Nunca foi apenas sobre corrida. Foi sobre voltar a acreditar em si mesmo. Há alguns anos, Kelvin Yamamoto jamais imaginava viver o que vive hoje. Depois de enfrentar um período de depressão, isolamento, desgaste físico e mental, e chegar aos 110kg, o paulistano reencontrou na corrida — uma parceira da adolescência — um caminho para reconstruir a autoestima, recuperar a saúde e redescobrir a alegria de viver. Aos poucos, passou pelos processos que constroem um corredor: aprendeu, errou, insistiu, respeitou etapas e entendeu que vontade, sozinha, não basta para encarar uma maratona. Era preciso construir corpo e mente até se sentir pronto para os 42km. A estreia veio em Buenos Aires e, mais do que a emoção de cruzar a linha de chegada, mostrou a importância de ajustar a rota, lidar com o inesperado e seguir mesmo quando a prova — como a vida — não acontece como planejado. Depois de Buenos Aires, Kelvin viveu a Maratona de Paris e agora se prepara para buscar seu melhor momento em Porto Alegre. À Runners Brasil, ele fala sobre a decisão de correr longas distâncias, as estratégias para a primeira maratona, as lições que a corrida trouxe para sua vida, a importância de viver um ciclo com consciência e como, hoje, sua jornada inspira muita gente também pelas redes sociais.
Kelvin: Nasci em São Paulo e cresci na Zona Leste, entre a Vila Esperança e Itaquera. Mais tarde morei no Tatuapé e hoje vivo há alguns anos em Bragança Paulista com minha família.
Sabine Weiler: Quem era o Kelvin de 110 kg, e em que momento da vida a corrida apareceu e iniciou-se um processo de transformação?
Kelvin Yamamoto: Sempre gostei muito de esporte. Desde adolescente eu corria de forma recreativa, mais pela sensação de liberdade do que pensando em performance. A corrida fazia parte da minha vida naturalmente até por volta dos 23 anos. Depois vieram trabalho, responsabilidades, morar sozinho… e aos poucos fui deixando aquilo de lado. Por volta dos 26, 27 anos vivi uma fase de depressão muito intensa. Eu praticamente existia no automático. Saía da cama apenas para cumprir minimamente minhas responsabilidades e depois voltava para um estado muito solitário. Me isolei bastante naquele período. E foi justamente aí que a corrida reapareceu. No começo não foi prazer. Foi sobrevivência. Eu percebia que, enquanto corria meus pensamentos fluíam melhor, então comecei a criar quase um protocolo pessoal para tentar vencer aquele estado mental em que eu me encontrava. Por muito tempo a corrida não era algo bonito para mim. Era quase como uma pílula que adiava a dor e evitava que eu pudesse fazer mal a mim mesmo. Mas continuei. Com muita persistência e esperança de voltar a viver, fui insistindo até que um dia comecei a sentir prazer naquilo que antes era apenas sobrevivência. E assim a corrida me salvou pela primeira vez. Anos depois, já casado, vivendo uma vida mais estável, vieram os quilos extras. E isso acontece muito sem a gente perceber. Quando vi, estava com 110 kg. O mais curioso é que a gente nem sempre consegue enxergar o quanto está fora do próprio eixo. Eu sentia indisposição, dificuldade para me movimentar, desânimo… mas parecia algo “normal”. Então veio a pandemia e tudo piorou. Minha saúde física e mental começaram novamente a dar sinais muito claros de desgaste. E mais uma vez eu me lembrei da minha velha amiga: a corrida. Ela me devolveu saúde, autoestima, disciplina e principalmente alegria de viver. Nada disso foi fácil. Nunca foi. Mas aprendi que persistência e propósito conseguem mudar completamente uma vida.
Sabine: Quanto tempo se passou entre o seu primeiro trote e o instante em que a palavra “maratona” passou a ser realidade na sua cabeça? Como essa ideia foi amadurecendo dentro de você?
