Medicina e a Corrida

O corpo da corredora

O mesmo asfalto, outra biomecânica: o que a ortopedia sabe sobre a mulher que corre, do primeiro ciclo à menopausa.

Por: Dra. Ana Paula Simões Edição 66 - outubro 2026
O corpo da corredora

O mesmo asfalto, outra biomecânica: o que a ortopedia sabe sobre a mulher que corre, do primeiro ciclo à menopausa.

Durante décadas, a medicina esportiva tratou a corredora como um corredor menor. Os protocolos, os estudos e até os tênis foram desenhados a partir do corpo masculino e depois “adaptados”. Hoje, com as mulheres sendo maioria entre os concluintes de provas no Brasil, essa adaptação não basta. O corpo feminino tem uma biomecânica própria, um esqueleto que responde a hormônios de forma diferente e fases da vida que mudam completamente a relação entre carga e lesão.

Isso não significa fragilidade. Significa que a prevenção precisa ser específica.

Uma arquitetura diferente

A pelve feminina é mais larga e o fêmur chega ao joelho com uma inclinação maior. Na corrida, isso se traduz em mais adução (o movimento da coxa em direção à linha do corpo) e rotação interna do quadril durante a fase de apoio, sobretudo quando o glúteo médio está fraco ou cansado. O joelho tende a cair para dentro, a patela perde o trilho ideal e a carga se concentra em estruturas que não foram feitas para recebê-la sozinhas.

Não por acaso, a dor patelofemoral, a síndrome do trato iliotibial e a tendinopatia glútea aparecem com mais frequência no consultório entre as corredoras. A boa notícia é que esse padrão é modificável. O que protege o joelho da corredora não é o tênis certo, é o quadril forte.

O que protege o joelho da corredora não é o tênis certo, é o quadril forte.

Nos pés, que são a minha área de atuação cirúrgica, as diferenças também contam. Hálux valgo (o famoso joanete), neuroma de Morton e metatarsalgia são mais prevalentes nas mulheres, em parte por fatores genéticos e ligamentares, em parte por anos de calçados estreitos e saltos fora da corrida. Quem corre 40 km por semana com um antepé comprimido no restante do dia acumula uma sobrecarga que o tênis sozinho não resolve.

O ciclo menstrual no consultório ortopédico

Estrogênio e progesterona não atuam só no útero. O tecido conjuntivo tem receptores para esses hormônios, e a rigidez de ligamentos e tendões oscila ao longo do ciclo. Estudos mostram maior frouxidão ligamentar ao redor da ovulação, e uma revisão sistemática com metanálise publicada em 2017 encontrou associação entre a fase do ciclo e o risco de lesão do ligamento cruzado anterior, além de um possível efeito protetor do anticoncepcional oral.

Na prática, a evidência ainda é heterogênea e não autoriza ninguém a parar de treinar em determinada semana do mês. O que ela autoriza é observação. Muitas atletas percebem que certos treinos rendem menos em algumas fases, que o sono piora no período pré-menstrual ou que a sensação de instabilidade aumenta. Registrar o ciclo junto com o diário de treino é uma ferramenta simples e subestimada. Periodizar pelo ciclo funciona quando é individual, não quando vira regra genérica de aplicativo.

Mais importante do que a fase do ciclo é a presença do ciclo. A ausência de menstruação em uma corredora (amenorreia) não é sinal de bom condicionamento. É um alerta.

A ausência de menstruação em uma corredora não é sinal de bom condicionamento. É um alerta.

Quando falta energia, o osso paga a conta

A deficiência relativa de energia no esporte, conhecida como REDs, acontece quando a ingestão calórica não acompanha o gasto do treino. O corpo entra em modo de economia e, entre as primeiras funções sacrificadas, estão o eixo hormonal reprodutivo e a formação óssea. O consenso do Comitê Olímpico Internacional de 2023 deixa claro que o problema atinge homens e mulheres, mas a corredora tem um marcador visível: a alteração do ciclo menstrual.

O resultado ortopédico mais comum é a fratura por estresse. Na mulher, ela aparece com mais frequência em locais de maior risco, como o colo do fêmur, o navicular, a base do quinto metatarso e o sacro. São fraturas que exigem afastamento longo e, em alguns casos, cirurgia. Somam-se a isso a deficiência de ferro, frequente em quem menstrua e treina volume, e a baixa ingestão de cálcio e vitamina D.

Uma dor óssea localizada, que piora com o impacto e aparece cada vez mais cedo no treino, nunca deve ser tratada como “dor de canela” até prova em contrário.

