver o Saara, a Namíbia e o Atacama, continuo com vontade de explorar novos ambientes e conhecer outras culturas. A Jordânia está entre os lugares que despertam meu interesse, e a ideia de novos desafios em condições extremas continua me motivando. Quero seguir construindo minha história, sem pressa de provar nada a ninguém, mas com muita vontade de descobrir até onde posso chegar.
A fé aparece repetidamente quando você conta sua história. Nos momentos mais difíceis, quando está sozinha no meio de uma prova, como essa conexão com Deus se manifesta para você?
Minha fé é uma parte essencial da minha vida. Depois de tudo o que vivi em 2021, passei a enxergar a vida como um presente que precisa ser valorizado todos os dias. Nos momentos difíceis das provas, quando estou sozinha e o cansaço aperta, faço minhas orações, converso com Deus e peço serenidade para tomar as decisões certas. Às vezes, não peço nem mesmo força para vencer. Peço sabedoria para compreender o que estou vivendo e coragem para dar o próximo passo. Acredito que Deus não nos promete uma vida sem dificuldades, mas a fé me ajuda a atravessá-las com esperança. Quando olho para minha trajetória, vejo muito mais do que conquistas esportivas. Vejo recomeços, oportunidades e pessoas que fizeram parte do caminho. Se hoje posso correr, viajar, representar minha cidade e viver experiências que um dia pareciam tão distantes, minha primeira palavra é gratidão. Eu corro porque amo os desafios, mas também porque a corrida me lembra todos os dias o privilégio que é estar viva. A medalha fica na parede. O que a jornada transforma dentro de nós, isso levamos para a vida inteira.