Kelvin: Entre voltar a correr de forma consistente e entender que a maratona poderia acontecer foram cerca de dois anos e meio. Hoje, olhando para trás considero um tempo relativamente curto, mas possível quando você tem estrutura, acompanhamento profissional e principalmente paciência para construir as coisas. Em 2024, a vontade da maratona começou a nascer muito forte no meu coração, mas eu sabia que ainda não era a hora. E acho que esse foi um dos maiores sinais de amadurecimento que a corrida me trouxe: entender que querer não significa necessariamente estar pronto. Eu precisava viver mais o processo. Precisava ganhar experiência. Precisava errar. Precisava aprender. Então fui construindo aos poucos. Passei pelos erros que praticamente todo corredor comete: marcar provas demais, querer acelerar etapas, tentar distâncias desafiadoras antes da hora… e isso também faz parte da jornada. A maratona começou como um sonho distante, mas foi deixando de parecer impossível conforme fui amadurecendo física e mentalmente.
Sabine: Qual foi a sua primeira maratona, onde e quando? E o que pesou na escolha dela? Foi planejamento estratégico, indicação ou alguma história com a cidade?
Kelvin: Minha primeira maratona foi em Buenos Aires. E escolher Buenos Aires teve muito mais relação com afeto do que apenas estratégia. Quando eu era mais novo, passei um período de férias viajando sozinho de mochila pela América do Sul. Guardava dinheiro para conhecer lugares novos e a Argentina foi o primeiro país pelo qual realmente me apaixonei. Buenos Aires sempre mexeu muito comigo. Era um lugar que carregava memórias de juventude, liberdade, descobertas e sonhos. Então, quando percebi que a prova reunia uma cidade que eu amava, uma maratona linda e uma altimetria amigável para a estreia, senti que aquela oportunidade não podia escapar. A preparação foi extremamente intensa. Foi um ciclo cheio de dores, inseguranças, frustrações, desânimo em alguns momentos e euforia em tantos outros. Uma mistura de sensações que só quem vive um ciclo de maratona entende. Quando cheguei em Buenos Aires, o clima era uma mistura de apreensão, festa, alegria, ansiedade e nervosismo. E a prova foi exatamente como a vida costuma ser: imprevisível. Choveu. Ventou forte. Fez frio. Depois saiu sol. Parecia que a cidade queria testar emocionalmente cada corredor que estava ali. Quebrei no famoso muro dos 30 km. E naquele momento percebi o quanto os dias de treino solitário tinham fortalecido minha mente. Prometi para mim mesmo que não andaria. Reduzi o ritmo, reorganizei a cabeça e segui. Cruzei a linha de chegada em 3h38 na minha primeira maratona. E foi uma explosão emocional muito difícil de explicar. Acho que naquele dia descobri que chorar e tentar falar ao mesmo tempo pode ser tão difícil quanto correr 42 quilômetros.
Sabine: Como você enxerga hoje o “muro” da maratona?
Kelvin: Acho que ele é muito mais complexo do que apenas uma quebra física. Hoje, vejo o muro muito ligado à gestão emocional, energética e mental da prova. A maratona cobra tudo que você negligenciou durante o ciclo.
Sabine: Como você avaliou que se o seu corpo já estava pronto iniciar a preparação para os 42 km, e não apenas a sua vontade? Existe algum sinal objetivo que separa o “estou animado” do “estou preparado”?
Kelvin: Eu decidi com bastante antecedência justamente porque queria respeitar o processo. A maratona exige humildade. Existe uma diferença muito grande entre estar empolgado e estar preparado. Eu sentia vontade de correr uma maratona antes mesmo de realmente estar pronto para ela. Mas entendi que precisava construir meu corpo e minha mente antes. O sinal mais claro para mim foi quando comecei a correr meias maratonas e terminar me sentindo vivo, inteiro, saudável, com vontade de continuar treinando. A cabeça estava boa. O corpo respondia bem. O mental entendia que dobrar a distância exigiria ainda mais construção. E acho que esse entendimento muda tudo. A maratona não premia ansiedade. Ela premia consistência.
Sabine: Como você encaixou os treinos de maratona dentro da rotina real — trabalho, família, vida pessoal? O que precisou ser ajustado, sacrificado ou renegociado para o ciclo de treinos?
