Q&A

Q&A com Kiko dos Santos

Por: Sabine Weiler Edição 60 - abril 2026
Q&A com Kiko dos Santos

Pioneiro do trail run no Brasil, Kiko dos Santos ajudou a consolidar uma modalidade que hoje mobiliza atletas em busca de desafio, natureza e experiências transformadoras. Desde a criação do Mountain Do, em Florianópolis, em 2003, ele vem ampliando fronteiras com provas que combinam operação complexa, segurança, curadoria minuciosa de percursos e destinos com uma beleza incrível e que proporcionam uma experiência sensorial única. Ao longo de 23 anos de trajetória, a marca expandiu sua presença pelo Brasil e pelo exterior, levando o trail run a biomas inéditos e cenários extremos, sem perder a essência que a tornou referência no mercado. Mais do que acompanhar o crescimento da modalidade, Kiko participou ativamente dessa construção, apostando em criatividade, inovação, autenticidade e excelência. Nesta entrevista à Runners Brasil, Kiko conta como transformou uma ideia ousada em uma marca reconhecida dentro e fora do país, o que o move a inovar a cada novo destino, como o Mountain Do marca a trajetória dos atletas e de que forma os aprendizados das Olimpíadas de Inverno reforçam a segurança e a experiência das provas da marca.

Sabine Weiler: O que um voo de parapente em Lucerna, na Suíça, em 1996, despertou no Kiko, o desejo de criar uma marca que hoje é referência no Brasil e vem se destacando no mundo? 

Kiko dos Santos: Aquele voo de parapente na Suíça foi um divisor de águas na minha vida. Lá de cima, observando a imensidão dos Alpes, a natureza intocada e a forma como as pessoas interagiam com aquele ambiente de maneira tão respeitosa e aventureira, eu senti uma conexão profunda. Percebi que o esporte não precisava estar confinado ao asfalto ou a ambientes controlados. Ele poderia ser uma ferramenta de imersão na natureza. Foi ali que nasceu a semente do Mountain Do. Eu queria trazer para o Brasil essa experiência de liberdade, de superação em meio a cenários deslumbrantes, e criar algo que não fosse apenas uma corrida, mas uma verdadeira jornada de conexão entre o atleta e o meio ambiente. 

Sabine: O Mountain Do começou em Florianópolis com uma prova de revezamento em 2003 e hoje tem um calendário com mais de 10 eventos em três continentes. Essa expansão foi planejada desde o início ou aconteceu naturalmente com o crescimento do trail run no Brasil? 

Kiko: Foi uma mistura de sonho com evolução natural. Quando começamos em 2003, na Lagoa da Conceição, o trail run como conhecemos hoje ainda engatinhava no Brasil. A ideia inicial era simplesmente proporcionar uma experiência diferente, correndo em trilhas, dunas e praias. Mas a resposta dos atletas foi tão apaixonada que percebemos que havia um desejo reprimido por esse tipo de desafio. A expansão não foi um plano de negócios rígido desde o dia um, mas sim uma resposta à nossa própria inquietude e ao pedido dos corredores que queriam explorar novos horizontes. Fomos crescendo junto com o esporte, sempre buscando o próximo cenário incrível para desafiar nossos atletas. 

Sabine: Hoje o Mountain Do opera em circuitos distintos — o Raízes, com provas nacionais como Praia do Rosa, Costão do Santinho, Selva Amazônica, Campos do Jordão, Fernando de Noronha, Chapada dos Veadeiros e Pantanal; o Elements, com Atacama, Sahara e Fim do Mundo; e o Explorer, com o Mont Blanc. Essa divisão foi uma decisão estratégica para atender diferentes perfis de corredor? 

Kiko: Exatamente. Com o tempo, percebemos que a nossa comunidade de corredores é muito diversa. Temos desde o atleta que está começando nas trilhas e quer explorar as belezas do nosso país, até aquele corredor experiente que busca desafios extremos em condições climáticas e geográficas severas. A criação dos circuitos Raízes, Elements e Explorer foi uma forma de organizar essas experiências. O Raízes celebra a nossa terra, a diversidade dos biomas brasileiros, uma oportunidade de o corredor conhecer a fundo a natureza do nosso país. O Elements é para quem quer contemplar uma experiência marcante, como disse um atleta uma vez no Atacama “se você quer deixar um legado”, testando seus limites em desafios impostos pela força da natureza por mais diversos locais do mundo. E o Explorer é a nossa expedição, uma jornada em grupo de contemplação, conexão e amizade, em desafios inéditos como a travessia do Mont Blanc. Assim, conseguimos oferecer uma jornada de evolução para o atleta dentro do próprio Mountain Do. 

Sabine: No Brasil, vocês estão entrando em biomas que nunca tiveram tradição de trail run — Amazônia, Chapada dos Veadeiros, e o Pantanal. É uma missão de levar o trail para todos os cantos do país ou esses destinos foram surgindo por oportunidade? 

