Mente em Movimento

O último quilômetro do ano: reflexões sobre fechamento de ciclos

Avaliar processos, não punir resultados

Por: Carô Queiroz Edição 56 - dezembro 2025
O último quilômetro do ano: reflexões sobre fechamento de ciclos

Dezembro costuma nos colocar diante de duas forças opostas: a vontade de encerrar o ano com sensação de completude e a necessidade de lidar com o cansaço acumulado dos últimos meses. Quando esse movimento encontra o universo da corrida, especialmente às vésperas da São Silvestre, surge um cenário típico de fim de ciclo: avaliações rápidas, comparações apressadas e a sensação de que “precisamos fazer caber” o que ainda não foi feito.

O problema é que esse processo raramente é neutro. Avaliar o ano pode ser produtivo quando envolve análise funcional, ou seja, o que funcionou, o que não funcionou, que estratégias facilitaram o treino, que fatores o interromperam. Mas, com frequência, a revisão de dezembro se transforma em autocrítica. O corredor olha para o que não correu, para o treino que faltou, para o ritmo que não veio, e não para os padrões que explicam o comportamento. A autocobrança, nesse contexto, substitui a reflexão por julgamento.

Esse padrão se intensifica porque o fim do ano ativa uma lógica de urgência. É um período de maior pressão social, com inúmeros marcos simbólicos que reforçam a ideia de que “é agora ou nunca”, como metas pendentes, encerramento do ciclo e, no caso de quem corre, a expectativa por uma prova tradicional como a São Silvestre. Essa combinação produz um tipo específico de distorção: a pressa. Na tentativa de recuperar em poucas semanas aquilo que não aconteceu ao longo do ano todo, muitos corredores aumentam a carga, aceleram o ritmo ou fazem treinos que não correspondem ao que o corpo sustenta. A comparação com outros corredores, ou com a própria versão idealizada de si, alimenta esse ciclo.

Quando a corrida entra na lógica do desempenho a qualquer custo, ela perde parte de sua função reguladora. A prática deixa de ser um espaço de elaboração emocional e passa a reproduzir exatamente as dinâmicas que, fora das pistas, já geram desgaste, como a exigência alta, a flexibilidade baixa e pouca tolerância ao erro. É o tipo de funcionamento que sustenta padrões de estresse e que, no campo psicológico, se relaciona com rigidez cognitiva e comportamental.

A preparação para a São Silvestre, especialmente em sua centésima edição, convida a outra perspectiva. A prova simboliza fechamento, mas também continuidade. Há valor em revisar o ano, desde que a revisão seja orientada por padrões observáveis e não por ideais. Em vez de avaliar apenas resultados, é possível revisar PROCESSOS. Por exemplo, quais escolhas favoreceram a consistência, quais obstáculos se repetiram, quais estratégias ajudaram a flexibilizar o treino quando a vida exigiu. Esse tipo de análise, que é menos moral e mais funcional, permite entrar no novo ano com planejamento realista, não com promessas de ação que ignoram limitações concretas.

Planejar 2026 implica reconhecer que o desempenho não é uma linha ascendente. Ele se organiza em ciclos, interrupções e retomadas. A corrida reforça essa lógica o tempo todo, quando nos deparamos com semanas melhores, picos de performance, períodos de fadiga e os ajustes necessários. Quando usamos essa mesma lógica para olhar para a vida, o planejamento deixa de ser uma cobrança e passa a ser uma ferramenta de autoconsciência.

No fim, encerrar o ano correndo, seja na São Silvestre ou em treinos avulsos, não precisa ser um gesto de compensação, mas de continuidade. A pergunta não é “como terminar forte?”, mas “como seguir de forma sustentável?”. É nessa pergunta que a corrida e a psicologia se encontram, na ideia de que revisar sem punir e planejar sem idealizar é o que permite manter o movimento ao longo do tempo.

Galeria de Imagens

Athlete running on the road with other runners during marathon marathon-runners-pushing-through-final-stretch-sunset
Carô Queiroz

Carô Queiroz

Psicóloga (Time Runners)

Carô Queiroz é gaúcha, corredora amadora desde 2019 e meia maratonista. É Psicóloga pela Universidade Federal do Rio Grande (FURG), com expertise nas áreas de orientação de carreira e atendimento clínico. Ajuda profissionais a construírem trajetórias de carreira mais estratégicas e com sentido, além de líderes a trabalharem carreira e performance em suas equipes. Produz conteúdos sobre o assunto nas redes sociais, com o objetivo de desenvolver maior protagonismo de carreira no público que a acompanha e educar sobre como alcançamos maior saúde na nossa relação com o trabalho. É membro da Associação Brasileira de Orientação Profissional e de Carreira (ABRAOPC) e acredita que pensar a carreira é uma questão de saúde mental.