Neurociência e a Corrida

Corrida e alimentação: o combustível ideal para sua performance

O que você coloca no prato define até onde você corre

Por: Carlos Campelo Edição 52 - agosto 2025
Corrida e alimentação: o combustível ideal para sua performance

Você já percebeu como o que você come impacta diretamente o seu desempenho na corrida? Muitas vezes, pensamos somente nos treinos, nos quilômetros percorridos e nos resultados que queremos alcançar, mas a verdade é que o combustível para alcançar esses objetivos vem diretamente daquilo que colocamos no prato.
A alimentação ideal para corredores vai muito além de força física: ela também fortalece sua mente. Descobertas recentes em neurociência e psicologia esportiva mostram que uma nutrição adequada não só fornece energia ao corpo como também sustenta a motivação, o foco e a força mental que precisamos para superar desafios – seja um treino cansativo ou uma prova difícil.
Entender essa conexão entre alimentação, cérebro e desempenho é crucial para qualquer corredor, principalmente no contexto atual, onde muitos caem na cilada de trocar refeições completas por suplementação. É sobre isso que vamos falar aqui: como sua escolha alimentar afeta seu desempenho, o que a ciência diz sobre a substituição de alimentos por suplementos, e como corrigir o rumo, caso você já esteja nessa situação.

O PAPEL DA ALIMENTAÇÃO NA CORRIDA: MUITO ALÉM DO FÍSICO

Correr é um desafio que envolve tanto o corpo quanto a mente. Durante suas passadas, o cérebro está em pleno funcionamento, regulando aspectos como o esforço percebido, a persistência diante do cansaço e até decisões rápidas, como ajustar a intensidade ou superar adversidades climáticas. E, para isso, ele precisa de energia – em especial, da glicose, sua principal fonte de combustível.

Quando o cérebro fica sem glicose, alguns sintomas começam a aparecer:

• Fadiga precoce – Você sente que não consegue manter o ritmo;
• Perda de foco – A concentração para traçar estratégias e se manter confiante diminui;
• Desânimo – A sensação de incapacidade aumenta, e a mente não consegue mais sustentar o esforço.

Por outro lado, quando você se alimenta de forma equilibrada e consistente, fornece ao seu corpo e ao cérebro não apenas energia, mas também os nutrientes necessários para funcionar no seu melhor. E isso faz toda a diferença em momentos cruciais, como os últimos quilômetros de uma prova ou aquele treino-chave que parecia impossível.

COMO A PSICOLOGIA ESPORTIVA EXPLICA ISSO?

Pesquisas recentes em psicologia esportiva mostram que a autoconfiança e a motivação de um atleta estão diretamente relacionadas à percepção de energia e bem-estar físico. Ou seja, quando você sente que está bem alimentado e preparado, sua mente responde com mais determinação e resistência. É o clássico “corpo sadio, mente sadia”.

O PROBLEMA DA SUPLEMENTAÇÃO EXCESSIVA

É cada vez mais comum vermos corredores, desde amadores a profissionais, trocando a alimentação tradicional pela suplementação. Mas por que isso acontece, e quais os impactos dessa substituição? Vamos explorar.

• Por que algumas pessoas trocam alimentação por suplementação?

Vários fatores influenciam essa escolha, como:

1. Rotina acelerada: A vida moderna, cheia de compromissos, faz com que muitas pessoas busquem alternativas rápidas e convenientes para suprir suas necessidades energéticas.

2. Promessas de resultados rápidos: A indústria de suplementos frequentemente apresenta seus produtos como soluções milagrosas, levando as pessoas a acreditarem que consumir shakes ou barras substitui refeições completas.

3. Falta de planejamento: Muitos corredores não estruturam suas refeições e acabam recorrendo ao que está mais acessível, ou seja, suplementos.

4. Influência social: Redes sociais e influenciadores frequentemente promovem o uso de suplementos de forma exagerada, criando a impressão de que são indispensáveis para o sucesso.

Embora os suplementos possam ser úteis quando utilizados estrategicamente, eles não foram feitos para substituir os alimentos. E a ciência explica por quê.

O QUE A NEUROCIÊNCIA NOS ENSINA SOBRE SUPLEMENTAÇÃO

De acordo com a neurociência, o corpo humano foi projetado para funcionar com alimentos integrais e variados, que oferecem nutrientes em combinações naturais e balanceadas. Os alimentos reais fornecem não apenas calorias e macronutrientes (como carboidratos e proteínas), mas também micronutrientes, fibras e substâncias bioativas (como antioxidantes), que trabalham em sinergia para a saúde do corpo e do cérebro.

Já os suplementos, por mais avançados que sejam, não conseguem replicar a complexidade dos alimentos integrais. O consumo excessivo e indiscriminado de suplementos pode resultar nos seguintes problemas:

1. Falta de micronutrientes essenciais: Muitas fórmulas de suplementos são altamente energéticas, mas pobres em vitaminas e minerais, o que pode levar a deficiências a longo prazo.

