Saúde Bucal na Corrida

Alimentação, Corrida e Saúde Bucal: Interfaces e Paradoxos

A relação entre carboidratos, rendimento esportivo e saúde bucal na corrida de rua

Por: Dr. Victor Wolwacz Edição 52 - agosto 2025
Alimentação, Corrida e Saúde Bucal: Interfaces e Paradoxos

Considera-se alimentação saudável aquela centrada no consumo de alimentos minimamente processados, tais como carnes, frutas, verduras, legumes e leguminosas. Nessa perspectiva, recomenda-se evitar alimentos ricos em sal, açúcar, gorduras saturadas e, em certa medida, os carboidratos refinados. Porém, no contexto da corrida, existe um paradoxo, pois os corredores frequentemente utilizam carboidratos em diversas formas durante a dieta semanal e durante treinos e provas como fonte de energia. Além disto, a literatura científica confirma que dietas ricas em açúcares e carboidratos refinados não são benéficas para a saúde bucal. Estudos epidemiológicos demostraram que, onde a dieta consumida era menos processada e com menor oferta de açúcares, a população apresentava menores quantidades de lesões de cárie. Efeito inverso foi observado com o aumento do consumo de produtos ricos em açúcar. Estudos que avaliaram crianças diabetes controlada, e que, portanto, faziam uma dieta com restrições aos carboidratos, também mostraram menor índice da cárie. Entretanto, é importante frisar que as doenças cárie e periodontal não têm um só agente causador. São doenças multifatoriais, em que vários fatores são responsáveis pelo estabelecimento, tipo de manifestação e velocidade de progressão. A dieta é um deles.

Para os corredores é interessante abordar esse assunto sobre diversas perspectivas. Timothy David Noakes, autor do livro “Lore of Running”, cientista sul-africano e professor emérito da divisão de Ciência do Exército e Medicina Esportiva da Universidade da Cidade do Cabo, foi um dos principais divulgadores durante muitos anos da importância dos carboidratos para corredores. Seu currículo de corredor apresenta sua participação em mais de 70 maratonas e ultramaratonas. Interessante que, recentemente, Prof Noakes recomendou aos leitores que desconsiderassem um dos capítulos do livro em que defendia a ingestão de carboidratos daquela forma. O próprio adotou uma dieta Low-Carb, que não é necessariamente a ausência de carboidratos. Com ela, perdeu peso e tornou-se um grande defensor desse modelo alimentar em seu país, a África do Sul. O professor apresentou a seguinte visão: aproximadamente 25% das pessoas possuem alta tolerância aos carboidratos. Para os demais, a dieta Low Carb, High Fat seria mais indicada. Existem pessoas que parecem imunes aos efeitos negativos dos carboidratos, especialmente aquelas com alta sensibilidade à insulina e praticantes de esportes que exigem explosão, como triatletas. Estes, em função dos treinos longos, podem se beneficiar do “Carb Loading”, dieta nutricional que busca maximizar os estoques de energia antes das competições. Para esses casos, sugeriu uma dieta paleolítica não-Low Carb, que inclui, por exemplo, batata-doce, frutas e arroz, mas com a exclusão de trigo e açúcar refinado. A propósito, recomendações consideradas benéficas para todos.

Exercícios aeróbicos e anaeróbicos utilizam glicose e gordura como fontes energéticas, porém de formas distintas e complementares. Exercícios aeróbicos, caracterizados por longa duração e intensidade baixa ou moderada, utilizam principalmente gordura como combustível. Já os exercícios anaeróbicos, de alta intensidade e curta duração, dependem mais da glicose. Ambos os tipos de exercício, entretanto, promovem a queima de gordura e oferecem benefícios metabólicos diversos.

Corredores que apresentam suscetibilidade à doença cárie e doenças gengivais devem ter mais cuidados quanto à ingestão alta e frequente de alimentos refinados e açucarados, pelo potencial de causar doenças. Importante lembrar que a consistência, frequência e tempo de permanência dos açucares na cavidade oral é também um dos fatores que deve ser levado em consideração. Balas, gomas, paçocas ficam mais tempo em contato com os dentes e tem um potencial maior para o início e progressão da cárie. Uma redução no consumo, bem estabelecida e planejada, sempre será benéfica. No exame oral existem marcadores clínicos em pacientes que tem alto consumo de açucares e carboidratos, tais como lesões de mancha branca, sinais iniciais de lesão cariosa, aderência, aspecto e localização do biofilme, experiência anterior e atual de cárie, presença de inflamação periodontal avaliada pela presença sangramento gengival com ou sem a perda do osso que dá sustentação para os dentes.

Quanto a saúde geral, corredores com características de síndrome metabólica, diabetes, obesidade ou doenças autoimunes devem também procurar o seu médico e conversar sobre o uso de suplementos açucarados e a ingestão de carboidratos na dieta semanal e durante a corrida, bem como considerar o possível impacto desta, nessas situações.

Para finalizar, observa-se a relevância de se estabelecer, de forma cientifica, o tipo e quantidade de alimento no cotidiano do corredor. O que usar, o quando e o quanto de suplementos com açúcares e carboidratos como auxiliar na performance de corrida. Tanto para corredores amadores quanto para os corredores profissionais, o ato de planejar uma dieta perfeita é como montar uma equação com diversas possibilidades e variáveis a serem avaliadas caso a caso. Tudo para que não ocorra o comprometimento da dieta nas saúdes bucal e geral do corredor.

Colaboração: Ana Chapper

Dr. Victor Wolwacz

Dr. Victor Wolwacz

Dentista (Time Runners)

Dentista