Todo mês, o time Runners Brasil responde às dúvidas que chegam pelos nossos canais. Estas são as de outubro.
Nesta edição, as perguntas giraram em torno do tema do mês: a mulher que corre. Ciclo, joelho, TPM, gestação, menopausa e o medo de correr sozinha. Oito especialistas do time responderam.
Parei de menstruar depois que comecei a treinar para a maratona. Isso é normal para quem corre muito?
Responde: Dra. Ana Paula Simões, Ortopedista e médica do esporte
Não. A amenorreia em corredoras quase sempre indica que a energia ingerida não está cobrindo o gasto do treino, e o mesmo mecanismo que desliga o ciclo reduz a formação óssea. Procure um médico do esporte e um ginecologista antes de aumentar o volume. Ajustar a alimentação costuma ser parte central do tratamento.
Hormônios femininos mudam mesmo o rendimento ao longo do mês?
Responde: Dr. Gustavo Cosenza, Endocrinologista
Sim, o ciclo menstrual pode influenciar o rendimento esportivo. Mas o tamanho desse efeito varia muito entre as mulheres e, até hoje, não conseguimos estabelecer uma queda ou melhora percentual que se aplique a todas e a todos os esportes.
Uma grande metanálise publicada em 2020 encontrou diferenças médias muito pequenas no desempenho físico entre as fases do ciclo. Isso não significa que o ciclo seja irrelevante para todas as atletas. Oscilações hormonais podem modificar a temperatura corporal, o sono e outras respostas fisiológicas, e sintomas como cólicas, fadiga, alterações de humor e desconforto abdominal podem interferir diretamente na qualidade dos treinos. Isso é muito variável de mulher para mulher.
Não é por acaso que equipes profissionais de futebol feminino passaram a monitorar o ciclo menstrual das jogadoras. Um consenso da UEFA, publicado em 2025, reconhece a importância desse acompanhamento para individualizar treinos e decisões. Mas nem todas as mulheres vão apresentar alterações significativas ao longo do ciclo. Por isso, uma “receita de bolo” com treino específico para cada fase não deve ser seguida, e sim uma individualização de acordo com cada mulher e seu comportamento durante o ciclo.
Minha recomendação é simples: acompanhe seu ciclo e registre, durante pelo menos três meses, como você se sente e responde aos treinos. Dispositivos como o Oura facilitam esse monitoramento. Se perceber que determinados períodos estão consistentemente associados a maior fadiga, pior recuperação ou sintomas importantes, converse com seu treinador e seu médico sobre possíveis ajustes. Mas, se você se sente bem e mantém o desempenho, não há motivo para reduzir a intensidade só porque está menstruada.
O quadril feminino muda a biomecânica da corrida?
Responde: Felippe Ribeiro, Biomecânica da corrida
Sim, o quadril feminino influencia a biomecânica da corrida, mas isso não significa que mulheres precisem correr de uma maneira completamente diferente.
Em média, mulheres apresentam um pouco mais de movimento do quadril para dentro (adução) e de rotação interna, além de maior movimento da pelve. Isso está relacionado tanto à anatomia quanto à forma como o corpo controla o movimento. A diferença é pequena a moderada e aparece principalmente no quadril e na pelve. Cadência, comprimento da passada e tempo de contato podem ser bastante semelhantes entre homens e mulheres quando correm na mesma velocidade.
O sexo, isoladamente, não é motivo para mudar a técnica de corrida. O treinamento deve considerar a individualidade da corredora, força, histórico de lesões, sintomas e demanda do esporte. A biomecânica feminina tem características próprias, mas não existe uma “técnica feminina de corrida”.
Tenho medo de correr sozinha. O que acontece no cérebro, e como treinar a confiança?
Responde: Carlos Campelo, Psicólogo · CRP 18/9852 · Neurociência do comportamento
Correr sozinha pode manter o cérebro em estado de hipervigilância. Não é fraqueza, é proteção! A amígdala cerebral participa da identificação de ameaças, mantendo a atenção voltada ao ambiente e aumentando o cansaço mental. Para desenvolver confiança, três estratégias ajudam: escolher trajetos conhecidos e seguros, começar acompanhada e ampliar gradualmente a autonomia. Pela Terapia Cognitivo-Comportamental, o objetivo não é eliminar o medo, mas aprender a lidar com ele, reconhecendo os riscos reais sem permitir que o medo controle todas as escolhas.