2. Perda de fibras alimentares: Presentes em alimentos naturais, as fibras regulam a digestão, promovem a saciedade e ajudam na absorção de nutrientes. A ausência delas pode impactar negativamente o trato gastrointestinal.

3. Relação distorcida com a alimentação: Quando alguém substitui alimentos por suplementos, pode acabar perdendo o prazer em se alimentar ou até desenvolvendo uma dependência psicológica em relação à suplementação.

A substituição completa de alimentos integrais por suplementos muitas vezes foca apenas na energia imediata, ignorando a importância de ter um corpo nutrido de forma completa para a saúde e a longevidade.

ALIMENTAÇÃO E PERFORMANCE NA PERSPECTIVA PSICOLÓGICA

Curiosamente, a psicologia esportiva também alerta para os impactos da nutrição na mente do atleta. Estudos demonstram que:

• Nutrição inadequada prejudica o foco: Atletas mal nutridos percebem as corridas como mais cansativas e difíceis, o que reduz sua autoconfiança.

• Alimentos reais favorecem o bem-estar: Consumir refeições balanceadas está diretamente associado a sensações de energia, clareza mental e motivação, melhorando a percepção subjetiva de desempenho.

Além disso, o ato de preparar e saborear alimentos reais cria uma conexão mais saudável com o próprio corpo e com o processo de cuidar da saúde. Essa relação positiva ajuda o atleta a manter um equilíbrio entre a vida esportiva e suas escolhas alimentares, o que é essencial para uma performance consistente a longo prazo. Quando a alimentação é equilibrada e prazerosa, o cérebro associa correr e treinar com bem-estar, fortalecendo a resiliência mental para lidar com desafios e superar limites.

COMO SAIR DA CILADA DA SUPLEMENTAÇÃO EXCESSIVA?

Se você percebe que está suplementando mais do que se alimentando de forma natural, é hora de repensar suas escolhas. A boa notícia é que existem estratégias simples para voltar ao equilíbrio:

1. Reconheça o problema: O primeiro passo é avaliar honestamente se você tem priorizado suplementos em vez de alimentos reais por conveniência ou hábito. Pergunte-se: “Quanto da minha energia vem de refeições completas e quanto vem de barras, pós ou shakes?”

2. Eduque-se sobre a importância dos alimentos: Um nutricionista pode ajudar você a entender melhor como os alimentos reais fornecem uma combinação única e complexa de nutrientes que nenhum suplemento consegue substituir.

3. Reintroduza os alimentos de forma gradual: Você não precisa eliminar os suplementos de uma vez, mas pode começar a priorizar alimentos naturais no pré e pós-treino e deixar os suplementos para situações específicas, como provas longas ou treinos extenuantes.

4. Tenha planejamento alimentar: Rotinas agitadas muitas vezes levam à suplementação excessiva. Dedicar um tempo semanal para organizar suas refeições (como montar marmitas ou snacks naturais) pode ser um divisor de águas para comer de forma mais consciente.

5. Valorize o aspecto emocional da alimentação: Comer envolve mais do que nutrir o corpo – é também uma forma de prazer e cuidado consigo mesmo. Recuperar esse aspecto da alimentação pode ajudá-lo a criar uma relação mais saudável e longeva com a comida.

NENHUM SUPLEMENTO SUBSTITUI ALIMENTOS REAIS

Corrida é, sim, uma questão de desempenho físico, mas também é uma batalha mental constante. Correr bem não depende apenas de treinar forte, mas de nutrir seu corpo e sua mente com alimentos de verdade. A jornada para se tornar um atleta completo passa necessariamente pela construção de hábitos alimentares equilibrados, que sustentem a energia necessária para o esforço físico e fortaleçam sua confiança e resiliência.

Lembre-se de que suplementos são ferramentas pontuais – úteis, mas jamais substitutos. Alimentar-se bem com alimentos integrais não apenas melhora sua performance, mas também te protege de desgastes a longo prazo, criando uma base sólida para um desempenho consistente e saudável.

Por fim, cuide do seu corpo e celebre sua jornada como corredor, porque a alimentação é uma parte essencial desse processo. No final das contas, você é o seu melhor investimento.

Neste mês de agosto, o Dia do Nutricionista (31 de agosto) nos lembra da importância de contar com profissionais capacitados para desenhar estratégias alimentares que realmente façam sentido para sua corrida, seu corpo e sua vida. Busque orientação, escolha bem e corra com combustível de qualidade!

Carlos Campelo

Carlos Campelo

Psicólogo Esportivo - CRP 18/9852

Kenya XP 2024 🇰🇪 Kibet Maratonista Six Star 8x42k e 39x21k Analista Coach PNL Hipnose Neurociência Comportamental