Kelvin: Essa talvez seja uma das partes mais difíceis da maratona para quem vive uma vida real. Porque a maratona não acontece só no treino. Ela muda rotina, prioridades e até escolhas simples do dia a dia. Em algum momento você vai escolher um longão solitário em vez de um churrasco com a família. Vai deixar de sair para jantar porque no dia seguinte tem 30 km para correr. Vai deixar de comprar algo que daria prazer imediato para investir em inscrição, suplemento, tênis, viagem ou hotel. A maratona exige energia física, emocional e financeira. E por isso ter apoio das pessoas certas faz toda a diferença. Ter minha esposa ao meu lado entendendo esse momento foi fundamental para que tudo acontecesse de forma saudável. Porque correr 42 km nunca é uma conquista totalmente individual.
Sabine: Força, mobilidade, fisioterapia… o que entrou no seu processo de preparação que não estava no radar do corredor iniciante, e que hoje você mantém como parte do treinamento?
Kelvin: No começo, eu achava que correr melhor significava apenas correr mais. Hoje, entendo que longevidade na corrida depende de um ecossistema inteiro funcionando bem. Fortalecimento, mobilidade, sono, alimentação, recuperação… tudo isso deixou de ser detalhe. Antes, eu via treino de força e mobilidade como algo chato, quase uma obrigação sem sentido. Hoje, vejo como ferramentas fundamentais para continuar fazendo o que amo por muito tempo. A grande virada de chave foi entender que descanso também é treino. E que treinos leves sustentam a evolução por muito mais tempo do que heroísmos isolados.
Sabine: O que mudou da sua primeira maratona para a segunda? O que você fez diferente?
Kelvin: A maior mudança aconteceu na mente. A primeira maratona foi muito baseada na emoção. A segunda já veio com mais maturidade. Hoje, entendo muito melhor o processo. Passei a cuidar mais do sono, da alimentação, da recuperação e principalmente da constância. Também comecei um trabalho com psicólogo do esporte para aprender a lidar melhor com ansiedade, expectativa e estratégia mental de prova. A maratona ensina que não adianta estar forte apenas fisicamente. Sua mente define como você reage quando as coisas não acontecem como o planejado.
Sabine: A largada de uma maratona concentra medo, ansiedade e euforia ao mesmo tempo. Como você administra esse furacão emocional, especialmente nos primeiros quilômetros, quando o corpo quer correr mais do que deveria?
Kelvin: Quem nunca queimou largada por causa da euforia provavelmente ainda vai passar por isso algum dia. A energia da largada é algo muito difícil de controlar. Você treinou meses para aquele momento, a adrenalina está alta, todo mundo parece leve… e é muito fácil correr mais rápido do que deveria. Hoje, eu consigo lidar melhor com isso justamente por causa do amadurecimento mental que a corrida me trouxe. O trabalho com psicólogo do esporte me ajudou muito a criar ferramentas mentais para determinadas situações dependendo do objetivo da prova. Porque existem provas em que você vai para performar. E existem provas em que você simplesmente vai para viver a experiência. Entender essa diferença mudou minha relação com a corrida.
Sabine: Qual foi a melhor decisão que você já tomou durante uma maratona que mudou o plano em tempo real e que fez diferença no resultado ou na forma como você terminou?
Kelvin: A melhor decisão foi aceitar que eu não controlava tudo. Na minha primeira maratona eu tentei controlar absolutamente cada detalhe: clima, suplementação, estratégia, ritmo, percurso. E, no dia, deu tudo diferente. O clima mudou o tempo inteiro. O corpo reagiu diferente. A prova aconteceu de outra forma. E eu sofri emocionalmente tentando lutar contra aquilo. Hoje, entendo que não controlamos quase nada além das nossas ações. Então procuro me preparar mentalmente para reagir bem mesmo quando a prova não começa ou não acontece como imaginei. Isso mudou completamente minha forma de correr.
Sabine: Quanto tempo depois de cruzar a linha de chegada você já estava pensando na sua segunda maratona? E o que motivou esse retorno?
