Há anos dedico meu tempo ao aprofundamento sobre os efeitos da alimentação e da nutrição na saúde e na performance humana. Ainda que minha área de atuação esteja centrada na educação física e no treinamento, sempre tive interesse por campos correlatos que extrapolam os limites da academia e da pista. Sempre compreendi que pensar sobre treinos, ler sobre treinos, viver os treinos — e, naturalmente, treinar — seria insuficiente diante da complexidade que envolve a saúde e o desempenho humano no contexto da educação física. Quanto mais estudo (e continuo estudando sobre este tema e outros interligados), mais me fascino e compreendo que a nutrição, a suplementação e os alimentos não se restringem ao simples conceito de calorias — o tema é muito mais abrangente e importante. Quando viajo por outras cidades — e até por outros países — reforço a convicção de que ainda temos muito a aprender. Quer um exemplo simples e didático? Sempre ouço a frase: “É impossível viver sem pão ou sem café da manhã!” Pois bem, basta uma viagem ao Japão para desconstruir esse pensamento. Lá, com uma tradição milenar, os hábitos alimentares são totalmente diferentes (eles iniciam o dia com uma boa sopa) — e funcionam muito bem. Não estou dizendo que é preciso eliminar o pão da rotina, mas sim buscar equilíbrio. É perfeitamente possível alternar: em alguns dias, começar a manhã com frutas, em outros, incluir o pão de maneira consciente. Tudo depende da intenção e da variedade. Outro ponto importante: aprendi que nem todo trigo é igual. O trigo utilizado na Itália, por exemplo — conhecido como grano duro — possui qualidade nutricional superior ao trigo comum utilizado no Brasil. Ele tem maior valor biológico, índice glicêmico mais baixo e, muitas vezes, até menos calorias por porção. O mesmo vale para o café. Existe o café arábica, de qualidade superior, mais aromático, com menos cafeína e sabor mais refinado (para a produção do café especial). E existe o café robusta, mais comum e presente em muitas gôndolas de supermercado com valores mais acessíveis, contém mais cafeína, porém entrega menos sabor e sofisticação. Com esse olhar, escrevi um livro e convidei a nutricionista Valéria Loescke para integrar a obra, com o objetivo de tornar o assunto da nutrição literalmente mais palatável e acessível a todos. O título do livro é: Como Emagrecer Sem Sofrer – Aplicações Práticas para o Emagrecimento. Após todos esses anos dedicados ao tema, e aproveitando este espaço para facilitar a compreensão de vocês que nos acompanham pela revista, compartilho a seguir alguns pontos fundamentais sobre nutrição — que podem ajudá-los a extrair o melhor dos alimentos no cotidiano. • Nutrição é sobre nutrir-se de forma consciente. Não se trata apenas de encher ou esvaziar o estômago, comendo mais ou menos. O foco deve estar em fornecer ao corpo os nutrientes certos, na medida adequada, para gerar energia, força e disposição para enfrentar as demandas do dia. • Nutrição é ciência, não religião. Nutrir-se é um processo bioquímico de troca energética: retiramos energia do alimento e a transferimos ao nosso corpo. Essa compreensão exige racionalidade e embasamento, não dogmas ou crenças. Não confunda práticas nutricionais com rituais inflexíveis. • Todo extremismo revela desequilíbrio. Uma relação saudável com a comida é essencial. Afinal, comemos entre 5 e 6 vezes ao dia — esse momento precisa ser harmonioso. Encare a comida como uma aliada, como alguém que te faz bem: cultive uma relação de equilíbrio com ela. • Se a busca pelo prazer na comida está excessiva, atenção. Se você transforma todas as refeições em momentos de prazer (prazer pela boca), durante toda a semana ou todos os finais de semana, talvez seja o caso de buscar apoio psicológico ou psiquiátrico. Já abordamos a saúde mental em outras edições da revista. Comida é, majoritariamente, uma fonte de nutrição — e ocasionalmente, sim, pode ser um momento de prazer social. Mas com equilíbrio. • Alimento e suplemento bons são aqueles que cabem no seu bolso e sustentam sua energia. Fuja da armadilha do suplemento da moda. O melhor suplemento é aquele que você pode adquirir hoje e que contribui com saúde e resultado neste momento. • A maioria dos suplementos disponíveis no mercado tem pouca comprovação científica (baixo nível de evidência). Seja criterioso. Há, sim, suplementos excelentes — mas a pergunta essencial é: para quem serve, em qual momento devem ser usados, e qual o contexto da sua utilização na dieta? • O timing alimentar importa — e muito. A escolha do momento correto para ingerir certos alimentos e suplementos faz toda a diferença. Um exemplo prático: o uso de carbogel deve ser baseado no tempo de atividade, e não nos quilômetros percorridos. Seu corpo percebe a queda de glicose no sangue, não quantos quilômetros você correu — e é essa queda que determina a hora certa de repor energia. • O emagrecimento eficaz é resultado de processos graduais. Redução calórica controlada, mudança de hábitos sustentáveis, preservação da massa muscular e óssea, e, acima de tudo, manutenção da disposição e da energia no dia a dia — esses são os pilares para emagrecer com saúde. • Não existe milagre. Já disse antes e repito: se o jejum fosse realmente a solução definitiva, não haveria necessidade de nutricionistas. Bastaria jejuar e a obesidade estaria resolvida no mundo. O jejum pode causar fraqueza, queda na disposição, perda de massa muscular e redução na capacidade de recuperação. É uma intervenção específica, com uso pontual, voltada principalmente para indivíduos com obesidade, e não recomendada para pessoas com sobrepeso ou praticantes regulares de atividades como corrida ou musculação. • Dietas radicais são terreno fértil para compulsões e efeito rebote. Muitos que perdem peso de forma extrema acabam com desequilíbrios na microbiota intestinal e, pouco tempo depois, recuperam o peso perdido — ou até mais. A fórmula sustentável é simples, embora exigente: alimentação equilibrada, hidratação adequada, sono de qualidade e prática regular de atividade física. • Whey protein é um excelente aliado — quando bem utilizado. Ele não engorda nem faz mal. Trata-se de uma fonte proteica de alta qualidade. Existem três tipos principais de whey (já abordados por aqui). Mas atenção: compre apenas em lojas oficiais, pois existem dezenas de marcas. Infelizmente no mercado, há muitos produtos falsificados, adulterados ou vencidos a venda.
