Uma crônica sobre leveza, comparação e as corredoras que puxam o ritmo de quem está por perto.
Minha mãe corre com uma leveza que eu ainda não consegui alcançar.
Não olha para o relógio. Zero comparação consigo mesma ou com o pace alheio. Enquanto eu me preocupo com ritmo e batimento cardíaco, ela corre contemplando as ruas, como quem sai numa manhã de sábado para conversar com uma vizinha.
Lembro de um domingo, numa prova de 5 km. Depois que cruzamos juntos a linha de chegada, eu falei: “Mãe, você corre bem pra sua idade.”
Só no carro, voltando para casa, percebi o que eu tinha feito. Peguei a leveza dela e coloquei em uma caixa em que ela não cabia, a da comparação, da performance. Como se décadas de vida coubessem numa idade, um número que não consegue contar toda a história.
Como se décadas de vida coubessem numa idade, um número que não consegue contar toda a história.
Todo corredor ou corredora carrega uma presença assim por perto. Foi desse jeito que a Duda Raízes* aceitou o convite de uma amiga para um desafio de verão, sem imaginar que ali estava descobrindo um vício do bem.
O que era para ser só um projeto para ficar no shape ajudou a criar uma corredora raiz. Começou com 5 km na etapa Primavera do Circuito das Estações, que inaugurou uma nova rotina no asfalto.
Hoje é a Duda quem puxa o pelotão das próprias amigas, quem cadencia o passo, acorda cedo para cumprir a planilha com disciplina e anima o grupo quando a preguiça insiste em aparecer.
Mas ela não é a heroína que faz tudo perfeito. Duda é sincera quando o corpo pede trégua: puxa o freio de mão sem culpa e avisa que aquele foi o máximo do dia, porque a TPM estava pesando.
Ela não corre para impressionar ninguém ou ganhar validação nas redes. Ela mesma resume: “Não é por likes, é pela menina que escutava que devia parar de correr, porque assim ia ficar descabelada”.
Hoje Duda se enxerga na alegria de correr daquela menina.
Eu ainda me inspiro na leveza da minha mãe. Toda vez que corro com ela, deixo o relógio em casa. Ela segue na frente, ditando o ritmo, sem pressa de ser feliz.
* Duda Raízes é uma personagem fictícia, inspirada em várias corredoras com quem já tive a chance de conviver e treinar.