Correr sem Lesão

Joelho de corredora: por que dói mais nelas?

Anatomia, controle muscular, hormônios e carga de treino: o que explica a dor patelofemoral mais frequente entre as mulheres, e como prevenir sem tratar a corredora como frágil.

Por: Alexandre Rosa Edição 66 - outubro 2026
Joelho de corredora: por que dói mais nelas?

Anatomia, controle muscular, hormônios e carga de treino: o que explica a dor patelofemoral mais frequente entre as mulheres, e como prevenir sem tratar a corredora como frágil.

A dor no joelho está entre as queixas mais comuns de quem corre, e algumas condições, especialmente a dor patelofemoral, parecem apresentar maior frequência entre mulheres. Mas por que isso acontece?

A resposta não está em um único fator. Existe uma combinação de características anatômicas, biomecânicas, musculares, hormonais e também relacionadas ao treinamento. Entender essas diferenças não significa considerar a mulher mais frágil ou menos preparada para correr, mas reconhecer que o corpo pode responder às cargas de maneira diferente e que o treinamento precisa levar essas características em consideração.

Diferenças anatômicas e alinhamento dos membros inferiores

Uma das características mais estudadas é a diferença na anatomia da pelve e na relação entre quadril, fêmur e joelho. Em média, as mulheres apresentam uma pelve proporcionalmente mais larga, característica relacionada principalmente à anatomia feminina. Essa configuração pode influenciar a orientação do fêmur e a forma como o membro inferior se movimenta durante atividades como correr, saltar e aterrissar.

Durante a corrida, o membro inferior precisa controlar movimentos de adução e rotação do quadril enquanto o pé entra em contato com o solo. Em algumas mulheres, determinadas combinações entre anatomia, força e controle neuromuscular podem favorecer uma maior aproximação do joelho em direção à linha média do corpo. Esse movimento é frequentemente chamado de valgo dinâmico (o joelho que “cai para dentro” durante o apoio).

Quando esse padrão é excessivo e, principalmente, quando está associado a baixa capacidade de controle ou aumento da carga de treinamento, pode modificar a distribuição das forças na articulação patelofemoral, localizada entre a patela e o fêmur. Isso pode aumentar a demanda sobre determinados tecidos e contribuir para o surgimento ou manutenção da dor.

É importante, porém, não transformar o valgo em um “vilão”. Nem todo joelho que se aproxima da linha média apresenta problema, e nem toda corredora com determinado alinhamento terá dor. A biomecânica precisa ser interpretada dentro do contexto. O que importa é entender se aquele movimento está associado aos sintomas e se o corpo possui capacidade suficiente para suportar a carga imposta pela corrida.

Controle muscular do quadril e do joelho

Outro fator importante é o controle neuromuscular. Os músculos glúteo médio e glúteo máximo participam ativamente da estabilização da pelve e do controle dos movimentos do fêmur durante a fase de apoio.

Quando a capacidade desses músculos de produzir força e controlar o movimento é insuficiente para a demanda do exercício, pode ocorrer maior adução e rotação interna do quadril. Em determinadas situações, isso pode aumentar o movimento do joelho em direção à linha média e modificar a mecânica da articulação patelofemoral.

O quadríceps também possui papel fundamental. Ele controla a flexão do joelho durante o contato com o solo e ajuda a absorver e distribuir parte das cargas mecânicas. Se a musculatura não possui força ou resistência suficiente, especialmente diante de grandes volumes de treinamento, a capacidade de tolerar repetidamente essas cargas pode ser reduzida.

Mas é importante destacar: dor no joelho não significa simplesmente falta de força. A dor é resultado da interação entre carga, capacidade física, recuperação, histórico de lesões, sono, treinamento e diversos fatores individuais. Fortalecer não significa apenas “corrigir” um movimento, mas aumentar a capacidade do corpo de suportar aquilo que é exigido dele.

Fortalecer não é apenas corrigir um movimento. É aumentar a capacidade do corpo de suportar aquilo que é exigido dele.

Mobilidade articular e influência hormonal

Mulheres também podem apresentar, em média, maior mobilidade articular e frouxidão ligamentar. Essas características variam bastante de pessoa para pessoa e não representam, isoladamente, um problema.

As oscilações hormonais ao longo do ciclo menstrual também são estudadas por sua possível influência sobre propriedades dos tecidos, controle neuromuscular, percepção de esforço e estabilidade articular. Entretanto, ainda não é possível afirmar que uma determinada fase do ciclo menstrual seja, por si só, responsável por aumentar o risco de lesão no joelho.

