261 Fearless: Quando um Número Se Transforma em Movimento
Kathrine Switzer correu com o número 261 preso ao peito em 1967. Décadas depois, aquilo que começou como um símbolo de resistência ultrapassou a história e transformou-se num movimento global.
Hoje, o 261 Fearless atua em diferentes países utilizando a corrida não apenas como prática desportiva, mas como ferramenta de autoestima, liderança, conexão e transformação social feminina.
Mas como um número se tornou comunidade? Como uma história individual se transformou em milhares de histórias?
Para compreender o que existe hoje por trás do 261 Fearless, a Runners Brasil conversou com Edith Zuschmann, CEO do projeto e uma das pessoas responsáveis por transformar um símbolo histórico numa estrutura global de impacto.
Ao longo da conversa, Edith revela como a ideia nasceu, como mulheres são impactadas pelo projeto e qual é a grande missão para o futuro.
De Símbolo a Movimento Global
Runners Brasil: Edith, na sua visão, como o 261 Fearless evoluiu de uma história simbólica para um movimento global?
Edith Zuschmann: Há cerca de 14 anos tive a ideia de criar um grupo de corrida exclusivamente para mulheres porque percebia algo recorrente: sempre que convidava mulheres para correr comigo, muitas hesitavam ou recusavam.
Elas diziam, direta ou indiretamente:”Não sou boa o suficiente”, “Não sou rápida o suficiente” , ”Não tenho o perfil adequado”.
Existia sempre esse sentimento de não pertencimento. Sempre fui atleta. O esporte sempre foi tudo para mim, mas não pela competição em si. O que amo é estar em movimento, é onde encontro energia. É assim que recarrego minhas baterias.
Runners Brasil: E como surgiu a ideia que deu origem ao projeto?
Edith Zuschmann: Eu queria que outras mulheres também tivessem essa experiência, mas percebia que existia uma barreira emocional.
Então pensei: ”Precisa existir uma forma de quebrar essa barreira”.
Descobri que muitas mulheres não gostavam do ambiente competitivo e tinham medo de serem julgadas. Então imaginei um espaço seguro onde elas pudessem: aprender; correr; movimentar-se; sentir-se pertencentes; serem elas mesmas. Sem julgamentos, sem pressão, sem comparação.
Ao mesmo tempo, Kathrine compartilhava comigo algo que escutava constantemente: ”261 me faz sentir fearless”.
Então unimos essas duas coisas. O significado do número 261 e a criação de um espaço onde mulheres pudessem descobrir a própria força.
Perguntei à Kathrine: ”Posso chamar esse grupo de 261 Club?”. Ela respondeu: ”Sim. Faça isso.” E funcionou, as mulheres vieram.
“A corrida é apenas o veículo. O verdadeiro objetivo é transformação”. – Edith Zuschmann:
Muito Além da Corrida
Runners Brasil: Em que momento vocês perceberam que o projeto podia tornar-se algo muito maior?
Edith Zuschmann: Isso aconteceu em 2012, aqui na Áustria, quando eu e Kathrine começamos a conversar e a perguntar:
Como podemos crescer, como podemos levar isso para outros países?
Então, criamos um programa de formação para mulheres se tornarem treinadoras 261. Foi aí que nasceu a organização global sem fins lucrativos. Mas é importante entender que não é apenas um programa de corrida, é muito mais do que isso. A corrida é somente o veículo o meio de transformação.
O objetivo é ajudar mulheres a:
- tornarem-se líderes;
• aprenderem sobre saúde feminina;
• aprenderem sobre corrida feminina;
• fortalecerem a autoconfiança;
• criarem conexões locais e internacionais;
• ocuparem espaços de liderança.
“Agora temos um programa educacional estruturado para formar mulheres e torná-las treinadoras do 261, capazes de aplicar a metodologia do 261.”
O 261 Fearless hoje
- presente em 14 países;
• mais de 200 treinadoras;
• milhares de mulheres impactadas;
• programas de formação;
• liderança feminina;
• comunidades locais de apoio.
Como o Movimento Ganha Vida
Runners Brasil: Como esse crescimento aconteceu na prática? De que forma o 261 Fearless consegue chegar a diferentes países e comunidades?
