Saúde Bucal na Corrida

Inter-Relação entre Saúde Bucal e Saúde Geral

Por que o cuidado odontológico é parte fundamental da saúde sistêmica e do desempenho esportivo

Por: Dr. Victor Wolwacz Edição 53 - setembro 2025
Inter-Relação entre Saúde Bucal e Saúde Geral

A inclusão da Odontologia na área da saúde integrada ao esporte foi durante muito tempo apenas relacionada a tratamentos restauradores, como obturações, cirurgias, próteses, tratamento de canal, tratamento das doenças gengivais e a remoção de dentes com processos infecciosos. Sempre se falou de forma genérica sobre a ação de focos infecciosos de origem dentária como causa provável de doenças sistêmicas em outras partes do corpo, como coração ou articulações. Denominou-se Teoria da Infecção Focal o possível impacto de bactérias oriundas de lesões infecciosas bucais poderem entrar na corrente sanguínea e afetar outros órgãos e sistemas do corpo, interferindo, por exemplo, no tratamento de atletas com lesões musculares com difícil recuperação.

Entretanto, é bem conhecida a endocardite bacteriana doença infecciosa cardíaca, provocada por Streptoccous com origem no biofilme bucal. Esta doença afeta pacientes com alterações cardíacas, que modificam o fluxo contínuo e normal de sangue no ambiente intracardíaco. Somam-se a isto, o conhecimento das implicações da presença e do tratamento das doenças bucais em pacientes gestantes ou com doenças sistêmicas como diabetes, síndrome metabólica, doenças reumatológicas e cardíacas além de outras comorbidades.

Entende-se por biofilme dental, mais conhecido como placa bacteriana, uma camada pegajosa e viscosa de microrganismos acumulados nos dentes, sendo este, o principal agente causador de cáries e doenças gengivais. Estudos clássicos demonstraram que, se não removida diariamente, em média entre 7 e 14 dias, as pessoas desenvolvem uma inflamação gengival, manifestada como sangramento. Isto acontece porque a placa bacteriana madura foi acrescida por microrganismos que produzem substâncias capazes de desenvolver um processo inflamatório tecidual, o qual, embora tenha por objetivo a defesa contra a infecção, deixam o tecido inchado e mais friável, permitindo sangramento ao leve toque. Fatores comportamentais como consumo de carboidratos fermentáveis, além de facilitar a adesão destes microrganismos aos dentes, fazem com que ácidos sejam produzidos causando desmineralização das estruturas dentárias, que, em ato contínuo, levam à cárie.

Por volta do início da década de 90, os pesquisadores passaram a se perguntar o que fazia com que algumas pessoas desenvolvessem gengivite antes de sete dias ou, em alguns casos, muitos dias depois do previsto. Descobriram então, que fatores imunológicos, determinados ou não geneticamente, tinham um valor importantíssimo no estabelecimento e progressão das doenças gengivais. Assim, as pesquisas passaram a direcionar o olhar para a saúde geral dos indivíduos e não só para os fatores locais responsáveis pelas doenças bucais. Como exemplo, constatou-se que as alterações inflamatórias gengivais são capazes de impedir o bom controle da diabetes e, vice-versa, o descontrole glicêmico predispõe a uma menor defesa gengival e, como consequência, um risco aumentado de perda de tecidos de suporte dos dentes frente a má higiene bucal.

A literatura recente é repleta de estudos envolvendo doenças sistêmicas e odontologia. Sabe-se que existe certa plausibilidade biológica para o desenvolvimento de doenças cardiovasculares, doenças reumatológicas e parto prematuro em gestantes, quando da presença doença gengival que se estende aos tecidos de suporte. Mas tais relações não necessariamente se estabeleceram como fator de risco. O mais importante é que estes estudos despertaram a classe odontológica para atenção às características sistêmicas que, ou se manifestam na boca, ou requerem atenção durante os tratamentos, ou ainda, que podem interferir no curso das doenças bucais que o paciente pode apresentar.

O resultado deste olhar foi a criação de uma diretriz que cobra do cirurgião-dentista uma detalhada anamnese antes da realização de qualquer procedimento odontológico, em que, tanto o paciente quanto o próprio, se comprometem realizar de forma a minimizar quaisquer riscos de óbito, bem como orientar as condutas clínicas. A anamnese deve incluir doenças na família, doenças existentes no paciente, cirurgias realizadas, medicamentos que usa, comportamentos e vícios, dentre muitas outras informações relevantes.

Se existem riscos durante o atendimento odontológico? Sim, existem. Porém, situações emergenciais deixam de existir quando o cirurgião-dentista está bem-preparado e informado. Embora existam casos em que o paciente tem um desfecho desfavorável após atendimento odontológico, estes são raros. Entretanto, uma parcela menor da mídia continua fazendo destas fatalidades uma forma de marketing para chamar atenção. Esse tipo de informação acaba por não ajudar o leigo, e, muitas vezes, pode determinar um efeito negativo e alarmante desnecessário. Acabam, assim, não fornecendo as devidas orientações ao público em geral.

Portanto, é muito importante fazer chegar ao público e, no nosso caso, aos atletas corredores, informações embasadas cientificamente, de forma simples, em linguagem coloquial, não formal ou cientifica, para que todos possam ter conhecimento e usem isso a seu favor no dia a dia com o seu dentista. O sensato é buscar informações sobre as possíveis interações entre as doenças dento-gengivais, sejam focos infecciosos crônicos ou agudos, e a saúde sistêmica. Relevante saber quais são os cuidados que se deve ter frente a essas possibilidades. Condutas de atendimento devem ser instituídas para proteger o paciente de desfechos negativos.

Na prática, o controle das doenças inflamatórias e infecciosas na cavidade bucal devem ser realizadas de forma periódica pelo dentista. Para tal, é muito importante que este tenha acesso e conhecimento sobre a saúde geral do atleta. Essas informações devem orientar, tanto o profissional, quanto o paciente, para que, em situações em que houver a necessidade de intervenção, medidas sejam estabelecidas de forma a diminuir possíveis riscos de complicação envolvendo saúde geral do paciente corredor. Em resumo, o conhecimento é a prevenção.

Contribuição: Ana Chapper / Mauricio Cernicchario Ouriques

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intense-runner-expressing-emotion-race Tooth bacteria under a magnifying glass. Research and diagnosis of teeth diseases concept. Tooth with viruses and bacterias under magnifying glass. 3d illustration
Dr. Victor Wolwacz

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