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Destaque da Edição – Com Adriana da Silva – Uma vida em movimento

Da infância na periferia aos Jogos Olímpicos

Por: Dani Christoffer Edição 56 - dezembro 2025
Destaque da Edição – Com Adriana da Silva – Uma vida em movimento

Esse mês de celebração de centenário da São Silvestre, a Revista Runners Brasil traz a história de superação, títulos, quedas e recomeços de uma das maiores maratonista da história do Brasil. Adriana, aos 44 anos conta como transformou dor em conquista e fez da São Silvestre parte da própria trajetória de vida.

Em um país apaixonado por corrida, poucas atletas carregam uma história tão potente quanto a de Adriana Aparecida da Silva.

Nascida na periferia, começou a trabalhar aos 9 anos como empregada doméstica para ajudar em casa — e, entre batalhas e quilômetros, transformou a própria vida por meio do esporte.
Bicampeã pan-americana, maratonista olímpica em Londres 2012 e Rio 2016, recordista brasileira no Pan de Toronto, Adriana é daquelas mulheres que correm com o corpo e com a alma.

E a São Silvestre, tema desta edição histórica, faz parte viva de sua trajetória — palco de dores, conquistas e renascimentos.

Na edição que celebra os 100 anos da corrida mais tradicional do Brasil, convidamos Adriana para revisitar momentos decisivos, falar de títulos, cicatrizes, depressão, superação e futuro.

Início de tudo!

Runners Brasil: Adriana, sua história começa muito antes das pistas. Como foram aqueles primeiros anos, trabalhando aos 9 anos, e de que forma isso moldou a atleta e a mulher que você se tornou?

Adriana Aparecida da Silva: Meus pais se separaram quando eu tinha 3 anos de idade. Passamos muita necessidade, muitas vezes íamos dormir com fome. Aos 9 anos, fui trabalhar na casa da mãe de um amigo da escola, limpando a casa.
Aos 12 anos, meu irmão me convidou para participar de uma corrida que aconteceria em Cruzeiro, minha cidade natal. Sempre tive uma infância muito ativa: nadava em rios e cachoeiras, corria pelas montanhas. Fui participar e acabei ganhando em primeiro lugar.

Runners Brasil: Em que momento você percebeu que correr poderia ser “um caminho” na sua vida?

Adriana da Silva: Nessa primeira corrida, além do troféu, recebi uma premiação de 50 reais. Cheguei em casa e levei minha mãe ao supermercado. Pela primeira vez, fizemos uma compra de verdade, enchendo o carrinho, e no dia seguinte não faltou comida.
Quando vi a alegria da minha mãe estampada no rosto, não tive dúvida: o atletismo virou minha profissão a partir dali.

A construção de uma campeã

Runners Brasil: Como foi o início da sua trajetória competitiva?

Adriana da Silva: O Carioca, treinador da equipe Papaléguas, me convidou para fazer parte do time. Comecei a participar de circuitos de corridas, quase sempre ganhando, além de campeonatos brasileiros, sul-americanos e mundiais.
Participei da minha primeira São Silvestrinha, que é como se fosse a São Silvestre para crianças. Já na Corrida Internacional de São Silvestre, participei pela primeira vez em 1996, com 15 anos.
Em 2004, fui terceira colocada e, com o valor da premiação, comprei uma casa para minha mãe, realizando o sonho da casa própria.

Runners Brasil: Você é bicampeã pan-americana — Guadalajara 2011 e Toronto 2015. Quando olha para esses títulos, o que eles representam hoje?

Adriana da Silva: Foi uma das maiores realizações da minha vida. Em Guadalajara, a atleta mexicana Madaí Pérez era a favorita ao ouro.
Minha preparação foi feita na Colômbia, em altitude de 2.600 metros, com treinos exaustivos, como 21 tiros de 1.000 metros e longões de até 41 km. A prova aconteceu sob calor de 28 °C. Passei a atleta mexicana no km 38, conquistei a medalha de ouro e bati o recorde pan-americano, com o tempo de 2h36min37s.

Runners Brasil: No Pan de Toronto, você quebrou o recorde da prova. O que você lembra daquele dia?

Adriana da Silva: No Pan de Toronto, eu era cotada como uma das favoritas. Saí de lá com a medalha de prata e o tempo de 2h35min48s. A atleta do Peru, Gladys Tejeda, havia conquistado o ouro e batido meu recorde.
Uma semana depois, saiu o exame antidoping, que acusou positivo. Ela perdeu a medalha, e eu fiquei com o ouro e, novamente, com o recorde pan-americano.

Jogos Olímpicos: Londres e Rio

“No Rio, a largada no Sambódromo tornou difícil segurar a emoção”, conta Adriana da Silva.

Runners Brasil: Londres 2012 foi sua estreia olímpica. O que aquela Adriana diria para a Adriana de hoje?

Adriana da Silva: A preparação para Londres começou antes mesmo dos Jogos. Para conquistar a vaga olímpica, eu precisava correr uma maratona abaixo de 2h30min06s. Decidi correr a Maratona de Tóquio, em fevereiro de 2012, mas o organizador não queria me aceitar, pois só admitia corredoras com tempo abaixo de 2h30 — e minha melhor marca era 2h32min30s.
Depois de muita insistência, fui aceita. Corri 2h29min27s, conquistei a vaga olímpica, bati o recorde brasileiro e sul-americano. Fui a única brasileira a representar o país na maratona olímpica em Londres.