Edith Zuschmann: Agora, isso foi há nove anos. Hoje temos clubes em 14 países, onde mais de duzentas mulheres são treinadoras e lideram grupos locais. Então isso veio de uma necessidade, de uma ideia e de uma inspiração, mas também de um trabalho estratégico intenso feito por Kathrine e por mim para realmente fazer acontecer. Também contamos com uma equipe incrível.
E hoje, para nós, também é incrível ver o tipo de impacto que esse programa gera. Não é algo que funciona como um plano de treino em que você se prepara para uma meia maratona, evolui durante três meses e depois termina. É algo em que você começa devagar.
Você pega uma mulher que nunca correu antes e a ajuda nos seus primeiros passos na corrida. Vai construindo, formando uma comunidade, criando confiança e depois vê as mulheres se transformando, tornando-se mais autoconfiantes ao perceberem o que conseguem alcançar.
“Se você consegue correr 1 quilômetro, consegue conquistar muito mais.” — Edith Zuschmann
Muito Além da Corrida: Como Funciona o Projeto
Runners Brasil: Quais mulheres podem participar do projeto atualmente?
Edith Zuschmann: Atualmente temos clubes 261 em 14 países. São clubes já estabelecidos onde mulheres podem candidatar-se para se tornarem treinadoras. Para passar pelo programa de formação, primeiro precisa existir um clube 261 naquele país.
Runners Brasil: E como nasce um novo clube?
Edith Zuschmann: Atualmente não existem clubes na Argentina nem no Brasil. Então precisaríamos começar do zero: formar uma equipe de mulheres, passar pelo processo de candidatura e treinamento de gestão e estruturar legalmente a organização.
Depois disso, podemos procurar mulheres interessadas em se tornar treinadoras.
Runners Brasil: É necessário ter formação em Educação Física para participar como treinadora?
Edith Zuschmann: Não.
Temos um programa interno de formação único. Muitas vezes, para liderar grupos de corrida, exige-se um diploma universitário ou certificações específicas. Queremos remover essa barreira e criar oportunidades para mulheres aprenderem o básico. Também oferecemos educação contínua. Quando você recebe o certificado, a jornada não termina.
Realizamos webinars regulares compartilhando pesquisas científicas recentes sobre saúde feminina e esporte.
O crescimento do 261 Fearless na América do Sul
Atualmente o movimento concentra esforços em:
- Chile
• Equador
• expansão futura para novos países
• formação de lideranças locais femininas
• remoção de barreiras financeiras
• criação de comunidades sustentáveis
A Primeira Transformação Acontece Dentro
Runners Brasil: Qual é a mudança mais visível que vocês observam nas mulheres que entram no projeto?
Edith Zuschmann: Simplesmente começam a acreditar em si mesmas. Muitas chegam tímidas, com medo, achando que vão atrasar o grupo, achando que serão as últimas.
Mas temos uma regra: A treinadora fica sempre atrás e ninguém fica para trás.
Esse sentimento de pertencimento cria um efeito em cadeia. E melhora a autoestima, aumenta a confiança, o ambiente familiar muda. Muitas se tornam mais curiosas sobre si mesmas, física e emocionalmente. E as treinadoras também passam por uma enorme transformação, entre elas: aprendem a liderar grupos sem medo e levam isso para a vida profissional e pessoal.
“Se você consegue correr 1 quilômetro, consegue alcançar muito mais.”
O Futuro do Movimento
Runners Brasil: Qual é a grande missão do 261 Fearless para a próxima década?
Edith Zuschmann: Queremos que a atividade física se torne parte natural da vida de todas as mulheres, derrubando barreiras, aproximando culturas e querendo chegar a lugares onde mulheres ainda não têm oportunidades e não chegaram ainda.
“É importante lembrar que “261” foi o número que Kathrine Switzer usou na Maratona de Boston de 1967. É um símbolo de ser fearless diante da adversidade. Queremos que as mulheres vivam esse “momento 261”, que sejam determinadas e acreditem em si mesmas mesmo quando as pessoas tentam impedi-las. A corrida é o veículo que usamos para ensinar esse poder”.
Kathrine Switzer abriu uma porta em 1967. Edith Zuschmann e milhares de mulheres ao redor do mundo continuam atravessando-a.
Porque talvez o verdadeiro poder do número 261 nunca tenha sido um número, mas talvez sempre tenha sido aquilo que acontece quando uma mulher descobre que é mais forte do que imaginava. passa acreditar no seu real potencial e o número passa a ser um símbolo de resistência e evolução.