Por isso, não faz sentido estabelecer uma regra geral dizendo que toda mulher deve reduzir ou interromper a corrida em determinada fase do ciclo. O mais importante é observar a resposta individual.

Força, mecânica da corrida e distribuição das cargas

Diferenças médias de massa muscular, força absoluta e composição corporal também podem influenciar a maneira como homens e mulheres absorvem e distribuem as cargas durante a corrida. Isso, entretanto, não significa que mulheres sejam menos capazes de correr.

A cadência, o comprimento da passada, a velocidade, o tempo de contato com o solo e a capacidade de controlar o movimento interferem diretamente nas demandas impostas ao joelho. Uma passada excessivamente longa, por exemplo, pode aumentar a necessidade de frenagem e, em determinadas situações, elevar a demanda sobre a articulação patelofemoral.

A fadiga também merece atenção. À medida que o corredor se cansa, a coordenação e o controle dos movimentos podem se modificar. Se a corredora aumenta muito o volume, a velocidade ou a frequência dos treinos sem desenvolver capacidade muscular e sem permitir recuperação adequada, a carga acumulada pode ultrapassar a capacidade de adaptação dos tecidos.

Como minimizar ou prevenir a dor no joelho?

A prevenção começa por princípios que são importantes para homens e mulheres: desenvolver força, controlar a progressão das cargas, respeitar a recuperação e adaptar o treinamento à capacidade atual do corredor.

O fortalecimento deve envolver quadríceps, glúteos, posteriores da coxa e panturrilhas, sempre de maneira progressiva e relacionada às demandas da corrida. Não basta ser forte; é necessário ter força e resistência suficientes para o volume e a intensidade que estão sendo realizados.

A progressão da carga também é fundamental. Aumentos rápidos de quilometragem, velocidade, treinos de subida ou número de sessões podem fazer com que a demanda ultrapasse a capacidade de adaptação do organismo. Muitas vezes, o problema não é correr muito, mas aumentar a carga mais rapidamente do que o corpo consegue acompanhar.

A recuperação também faz parte do treinamento. Sono inadequado, excesso de sessões intensas e pouca recuperação podem favorecer dor, fadiga e queda de desempenho.

Para as mulheres, alguns cuidados adicionais merecem atenção. É importante avaliar individualmente força, mobilidade, controle do quadril e mecânica da corrida. Uma corredora que apresenta valgo dinâmico associado a sintomas pode se beneficiar de exercícios específicos de força e controle neuromuscular.

Também é interessante observar a relação entre ciclo menstrual e resposta ao treinamento. Algumas mulheres percebem mudanças na disposição, recuperação, percepção de esforço ou sintomas ao longo do mês. Registrar essas respostas pode ajudar na individualização do treinamento, sem transformar o ciclo menstrual em uma limitação.

Outro ponto fundamental é a disponibilidade energética. Mulheres submetidas a grandes volumes de treinamento e que não consomem energia suficiente podem apresentar prejuízos na recuperação e na saúde, especialmente quando isso vem acompanhado de perda excessiva de peso, alterações menstruais ou queda inexplicada de desempenho.

E aqui chegamos a uma questão frequentemente ignorada: homens e mulheres simplesmente receberem a mesma planilha, trocando apenas o nome do atleta, pode ser uma estratégia inadequada e, em determinadas situações, perigosa.

Isso não significa que homens e mulheres precisem treinar de maneiras completamente diferentes. Ambos precisam desenvolver força, resistência, velocidade e capacidade de suportar cargas. Porém, diferenças anatômicas, musculares, hormonais, de composição corporal, histórico de lesões e resposta ao treinamento podem modificar a maneira como cada indivíduo tolera determinada carga.

Imagine dois corredores com a mesma idade, o mesmo objetivo e o mesmo pace. Uma planilha idêntica pode parecer perfeitamente lógica. Entretanto, um pode apresentar maior capacidade muscular, enquanto o outro pode ter menor tolerância a determinados estímulos, histórico de dor patelofemoral ou necessidades específicas de recuperação.

O relógio pode mostrar o mesmo pace, mas o corpo não necessariamente está recebendo a mesma carga.

O relógio pode mostrar o mesmo pace, mas o corpo não necessariamente está recebendo a mesma carga.

Por isso, individualizar o treinamento não é privilégio de atletas profissionais. É uma estratégia de segurança, desempenho e prevenção.

A melhor planilha não é aquela feita para homens ou para mulheres. É aquela feita para aquele corredor.

Alexandre Rosa

Alexandre Rosa

Fisioterapeuta (Time Runners)

Fisioterapeuta, Professor e Ultramaratonista 44x maratonas + 50k (45/50) Fisioterapia Esportiva e Ortopédica