Nutrição Esportiva

Vou correr uma maratona e agora nutri?

Por: Ana Kist Edição 61 - maio 2026
Vou correr uma maratona e agora nutri?

A maratona costuma ser romantizada como uma prova de superação. E ela é. Mas, antes disso, ela é um enorme estresse fisiológico. O corpo humano não foi feito para correr 42 km em alta intensidade sem consequências.

Mas calma, a nutri aqui já correu 6 maratonas e a boa notícia é que alimentação, hidratação, treinamento e recuperação adequados conseguem sim minimizar boa parte desse impacto e você vai sair vivo disso!

Para quem vai correr sua primeira maratona, maturidade vale mais do que pressa. Não é sobre “sobreviver” aos 42 km. É sobre construir um corpo capaz de tolerar o processo com o menor desgaste possível.

Na nutrição esportiva, isso começa com uma mudança importante de mentalidade: durante a preparação para a maratona, carboidrato deixa de ser vilão e passa a ser ferramenta. Já a proteína continua importante, mas com foco em recuperação muscular, sem excessos desnecessários. E por último, mas não menos importante, a gordura boa diminui, mas não sai do prato (muita atenção aqui mulherada).

  1. Como estruturar a alimentação para treinos longos com segurança

Todo mundo já sabe que o principal combustível da maratona é o glicogênio muscular, armazenado a partir do consumo de carboidratos. Massss, quando ele acaba, surgem fadiga intensa, queda brusca de rendimento, dificuldade de concentração e aumento importante do estresse fisiológico.

A literatura científica é bastante consistente em mostrar que provas e treinos longos dependem prioritariamente da disponibilidade de carboidrato. 

Por isso, em ciclos de maratona, a prioridade nutricional deve ser:

* Garantir disponibilidade energética;

* Reduzir dano muscular excessivo;

* Minimizar risco gastrointestinal e imunológico.

Na prática, isso significa que muitos corredores precisam aumentar a ingestão de carboidratos ao longo da semana e, não apenas nos dias que antecedem longões e treinos de pista. É justamente aqui que mora o perigo. Não adianta fazer low carb durante a semana e tentar ingerir 90g/h de carbo no treino longo. Você certamente não irá sair ileso (nem limpo) disso.. (risos)

O erro mais comum de quem estreia na maratona é tentar sustentar alto volume de treino com alimentação insuficiente, excesso de restrição ou foco exagerado em proteína. No endurance, proteína reconstrói. Quem sustenta performance é carboidrato e fim.

As recomendações para corredores de endurance variam conforme volume e intensidade do treinamento:

Treinos moderados (cerca de 1h/dia): 5–7 g/kg/dia de carboidrato

Alto volume (1–3h/dia): 6–10 g/kg/dia

Treinos extremos ou múltiplas sessões longas: 8–12 g/kg/dia

Isso é individual e precisa ser calculado!

Proteína: recuperação muscular sem excessos

Na preparação para maratona, proteína não deve ser negligenciada, mas também não precisa ocupar o centro da estratégia alimentar.

Seu principal papel é:

* reconstrução muscular, recuperação e suporte imunológico.

As recomendações atuais para corredores de endurance ficam entre:

* 1,2–2,0 g/kg/dia de proteína

Na prática:

* corredores recreacionais costumam responder bem entre 1,4–1,6 g/kg;

* fases de maior desgaste ou déficit energético podem exigir valores mais altos.

Excesso proteico, especialmente quando substitui carboidrato, pode prejudicar

recuperação e disponibilidade energética para treinos longos.

Gorduras: equilíbrio hormonal e suporte energético

A gordura não deve ser excluída da alimentação do corredor. Ela participa de:

* produção hormonal;

* absorção de vitaminas lipossolúveis;

* saúde celular;

Dietas excessivamente restritivas em gordura podem prejudicar recuperação, imunidade e produção hormonal, especialmente em mulheres atletas (muita atenção aqui).

  1. O que comer antes, durante e depois do longão

Dias de maior volume, priorizar:

* aumento de carboidrato;

* hidratação adequada;

* distribuição alimentar ao longo do dia.

Antes do longão

* 1–4 g/kg de carboidrato entre 1 e 4 horas antes do treino;

* pouca gordura e fibra para evitar desconforto gastrointestinal.

O objetivo é chegar abastecido, mas sem desconforto gastrointestinal.

A refeição ideal costuma priorizar:

* carboidratos de fácil digestão, baixo teor de gordura, pouca fibra e hidratação adequada.

Exemplos simples:

* pão com mel ou geleia;

* banana com aveia;

* tapioca;

* suco de uva

Quanto mais longo e intenso o treino, menos sentido faz começar em jejum viu?!

Durante o treino

Para exercícios acima de 90 minutos:

* 30–60 g de carboidrato/hora;

* podendo chegar a 90-120 g/h em atletas treinados intestinalmente.

É aqui que muitos iniciantes erram. Treino longo também é treino gastrointestinal. O intestino precisa aprender a tolerar carboidrato correndo. As recomendações atuais sugerem cerca de 30–60 g de carboidrato por hora em exercícios prolongados, podendo chegar a 90-120 g/h em esforços mais longos e atletas muito treinados para isso.

Isso pode vir de:

* géis, gomas ou suplemento líquido de carbo (muitas versões no mercado).

O melhor protocolo é sempre o mais tolerável individualmente. Outro ponto importante:

hidratação não é só água. Em provas longas, sódio ajuda a manter performance e

reduzir risco de hiponatremia e queda importante de rendimento.

Pós-treino

Nas primeiras horas:

* carboidrato + proteína;

O foco é em reposição de glicogênio e reparo muscular.

O ideal é combinar ncarboidrato + proteína em quantidade moderada + líquidos e eletrólitos.

Exemplos práticos:

* whey + fruta + aveia;

* iogurte + granola + mel;

* Recovery 3:1

Não existe necessidade de exagerar na proteína. O foco continua sendo recuperar energia disponível para os próximos treinos.

  1. Estratégias simples de nutrição para quem vai correr sua primeira maratona

Não é o momento de testar dietas radicais ou cortar carboidrato! Também não aconselho inventar moda ou copiar protocolo de atleta profissional.. O básico bem feito ainda funciona melhor:

A maratona cobra qualquer detalhe negligenciado. Isso é sério.

Outro ponto importante: terminar uma maratona destruído não deveria ser

romantizado. Existe diferença entre desafio e negligência. A alimentação não transforma a maratona em algo “saudável”. Mas ajuda o corpo a tolerar melhor um estresse extremamente alto.

E talvez essa seja a visão mais madura sobre os 42 km:

Procure um treinador de confiança, uma nutricionista que viva o esporte e um bom fisioterapeuta!

Um beijo e nos vemos em junho!

Fontes principais: American College of Sports Medicine (ACSM), revisões sobre metabolismo de carboidratos em endurance, PubMed e literatura de nutrição esportiva aplicada à maratona.

Ana Kist

Ana Kist

Nutricionista (Time Runners)

Nutricionista