Runners Brasil: E o Rio 2016… correr uma maratona olímpica em casa é um privilégio raro. Como foi viver isso?

Adriana da Silva : Correr os Jogos no Rio foi emocionante. A largada no Sambódromo tornou difícil segurar a emoção. Saí forte junto com as líderes africanas.
No km 35, passei mal por causa do calor, mas decidi terminar a prova em respeito à torcida, que me dava força de muito perto. Chegar ao Sambódromo, com os gritos do público emocionado, foi algo inesquecível.

São Silvestre – o coração da edição

Runners Brasil: Qual foi sua primeira São Silvestre?

Adriana da silva: Minha primeira participação foi em 1996, quando eu tinha 15 anos. Fui a 68ª colocada no geral.

Runners Brasil: Qual participação marcou mais a sua história?

Adriana da Silva: Em 2004, quando fui terceira colocada e, com a premiação, comprei uma casa para minha mãe.

Runners Brasil: A São Silvestre é muito mais do que uma corrida. O que ela representa para você?

Adriana da Silva: Sempre foi, para mim, a busca por melhores resultados dentro da minha profissão. Hoje, assim como para muitas pessoas, é a festa dos corredores, uma forma de celebrar o Réveillon fazendo o que mais gostamos.

Runners Brasil: Na sua opinião, qual é o segredo da longevidade da prova?

Adriana da Silva: A tradição e a história da corrida de rua, contada por todos que passam por ali.

Dor, depressão e renascimento

“A atividade física tem o poder de impactar profundamente a vida das pessoas, especialmente das mulheres, que lidam com muitos desafios”. – Adriana da Silva

Runners Brasil: Você já falou publicamente sobre períodos difíceis, inclusive de depressão. O que estava acontecendo naquele momento?

Adriana da Silva : Foram vários momentos da minha carreira. Um deles foi quando me lesionei e precisei passar por cirurgia, ficando dois anos sem correr. Achei que não voltaria a fazer aquilo que mais gostava e que era meu sustento.
Outro momento difícil foi a transição de carreira. Para mim, era como se eu estivesse morrendo. Não tinha vontade de sair de casa e sofria crises de falta de ar e medo. O suporte da família, do treinador e de profissionais como psicólogos e psiquiatras foi fundamental para minha recuperação.

Runners Brasil: Que papel a corrida teve nesse processo?

Adriana da Silva: A corrida me transformou em todos os aspectos. Nesses momentos, ela também foi fundamental. Hoje corro pela minha qualidade de vida e saúde mental. Sem a corrida, eu não saberia lidar com muitas questões da minha vida.

Runners Brasil: O que você diria para atletas — especialmente mulheres que vivem essa dor em silêncio?

Adriana da Silva : A atividade física tem o poder de impactar profundamente a vida das pessoas, especialmente das mulheres, que lidam com muitos desafios. Faça da atividade física uma aliada, incentive outras mulheres e busque o bem-estar.

Corpo, treino e mente

Runners Brasil: Como seu treinamento mudou ao longo dos anos?

Adriana da Silva: Quando eu era atleta, fazia um volume semanal de cerca de 220 km. Hoje treino cerca de 60% a menos. O trabalho de força, a alimentação e a recuperação fazem parte da minha rotina para manter uma vida ativa e saudável.

Runners Brasil: Há algo que você gostaria de ter aprendido antes?

Adriana da Silva: A saber lidar melhor com a ansiedade.

Runners Brasil: Qual o maior erro dos corredores brasileiros na preparação para provas longas?

Adriana da Silva: Não respeitar o processo e a orientação do treinador. Muitas vezes, as pessoas se preocupam mais com suplementos do que com o treino que realmente precisa ser feito.

Futuro, legado e propósito

Runners Brasil: Depois de tantos títulos, o que ainda te move?

Adriana da Silva : Hoje tenho um legado: o Instituto Enfrente, um projeto social que atende crianças e adolescentes de 7 a 17 anos por meio do atletismo, na comunidade de Paraisópolis, em São Paulo.

Runners Brasil: Você pensa em trabalhar com formação de novas atletas?

Adriana da Silva: Já trabalho com algumas e pretendo me capacitar ainda mais para aprimorar esse lado da minha carreira.

Runners Brasil: Que legado você quer deixar para as meninas que sonham em correr?

Adriana da Silva: Sou embaixadora da ASICS Brasil e temos desenvolvido ações voltadas para mulheres, como treinos especiais e bate-papos sobre temas relevantes para o público feminino.

Ping-pong final com Adriana da Silva

• Uma palavra que te define hoje: Orgulho.
• A prova mais difícil da sua vida: Rio 2016.
• A vitória mais emocionante: Jogos Pan-Americanos de Guadalajara 2011.
• Uma lembrança da São Silvestre: A subida da Brigadeiro, com a torcida me empurrando até a chegada.
• O que é a vida para você? Uma missão: entender o propósito e viver intensamente.
• O que é a corrida? O que me faz sentir viva.
• Uma mensagem para quem se inspira em você:

“É um privilégio ser inspiração. Isso me motiva a fazer tudo com muito carinho”.

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Dani Christoffer

Dani Christoffer

Editora Runners Brasil e Jornalista (Time Runners)

Jornalista Periodista • Maratonista VIVÍ MEJOR @ellitoral Editora-chefe Revista Runners Brasil