Treino feminino é diferente do masculino? Uma médica do esporte e um fisiologista do exercício concordam nos princípios e discordam na aplicação. Este é o lado do treino.
No Contraponto, a Runners Brasil coloca dois especialistas do time diante da mesma pergunta e publica as duas respostas inteiras, sem tentar costurar um meio-termo. A pergunta desta edição é treino feminino é diferente do masculino? Uma leitura vem da medicina do esporte e a outra da fisiologia do exercício. Este é o lado do treino, com o fisiologista do exercício Gustavo Jorge. Do outro lado, a ortopedista e médica do esporte Dra. Ana Paula Simões sustenta que ignorar as diferenças custa lesão. A conclusão fica com você.
A Dra. Ana Paula Simões começa por um ponto com o qual concordo: os princípios do treinamento são universais, mas o corpo em que esses princípios são aplicados não é. A questão, portanto, não é decidir se homens e mulheres são iguais ou diferentes. É entender quando uma diferença biológica realmente deve mudar a decisão do treinador.
Mulheres apresentam características fisiológicas, hormonais e biomecânicas que podem alterar determinadas demandas do treinamento. Isso precisa fazer parte da avaliação. O erro, para mim, está em transformar essas características em uma receita. Existe uma diferença importante entre considerar o sexo como uma variável da avaliação e prescrever pelo sexo.
Se uma corredora apresenta maior demanda sobre determinada estrutura, histórico de dor, déficit de força, baixa capacidade de absorção de carga ou alteração de controle do movimento, isso precisa ser identificado e tratado. Mas não significa que todas as mulheres devam começar o treinamento com os mesmos exercícios ou receber a mesma prioridade simplesmente por serem mulheres.
O mesmo vale para a prevenção de lesões. Se sabemos que determinada lesão é mais frequente em mulheres, isso deve aumentar nossa atenção durante a avaliação. Mas risco não é diagnóstico. Prevenção eficaz começa por identificar capacidade, exposição à carga, histórico e fatores modificáveis. Não significa que todas as atletas devam executar o mesmo protocolo preventivo.
É nesse ponto que eu faria uma distinção entre “treino feminino” e “treino individualizado”. O primeiro pode virar uma coleção de exercícios considerados adequados para mulheres. O segundo começa pela atleta. Em vez de perguntar quais exercícios uma mulher deve fazer, perguntamos quais capacidades ela precisa desenvolver para suportar a demanda que escolheu enfrentar.
Risco não é diagnóstico.
A disponibilidade energética é um exemplo de particularidade que realmente pode mudar a condução. Uma corredora que treina muito e não consegue sustentar energeticamente essa carga pode apresentar consequências que vão muito além do desempenho. Nesse cenário, não basta reorganizar exercícios. É necessário olhar para treinamento, alimentação, recuperação e saúde de forma integrada.
Com o ciclo menstrual, eu adotaria a mesma lógica. Concordo que ele não deve ser ignorado. Sintomas recorrentes, alterações de sono, dor, fadiga ou mudanças percebidas pela própria atleta podem fornecer informações úteis para a prescrição. O que eu evitaria é transformar a fase do ciclo em um comando automático para aumentar ou reduzir a carga.
A diferença é entre monitorar e programar. Monitorar significa observar a resposta da atleta e usar essa informação quando ela é relevante. Programar significa determinar previamente que determinada fase exige determinado tipo de treino. Para mim, o ciclo deve entrar na avaliação e no monitoramento, sem necessariamente comandar a planilha.
Na transição menopausal, algumas prioridades realmente ganham ainda mais peso. Preservar massa muscular, força e saúde óssea passa a ter importância central, e o treinamento resistido deixa de ser apenas uma ferramenta de desempenho. Estímulos mecânicos adequados e a manutenção da capacidade de produzir força e potência também ganham relevância.
Mas existe uma diferença entre aumentar uma prioridade e criar um protocolo. Uma mulher na menopausa continua sendo um indivíduo com histórico, nível de treinamento, limitações e objetivos próprios. A idade e o estado hormonal ajudam a explicar o contexto, mas não substituem a avaliação.
É justamente aí que eu faria uma ressalva à frase de que “um plano copiado do masculino até funciona, mas deixa a prevenção pela metade”. Concordo que simplesmente copiar uma planilha sem considerar as características da atleta é uma prescrição ruim. Mas o problema não é ela ter sido originalmente usada por um homem. O problema é ter sido copiada sem avaliação.
Um bom programa de força pode ser aplicado a homens e mulheres porque os princípios que organizam o treinamento são os mesmos. O que muda é a dose, a seleção de exercícios, a progressão, a distribuição da carga e as prioridades quando a avaliação identifica uma necessidade.
A ciência trabalha com médias. O treinador trabalha com pessoas.
A ciência trabalha com médias. O treinador trabalha com pessoas. A média nos ajuda a saber o que procurar. A avaliação nos diz o que fazer. Por isso, diferenças populacionais são importantes, mas não devem substituir a avaliação individual.
Isso não significa minimizar as particularidades femininas. Saúde óssea, disponibilidade energética, ciclo menstrual, gestação, pós-parto, perimenopausa e menopausa podem modificar a maneira como conduzimos o treinamento quando realmente estão presentes e são relevantes para aquela atleta. O ponto é não transformar essas particularidades em uma lista fixa de exercícios.
Então, o treino feminino é diferente do masculino? Minha resposta é: os princípios não precisam ser reinventados, mas a aplicação pode e deve ser diferente quando as características da atleta mudam a decisão.
Eu não quero uma planilha masculina aplicada a mulheres sem reflexão. Mas também não quero uma planilha feminina padronizada para todas as mulheres. Quero uma prescrição que reconheça as diferenças biológicas sem permitir que elas substituam a avaliação individual.
Considerar o sexo na avaliação não significa prescrever pelo sexo. A mulher não precisa de uma receita pronta por ser mulher. Ela precisa que suas características sejam reconhecidas quando realmente mudam aquilo que fazemos no treino seguinte e ao longo de toda a sua carreira esportiva.