Nasci no Brasil, mas foi nas ruas de Nova York que me tornei maratonista. E foi lá também que decidi que chegou a hora de fechar a diferença de uma vez por todas. Dois minutos. É tudo que me separa do meu maior sonho no esporte: cruzar a linha de chegada da Maratona de Boston com tempo de classificação. Depois de três maratonas chegando perto desse sonho, eu estava mais determinada do que nunca.
O meu plano de treino era agressivo. A missão naquela manhã: 30 km, dos quais 6 km em ritmo comfortável e o resto bem acima do ritmo de maratona. O aplicativo aprovou tudo com entusiasmo. Eu também. “Bora!”
Era um dia perfeito para correr: temperatura cerca de 10 graus e uma chuvinha fina, o tipo de tempo que esvazia as ruas e faz todo mundo ficar debaixo das cobertas. O Runna, meu aplicativo de treino com inteligência artificial (IA), me garantia que eu estava arrasando neste ciclo. E eu acreditei. Por que duvidaria? Os dados eram bons, minha consistência estava impecável e eu me sentia voar em cada treino intervalado. Dois minutos de Boston. O aplicativo dizia que eu dava conta. Eu disse que topava.
No km16, cruzando uma das pontes de Nova York num ritmo de 4:58min/km, uma dor aguda explodiu na minha canela direita. Rápida, intensa, impossível de ignorar. Nunca tinha sentido nada parecido ali.
Registrei mentalmente e continuei. Porque o plano mandava continuar.
Porque o aplicativo dizia que eu estava indo bem.
No km 21, a dor tinha deixado de ser um aviso para se tornar um veredito. Interrompi o treino, depois de seguir um ritmo de 5min/km, mas com aquela certeza crescente de que algo estava muito errado. Dois dias depois, estava engessada. Canelite, com suspeita inicial de fratura por estresse. Semanas de treino perdidas e a Maratona de Londres quase sendo perdida junto.
Minha médica não ficou surpresa. Ela vê isso com frequência cada vez maior: corredores ultrapassando os próprios limites porque depositaram numa IA a mesma confiança que dariam a um treinador humano, esquecendo que um te conhece de verdade e o outro só conhece seus números.
Amargurada, engessada, afastada dos longos que tanto amo, fui reconstruindo mentalmente as semanas anteriores à lesão. O quadro era claro e doloroso: eu tinha me destruído aos poucos, e nenhuma linha do meu plano de treino havia piscado um sinal de alerta sequer.
Um Problema Crescente
Quando comecei a conversar com outros corredores sobre o que havia acontecido comigo, percebi que não estava sozinha. Muitos tinham trilhado o mesmo caminho — entregado o treino a um app, confiado cegamente nos números e descoberto tarde demais que o algoritmo não conhecia seus limites. O mercado reflete esse comportamento: o coaching fitness com IA deve dominar o fitness digital até 2027, com milhões de corredores depositando sua confiança — e sua saúde — nas mãos de uma tecnologia que ainda está aprendendo o que significa treinar um ser humano de verdade.
A proposta sempre foi sedutora: treino personalizado, sem o custo de um treinador pessoal. O mercado adotou a ideia de braços abertos.
Hoje vale mais de 700 milhões de reais globalmente e deve quase triplicar até 2030. Mas enquanto os downloads explodem, as salas de espera dos ortopedistas também enchem.
Esse paradoxo tem nome. Pesquisadores chamam de “perda percebida de responsabilidade”. Aquela sensação amarga de que, ao terceirizar o treino para um algoritmo, ninguém assume a culpa quando tudo desmorona. A culpa não é do aplicativo. Nem de um treinador. Só há você, em casa, com a perna engessada, repassando mentalmente cada treino e tentando entender como ignorou todos os sinais.
Um estudo de 2025 publicado no Journal of Digital Health Research confirma o problema e aponta para a solução: um quarto dos 1.200 participantes já usava planos de treino gerados por IA, mas quando o app começou a ajustar ativamente esses planos com base nos dados deles, sugerindo mais intensidade, ou mudança no meio do ciclo, a confiança despencou. O motivo? Esses corredores não estavam dispostos a ceder o controle da própria saúde a um algoritmo. No fundo, sabiam o que eu demorei para aprender: dados não sentem dor.
Uma Relação Mais Inteligente com a IA
Vou abandonar a IA no meu treino? Jamais. Ainda me emociono analisando a cadência depois de um longão, comparando dados de frequência cardíaca entre corridas para chegar na largada mais preparada mentalmente, e recorrendo à IA para planejar minha recuperação: quando colocar gelo, quando usar calor, se a crioterapia vale a pena (dica: não vale quando você está resfriada). Para esses tipos de coisas, a IA é extraordinária. Está disponível às duas da manhã quando o nervosismo do tapering bate forte, nunca perde a paciência e é surpreendentemente boa nas pequenas decisões do dia a dia que não exigem julgamento humano.
Mas há um limite. E eu aprendi o meu do jeito mais doloroso possível: quanto mais importante o objetivo, mais preciso de um humano ao meu lado. A IA brilha quando os riscos são baixos e a margem de erro é generosa. Começa a falhar quando você carrega um histórico de lesões, quando o prazo para a meta aperta ou quando o objetivo é grande demais para deixar nas mãos de um algoritmo. Como o meu: me classificar para Boston antes de completar 50 anos. Esse tipo de sonho exige alguém que olhe nos seus olhos, avalie o que os dados não mostram, e quando necessário, te mande descansar — – mesmo quando você não quer nem ouvir falar nisso. Um algoritmo programado para te manter engajada vai sempre te dizer o que você quer ouvir. Um bom treinador vai te dizer o que você precisa fazer. E às vezes, essa diferença vale mais do que qualquer métrica.
Londres provou isso. Corri machucada e mal preparada, cruzando a linha de chegada em 3h59 — um tempo que, em outro contexto, eu celebraria, ainda que longe da meta que eu precisava atingir. O aplicativo nunca sugeriu que eu não estivesse pronta para atingir meu objetivo. Ao contrário, animado do início ao fim, se comportava como se tudo corresse dentro do planejado.
Nova York é o próximo capítulo. Não é o percurso mais generoso para quem busca um recorde pessoal, já que as subidas do Bronx não perdoam. Mas dessa vez entro diferente: com um treinador de carne e osso, sem algoritmo me dizendo o que quero ouvir e com uma clareza que só a lesão me deu sobre o que a IA pode, e o que ela jamais vai poder, fazer por mim.