Trail é seguro para mulheres treinarem sozinhas? O que considerar?
Responde: Ramiro Kramer, Treinador de trail running
Treinar sozinha na trilha é possível, mas precisamos reconhecer uma preocupação importante, especialmente no Brasil: o risco de assédio e violência. Além dos desafios naturais da modalidade, muitas mulheres precisam avaliar também a própria segurança diante de outras pessoas.
Como treinador, não recomendaria treinos solitários em locais muito isolados, desconhecidos ou com histórico de ocorrências de violência. Também evitaria horários de pouca circulação, principalmente quando não há possibilidade de pedir ajuda. Antes de sair, considero essencial conhecer o percurso, informar alguém sobre o trajeto e o horário previsto de retorno, levar o celular carregado e verificar a cobertura de sinal. Alguns relógios esportivos também permitem compartilhar a localização em tempo real com contatos de confiança, desde que estejam configurados e conectados. É um recurso interessante, mas não substitui outras medidas de segurança.
Minha orientação é priorizar trilhas conhecidas, com circulação de pessoas e, sempre que possível, contar com companhia. Se houver relatos recentes de violência, sensação de insegurança ou dificuldade de comunicação, eu não recomendaria ir sozinha. A liberdade de correr na natureza deve ser de todos, mas a decisão de treinar sozinha precisa considerar a realidade do ambiente, não apenas a capacidade física da atleta.
O que os estudos dizem sobre corrida e TPM?
Responde: Eduardo Barbosa, Pesquisador · Corrida e Ciência
Quando cruzamos a ciência da corrida com a tensão pré-menstrual (TPM), o maior erro é cair no extremismo: ou o exercício é vendido como cura milagrosa para qualquer desconforto hormonal, ou é sumariamente ignorado.
Uma revisão sistemática com metanálise conduzida por Pearce e colaboradores analisou 15 ensaios clínicos randomizados, com um total de 717 mulheres. A ciência mostra de maneira consistente que o exercício reduz de forma estatisticamente significativa os escores globais da TPM, aliviando sintomas físicos, como dor e fadiga, e psicológicos, como ansiedade e irritabilidade, um efeito amparado pela liberação de endorfinas e pela modulação hormonal. Em contrapartida, o rigor metodológico ainda é frágil: cerca de 87% dos estudos apresentam alto risco de viés, amostras pequenas e falta de acompanhamento a longo prazo.
Na prática, a corrida é uma aliada formidável e acessível para amenizar os impactos da TPM, mas não é uma solução universal. O recado é claro: use o treino a seu favor, ajuste o ritmo nos dias de maior fadiga e desconfie de discursos que prometem mais do que o dado científico real pode sustentar.
Gravidez, hormônios e gengiva: o que a corredora deve saber?
Responde: Dra. Ana Chapper, Saúde Bucal na Corrida · a convite do Dr. Victor Wolwacz
A doença gengival e a gestação têm uma relação de mão dupla. Na gestação, mudanças hormonais aumentam a resposta inflamatória da gengiva à placa, favorecendo sangramento, vermelhidão, inchaço e sensibilidade. A gengivite gravídica é frequente, e algumas gestantes apresentam um crescimento benigno chamado tumor gravídico, que geralmente regride após o parto. Quando há periodontite, estudos apontam associação com parto prematuro, baixo peso ao nascer e pré-eclâmpsia, sobretudo em casos moderados ou graves, embora o tratamento durante a gravidez nem sempre reduza esses riscos. Recomenda-se avaliação odontológica, higiene bucal rigorosa e acompanhamento profissional.
Entrei na menopausa e comecei a sentir dor no quadril e no calcanhar. Devo parar de correr?
Responde: Dra. Ana Paula Simões, Ortopedista e médica do esporte
Na maioria dos casos, não. Dor lateral no quadril e no calcanhar são queixas comuns nessa fase e respondem bem a ajuste de carga, fortalecimento e tratamento direcionado. O que não dá é seguir treinando no mesmo volume, sem força e sem avaliação. Uma densitometria também entra na conversa.