Medicina e a Corrida

Medicina e a Corrida: o que o corpo precisa para enfrentar 42 km

Por: Dra. Ana Paula Simões Edição 61 - maio 2026
Medicina e a Corrida: o que o corpo precisa para enfrentar 42 km

1.⁠ ⁠O que o corpo precisa estar preparado para enfrentar 42 km

A maratona impõe ao organismo uma demanda fisiológica multissistêmica que vai muito além da capacidade cardiovascular isolada. Para que o atleta complete os 42,195 km com segurança, os seguintes sistemas precisam estar adequadamente adaptados:

Sistema cardiovascular e VO₂máx

Um VO₂máx mínimo de 40 a 45 ml/kg/min é o threshold funcional para sustentar o esforço aeróbico prolongado. Mais relevante ainda é a economia de corrida, ou seja, a capacidade de manter determinado pace com menor custo de oxigênio. Recomenda-se avaliação cardiológica prévia com ECG de repouso e, em maiores de 40 anos ou com fatores de risco, teste ergométrico ou ergoespirometria.

Capacidade metabólica e utilização de substratos

A partir dos 90 a 120 minutos de esforço contínuo, o glicogênio muscular e hepático começa a se esgotar. O organismo treinado desenvolve maior capacidade de oxidação lipídica, poupando glicogênio para o sprint final. Esse fenômeno é consequência de meses de treinos em zona 2 e não ocorre sem adaptação progressiva.

Sistema musculoesquelético

O tecido conjuntivo, formado por tendões, ligamentos e cartilagem, apresenta turnover muito mais lento que o músculo esquelético. Tendões se adaptam a novas cargas em 6 a 12 semanas. O descompasso entre ganho de força muscular e remodelamento tendinoso é a principal causa de lesões por overuse em maratonistas iniciantes. O atleta deve ter no mínimo 6 a 12 meses de corrida contínua, com pico de volume semanal de ao menos 50 a 60 km e longões de pelo menos 30 km antes da prova.

Sistema endócrino e laboratorial

Ferritina sérica abaixo de 30 ng/mL, vitamina D abaixo de 30 ng/mL e disfunção tireoidiana comprometem a recuperação, a síntese proteica e a performance aeróbica de forma significativa. Check-up laboratorial com hemograma, ferritina, vitamina D, TSH e perfil lipídico é parte do protocolo pré-maratona.

Sistema gastrointestinal

O intestino precisa ser treinado. A isquemia intestinal induzida pelo exercício reduz a absorção e aumenta a permeabilidade da mucosa em esforços prolongados. Estratégias de abastecimento com géis, isotônicos e carboidratos devem ser praticadas nos longões e nunca estreadas no dia da prova.

 

2.⁠ ⁠Sinais de que você ainda não está pronto para a maratona

Do ponto de vista clínico e esportivo, os seguintes sinais contraindicam ou desaconselham a participação em uma maratona no ciclo atual:

Tempo de prática insuficiente

Menos de 6 meses de corrida contínua e regular representa risco aumentado de lesão por overuse. O sistema musculoesquelético não completou o processo de adaptação às cargas de impacto repetitivo.

Ausência de longões acima de 28 a 30 km

O organismo precisa ter experimentado, em treino, a depleção parcial de glicogênio, a fadiga neuromuscular tardia e a resposta gastrointestinal ao esforço prolongado. Sem esse repertório, o corredor chega ao quilômetro 30 sem condições fisiológicas de gerenciar o que está acontecendo no próprio corpo.

Lesão musculoesquelética ativa ou em fase de recuperação recente

Tendinopatia de Aquiles, síndrome da banda iliotibial, fasciíte plantar, estresse ósseo tibial e lesões de quadril estão entre as mais prevalentes. Uma lesão “controlada” que permita treinar não é uma lesão resolvida. Submeter estruturas inflamadas ou em remodelamento a 42 km de impacto acelera a progressão para lesão estrutural grave.

