Tem dia que o despertador toca e a vontade de treinar simplesmente não existe.
O corpo está cansado. A mente também.
Mas a planilha continua lá, junto com a “prova alvo”
E talvez seja justamente aí que a preparação para uma maratona mais se parece com a vida profissional: evolução raramente acontece nos dias fáceis.
Minha primeira preparação para uma maratona aconteceu entre 2018 e 2019, para a São Paulo City Marathon.
Na época, eu ainda estava aprendendo o que realmente significa sustentar um objetivo grande por muitos meses. Não era apenas correr. Era alinhar agenda de trabalho, treinos, vida social, descanso e saúde mental.
E foi nesse processo que aprendi uma das lições mais importantes da minha trajetória.
Algumas semanas antes da prova, durante meu primeiro treino longo de 30 quilômetros, eu “quebrei”.
O corpo simplesmente não respondeu.
Depois disso veio a descoberta: bursite no quadril e junto dela, uma verdade difícil de ignorar.
Eu havia negligenciado os treinos de fortalecimento de pernas. Eu queria correr bem, mas ignorava parte do processo que sustentava a corrida.
Aquilo mudou minha visão completamente.
Desde então, o fortalecimento na academia deixou de ser opcional. Passou a ser sagrado. Disciplina.
Porque a maratona ensina rápido que resultado sem estrutura não se sustenta por muito tempo.
E essa lógica vale também para a carreira.
Muita gente quer crescer profissionalmente, mas ignora os “fortalecimentos” invisíveis da vida corporativa: disciplina, preparo emocional, constância, comunicação, saúde física e mental.
Queremos performance, mas às vezes negligenciamos a base que sustenta essa performance.
Anos depois, veio minha segunda preparação, para a Santiago Marathon, entre 2021 e 2022 e dessa vez o desafio era outro.
Ainda estávamos colhendo os impactos da pandemia. A volta progressiva ao escritório trazia insegurança, como gestor , percebi que o meu time estava emocionalmente desconectado e existia uma preocupação constante sobre o futuro da empresa.
Ao mesmo tempo, eu carregava uma meta pessoal: concluir a maratona abaixo de 4h20 e conciliar tudo isso não foi simples.
Porque diferente do que muita gente imagina, disciplina não aparece apenas quando tudo está organizado.
Na verdade, ela se torna mais necessária justamente nos períodos de caos.
Treinar com o emocional abalado exige maturidade.
Continuar mesmo cansado mentalmente exige propósito e existe uma diferença importante entre motivação e disciplina.
Motivação oscila, disciplina sustenta.
Nem todo treino foi bom naquela preparação. Alguns foram pesados física e emocionalmente. Mas aprendi que consistência não significa perfeição; significa continuar.
A maratona também ensina algo que o mundo atual parece ter desaprendido: respeitar processos longos.
Hoje, as pessoas querem resultados rápidos, crescimento imediato e reconhecimento instantâneo.
Mas tanto na corrida quanto na carreira, evolução sólida demora.
O corpo precisa de adaptação, a mente também.
Talvez por isso corredores desenvolvam uma relação diferente com o tempo. A maratona ensina paciência, estratégia e resiliência de uma forma que poucas experiências conseguem ensinar.
E no fim, percebi que completar uma maratona nunca foi apenas sobre cruzar uma linha de chegada.
Era sobre quem eu precisava me tornar durante o caminho.
Porque no trabalho, no esporte e na vida, disciplina não é fazer apenas o que gosta e sim, continuar comprometido mesmo quando o cenário deixa de ser confortável.
E talvez seja exatamente isso que separa quem começa de quem realmente evolui.