Kelvin: Acho que poucos minutos depois. Cruzar aquela linha de chegada mexeu comigo de um jeito muito profundo. Não era apenas sobre tempo. Era sobre tudo que aquela prova representava na minha vida. Depois da maratona, pensei muito em reviver aquela sensação novamente. E nesse processo acabei levando minha esposa comigo para dentro desse universo da corrida de uma forma muito intensa. Então, começamos a sonhar juntos com Paris. E viver a maratona ao lado dela tornou tudo ainda mais especial.
Sabine: Qual foi a maior lição da sua primeira maratona — aquela que você carrega até hoje, treino após treino?
Kelvin: A maior lição foi entender que não controlamos nada além das nossas ações. Durante a preparação, eu criei expectativa para tudo. Ensaiava clima. Rota. Suplementação. Estratégia. E, no dia, nada saiu exatamente como imaginei. Hoje, entendo que, dentro do que está ao nosso alcance, precisamos fazer o nosso melhor. Mas também precisamos aprender a lidar com o inesperado. Isso vale para a corrida e para a vida.
Sabine: Você se tornou referência para muita gente que está começando a correr ou mesmo pensando na primeira maratona. Quando você decide o que postar no Instagram @vimcorrer, o que pesa mais: contar a sua jornada, ensinar algo prático ou inspirar quem te assiste do outro lado da tela?
Kelvin: O Instagram começou quase como um diário pessoal. Eu queria me manter forte e motivado durante a preparação da minha primeira maratona. Nunca imaginei que aquilo fosse alcançar tantas pessoas. E acho que justamente por isso deu certo. Porque nunca tentei parecer um personagem. Hoje, tenho amigos, parceiros e pessoas que caminham comigo diariamente nessa jornada através da internet. Eu não tenho assuntos totalmente planejados. Muitas vezes, eu simplesmente ligo a câmera e falo sobre o que estou sentindo ou observando dentro do universo da corrida. Procuro mostrar a realidade de quem corre e vive desafios diários. Meu conteúdo nunca foi apenas sobre pace ou prova. Ele sempre foi sobre recomeço. Sobre saúde mental. Sobre voltar a acreditar em si mesmo. Sobre entender que ainda dá tempo de mudar a vida.
Sabine: Para quem vai encarar a primeira maratona ainda esse ano, qual decisão inteligente, na sua visão, vale mais do que qualquer planilha de treino?
Kelvin: Escolher bem a experiência. A primeira maratona precisa ser vivida. Escolha um lugar que encha seus olhos, uma prova que faça sentido emocionalmente para você e que também tenha uma altimetria que não coloque todo seu primeiro ciclo em risco. Tenha paciência com o processo. Acredite em você. E principalmente: cuide da sua saúde. Faça exames. Procure um nutricionista de confiança. Treine com um profissional qualificado. Às vezes, parece exagero, mas todos esses detalhes fazem parte de um ecossistema extremamente importante. A maratona é linda, mas precisa ser respeitada.
Sabine: Hoje, em busca do sub-3 na Maratona de Porto Alegre, o que aqueles primeiros 42km ainda te ensinam?
Kelvin: Eles ainda me ensinam humildade. Porque independentemente do pace, da experiência ou do objetivo, os 42 km continuam exigindo respeito. Hoje, busco um sub-3 que anos atrás eu jamais imaginaria tentar. Na verdade, houve um período da minha vida em que eu sequer imaginava correr uma maratona. Então, quando olho para trás e lembro do homem de 110 kg, da depressão, do isolamento e de tudo que vivi… percebo que o caminho em si já é uma vitória gigantesca. Claro que quero o sub-3. Treino e me dedico muito para isso. Mas também entendo que um dia Boston vai chegar. Cedo ou tarde. Tenho muita fé nisso.
Sabine: Se a maratona não é sobre pressa, e sim sobre construção, qual frase resume hoje, para você, o sentido de correr 42 quilômetros pela primeira vez?
Kelvin: “Correr uma maratona pela primeira vez é entender que a linha de chegada nunca foi apenas sobre corrida. Era sobre voltar a acreditar em mim mesmo.”