Gestação e pós-parto: o retorno é um processo

A gestação muda o centro de gravidade, aumenta a frouxidão ligamentar e sobrecarrega o assoalho pélvico. No pós-parto, o retorno à corrida deve ser progressivo e guiado, com avaliação do assoalho pélvico, da diástase abdominal (a separação dos músculos do abdômen) e da força de quadril antes do impacto. Pressa nessa fase costuma cobrar seu preço em lombalgia, dor pélvica e incontinência.

Perimenopausa e menopausa: a fase que ninguém explica

A queda do estrogênio na transição menopausal tem efeito sistêmico sobre o aparelho locomotor. Em 2024, um grupo de ortopedistas propôs o termo síndrome musculoesquelética da menopausa para reunir manifestações que antes eram tratadas de forma isolada: dores articulares difusas, perda acelerada de massa óssea, perda de massa e força muscular, tendinopatias, capsulite adesiva do ombro e piora da artrose.

Para a corredora acima dos 45 anos, isso aparece de formas bem conhecidas. Tendinopatia glútea que não melhora com repouso. Fascite plantar mais resistente, agravada pela atrofia do coxim gorduroso do calcanhar. Dor no tendão de Aquiles. Recuperação mais lenta entre treinos fortes. E, silenciosamente, osteopenia.

A corrida continua sendo uma grande aliada nessa fase, mas sozinha não é suficiente. O impacto da corrida estimula o osso, porém de forma repetitiva e em uma única direção. O que a ciência mostra hoje é que a mulher na menopausa precisa de três pilares:

1. Treino de força com carga real, pelo menos duas vezes por semana, priorizando membros inferiores e tronco. Carga leve com muitas repetições não basta para manter massa muscular e óssea. 2. Impacto variado, com saltos e exercícios pliométricos introduzidos de forma progressiva, para estimular o osso em direções diferentes daquelas da corrida. 3. Avaliação médica direcionada, incluindo densitometria óssea quando indicada, dosagem de vitamina D e ferro e discussão individualizada sobre terapia hormonal com ginecologista.

O que muda no treino

A corredora não precisa de um treino mais leve. Precisa de um treino mais completo. Fortalecimento de glúteos e core em todas as fases da vida, ingestão energética compatível com o volume, atenção ao ciclo como sinal vital e um olhar ortopédico que considere a idade e o momento hormonal.

O corpo da mulher que corre não é uma versão adaptada do corpo masculino. É um corpo com regras próprias. Quando a gente aprende essas regras, o asfalto deixa de ser um território de risco e passa a ser, de fato, delas.

Sinais que pedem consulta

  • Menstruação que falhou por três meses ou mais, ou ciclos que ficaram irregulares depois de aumentar o volume de treino
  • Dor óssea localizada que piora com o impacto e começa cada vez mais cedo na corrida
  • Dor na virilha ao correr, especialmente se irradia para a coxa (pode ser fratura por estresse do colo do fêmur)
  • Dor lateral do quadril que acorda à noite ao deitar sobre o lado afetado
  • Fadiga persistente, queda de rendimento sem explicação e ferritina baixa em exame recente
  • Dor no calcanhar ou no tendão de Aquiles que não melhora em quatro a seis semanas
  • Perda de urina durante a corrida no pós-parto ou na menopausa

Censo do Corredor Brasileiro

Está aberta a coleta do 1º Censo do Corredor Brasileiro. Quanto mais gente responder, mais a medicina do esporte vai conhecer quem corre no país, incluindo as corredoras, que hoje são maioria nas linhas de chegada e ainda minoria nos estudos. Responda e compartilhe com a sua assessoria.

Referências

  1. Herzberg SD, Motu’apuaka ML, Lambert W, Fu R, Brady J, Guise JM. The effect of menstrual cycle and contraceptives on ACL injuries and laxity: a systematic review and meta-analysis. Orthop J Sports Med. 2017;5(7):2325967117718781.
  2. Mountjoy M, Ackerman KE, Bailey DM, et al. 2023 International Olympic Committee’s (IOC) consensus statement on Relative Energy Deficiency in Sport (REDs). Br J Sports Med. 2023;57(17):1073-1097.
  3. Wright VJ, Schwartzman JD, Itinoche R, Wittstein J. The musculoskeletal syndrome of menopause. Climacteric. 2024;27(5):466-472.

Dra. Ana Paula Simões é ortopedista e médica do esporte, especialista em cirurgia do pé e tornozelo, mestre pela Santa Casa de São Paulo e diretora da SBMEE. Maratonista. Instagram: @DraAnaPSimoes

Dra. Ana Paula Simões

Dra. Ana Paula Simões

Médica do esporte (Time Runners)

Médica esporte e Ortopedista Prevenção e tratamento lesões esportivas CIRURGIÃ