Marcadores laboratoriais alterados

Ferritina baixa é, isoladamente, fator de risco para fratura por estresse. Anemia ferropriva, mesmo leve, reduz o transporte de oxigênio e eleva o custo metabólico do esforço. Correr uma maratona nessas condições não é apenas ineficiente: é potencialmente perigoso.

Sinais de overtraining ou RED-S (Relative Energy Deficiency in Sport)

Fadiga persistente que não melhora com o descanso, queda de performance apesar do volume adequado, alterações de humor, distúrbios do sono, amenorreia em mulheres ou queda de libido em homens são sinais de que o balanço energético está negativo e o organismo não está em condições de absorver mais estresse.

Ausência de avaliação médica prévia

A maratona é considerada um esforço físico de alta intensidade e longa duração. A liberação médica não é formalidade: é triagem de risco. Qualquer condição cardíaca não diagnosticada, anemia grave ou problema articular estrutural pode ter consequências sérias em prova.

 

3.⁠ ⁠Riscos mais comuns na preparação e como evitá-los

Lesões por overuse

Com incidência entre 40 e 80% em programas de maratona, as mais frequentes são síndrome da banda iliotibial, tendinopatia patelar, fasciíte plantar, tendinopatia do Aquiles, periostite tibial e fratura por estresse. O fator etiológico central é o aumento de carga superior à capacidade de remodelamento tecidual. A prevenção passa por respeitar a progressão de 10% no volume semanal, incluir um a dois dias de descanso absoluto por semana, incorporar fortalecimento neuromuscular de glúteos, core e cadeia posterior ao plano de treino e não negligenciar a dor. Qualquer sintoma que persista além de 48 horas após o treino requer avaliação.

Hiponatremia associada ao exercício

Definida como sódio sérico abaixo de 135 mEq/L durante ou após prova prolongada, ocorre principalmente em corredores mais lentos que ingerem volumes elevados de água hipotônica sem reposição adequada de sódio. Os sintomas variam de náusea e cefaleia até rebaixamento de consciência e convulsão nos casos graves. A prevenção envolve treinar a estratégia de hidratação nos longões, beber conforme a sede e não por protocolo rígido de volume, utilizar isotônicos com sódio acima de 500 mg/L nas fases finais de provas longas e monitorar a variação de peso antes e depois dos treinos longos.

Hipertermia e golpe de calor

Temperatura central acima de 40°C com sinais de disfunção do sistema nervoso central constitui emergência médica. O risco aumenta em provas com temperatura ambiente elevada, alta umidade relativa e irradiação solar direta, condições frequentes em provas brasileiras. A prevenção exige adaptar o pace às condições climáticas do dia, garantir hidratação adequada, treinar em condições similares às da prova e conhecer os sinais de alarme como confusão mental, parada de sudorese e pele quente e seca.

Rabdomiólise de esforço

Trata-se da lesão muscular maciça com liberação de mioglobina na corrente sanguínea, podendo evoluir para lesão renal aguda. É mais comum em estreantes que ultrapassam o limite do próprio condicionamento nos quilômetros finais. A prevenção passa por não correr além do que o nível de preparo permite, respeitar os sinais de fadiga muscular extrema e manter hidratação adequada durante toda a prova.

Imunossupressão pós-prova e janela aberta

Nas 72 horas após a maratona, há elevação transitória de cortisol, queda de IgA secretora e supressão relativa da imunidade celular. O risco de infecções de vias aéreas superiores aumenta de duas a seis vezes nesse período. A prevenção inclui repouso nas primeiras 48 a 72 horas, alimentação rica em antioxidantes e proteínas, sono de qualidade, evitar ambientes fechados e aglomerações nos dias seguintes à prova e não retornar a treinos intensos antes de duas a três semanas.

A maratona é uma prova generosa com quem a respeita e implacável com quem a subestima. Prepare o corpo com tempo, avalie-se com seriedade e corra com consciência.

Dra. Ana Paula Simões

Dra. Ana Paula Simões

Médica do esporte (Time Runners)

Médica esporte e Ortopedista Prevenção e tratamento lesões esportivas CIRURGIÃ