Dezembro costuma nos colocar diante de duas forças opostas: a vontade de encerrar o ano com sensação de completude e a necessidade de lidar com o cansaço acumulado dos últimos meses. Quando esse movimento encontra o universo da corrida, especialmente às vésperas da São Silvestre, surge um cenário típico de fim de ciclo: avaliações rápidas, comparações apressadas e a sensação de que “precisamos fazer caber” o que ainda não foi feito.
O problema é que esse processo raramente é neutro. Avaliar o ano pode ser produtivo quando envolve análise funcional, ou seja, o que funcionou, o que não funcionou, que estratégias facilitaram o treino, que fatores o interromperam. Mas, com frequência, a revisão de dezembro se transforma em autocrítica. O corredor olha para o que não correu, para o treino que faltou, para o ritmo que não veio, e não para os padrões que explicam o comportamento. A autocobrança, nesse contexto, substitui a reflexão por julgamento.
Esse padrão se intensifica porque o fim do ano ativa uma lógica de urgência. É um período de maior pressão social, com inúmeros marcos simbólicos que reforçam a ideia de que “é agora ou nunca”, como metas pendentes, encerramento do ciclo e, no caso de quem corre, a expectativa por uma prova tradicional como a São Silvestre. Essa combinação produz um tipo específico de distorção: a pressa. Na tentativa de recuperar em poucas semanas aquilo que não aconteceu ao longo do ano todo, muitos corredores aumentam a carga, aceleram o ritmo ou fazem treinos que não correspondem ao que o corpo sustenta. A comparação com outros corredores, ou com a própria versão idealizada de si, alimenta esse ciclo.
Quando a corrida entra na lógica do desempenho a qualquer custo, ela perde parte de sua função reguladora. A prática deixa de ser um espaço de elaboração emocional e passa a reproduzir exatamente as dinâmicas que, fora das pistas, já geram desgaste, como a exigência alta, a flexibilidade baixa e pouca tolerância ao erro. É o tipo de funcionamento que sustenta padrões de estresse e que, no campo psicológico, se relaciona com rigidez cognitiva e comportamental.
A preparação para a São Silvestre, especialmente em sua centésima edição, convida a outra perspectiva. A prova simboliza fechamento, mas também continuidade. Há valor em revisar o ano, desde que a revisão seja orientada por padrões observáveis e não por ideais. Em vez de avaliar apenas resultados, é possível revisar PROCESSOS. Por exemplo, quais escolhas favoreceram a consistência, quais obstáculos se repetiram, quais estratégias ajudaram a flexibilizar o treino quando a vida exigiu. Esse tipo de análise, que é menos moral e mais funcional, permite entrar no novo ano com planejamento realista, não com promessas de ação que ignoram limitações concretas.
Planejar 2026 implica reconhecer que o desempenho não é uma linha ascendente. Ele se organiza em ciclos, interrupções e retomadas. A corrida reforça essa lógica o tempo todo, quando nos deparamos com semanas melhores, picos de performance, períodos de fadiga e os ajustes necessários. Quando usamos essa mesma lógica para olhar para a vida, o planejamento deixa de ser uma cobrança e passa a ser uma ferramenta de autoconsciência.
No fim, encerrar o ano correndo, seja na São Silvestre ou em treinos avulsos, não precisa ser um gesto de compensação, mas de continuidade. A pergunta não é “como terminar forte?”, mas “como seguir de forma sustentável?”. É nessa pergunta que a corrida e a psicologia se encontram, na ideia de que revisar sem punir e planejar sem idealizar é o que permite manter o movimento ao longo do tempo.