Kiko: É definitivamente uma missão. O Brasil tem uma riqueza natural incomparável, e por muito tempo o trail run ficou concentrado no Sul e Sudeste. Nós queríamos mudar isso. Levar o Mountain Do para a Amazônia, Chapada dos Veadeiros e Pantanal é uma forma de mostrar aos brasileiros e ao mundo a grandiosidade desses biomas por meio do esporte. Claro que as oportunidades surgem, mas há um esforço ativo da nossa parte em desbravar esses territórios. Queremos que o corredor sinta a umidade da selva, a energia do cerrado e a vastidão das planícies alagadas. É sobre valorizar o que é nosso e criar uma consciência ambiental através da vivência. 

Sabine: Depois da Amazônia em 2024, agora vem o Mountain Do Chapada dos Veadeiros e Pantanal. O que te atraiu nesses biomas e como está sendo a preparação para as primeiras edições de cada etapa? 

A Chapada dos Veadeiros tem uma energia mística, um relevo antigo e cachoeiras que são verdadeiros santuários. Já o Pantanal oferece uma imersão na vida selvagem que é única no planeta. O que me atraiu foi justamente o contraste e a crueza desses lugares. A preparação, no entanto, é um desafio logístico imenso. Estamos lidando com áreas de preservação, clima imprevisível e a necessidade de minimizar ao máximo nosso impacto. Temos feito muitas visitas técnicas, conversado com as comunidades locais e ajustado os percursos para garantir a segurança dos atletas e a preservação do meio ambiente. Vai ser épico. 

Sabine: Em 2012, com menos de dez anos de marca e enquanto a maioria dos organizadores de trail no Brasil ainda tentava consolidar provas locais, vocês foram para o Deserto do Atacama. De lá vieram o Sahara, a Patagônia na neve, o Vale dos Incas, o Mont Blanc. De onde vem essa inquietude constante de buscar territórios extremos para o trail — e o que te dava segurança para dar cada um desses passos? 

Kiko: A inquietude faz parte do DNA do Mountain Do e do meu próprio espírito aventureiro. Eu sempre acreditei que a zona de conforto é o fim da criatividade. Ir para o Atacama em 2012 foi uma loucura para a época, mas nós sentíamos que estávamos prontos para entregar uma experiência internacional com a qualidade e o calor humano que o brasileiro tem. A segurança vinha de muito planejamento, de uma equipe extremamente competente e, principalmente, da confiança que os atletas depositavam em nós. Cada passo internacional foi dado com muito estudo de campo e respeito pela cultura e geografia local. 

Sabine: Você foi voluntário nas Olimpíadas de Inverno de 2026. O que essa experiência te ensinou sobre organização de eventos em condições extremas — e o quanto desse aprendizado você traz para as provas do Mountain Do na neve, como o Fim do Mundo em Ushuaia? 

Kiko: Ser voluntário nas Olimpíadas de Inverno foi uma verdadeira escola de excelência e gestão de crises. Aprendi que em condições extremas, como o frio intenso e a neve, a margem para erro é zero. A logística precisa ser impecável, desde o resgate médico até o aquecimento dos staffs. Trouxe muito desse rigor operacional para o Mountain Do Fim do Mundo. No Ushuaia, lidamos com hipotermia, mudanças bruscas de tempo e terrenos escorregadios. A experiência olímpica me ensinou a antecipar cenários e a criar protocolos de segurança que garantem que o atleta possa focar apenas em correr e apreciar a paisagem, sabendo que há uma estrutura robusta cuidando dele. 

Sabine: Levar uma marca brasileira para o exterior é uma coisa, mas competir num mercado onde já existem provas gigantes e consolidadas de trail run é outra. Qual é o maior desafio de colocar o Mountain Do ao lado de marcas internacionais que já são referência no cenário mundial? 

Kiko: O maior desafio é provar que uma marca nascida no Brasil tem a mesma excelência técnica e operacional das gigantes europeias ou americanas, mas com um diferencial que só nós temos: a hospitalidade e a energia brasileira. Nós não queremos ser apenas mais uma prova no calendário internacional; queremos ser a prova onde o atleta se sente acolhido, onde o staff sorri e vibra com ele. Competir com as grandes marcas exige investimento, networking e uma entrega impecável, mas o nosso “tempero” humano é o que nos destaca e fideliza corredores de várias partes do mundo. 

Sabine: De todos esses destinos, qual foi o mais difícil de viabilizar e por quê? 

Kiko: Sem dúvida, o Mountain Do Deserto do Atacama. A logística de operar no Chile, em uma das regiões mais áridas do planeta, é brutal. Estamos falando de um ambiente extremo onde a altitude, a falta de oxigênio e as temperaturas que variam drasticamente entre o dia e a noite criam um cenário praticamente lunar. Levar água, montar acampamentos, garantir a comunicação e a segurança médica em um deserto onde a infraestrutura é praticamente inexistente, onde o ar é tão seco que resseca até as mucosas… foi um teste de fogo para toda a equipe. Tivemos que aprender a lidar com a altitude, com possíveis casos de soroche (mal da altitude) e com um terreno que muda constantemente. Mas ver os atletas cruzando a linha de chegada com as montanhas nevadas dos Andes ao fundo fez cada noite sem dormir valer a pena. 

Sabine: Realizar uma corrida de trail run em locais extremos é completamente diferente de uma corrida de rua. Qual foi a prova mais desafiadora do ponto de vista operacional e qual mais surpreendeu positivamente os atletas?

 

Kiko: Do ponto de vista operacional, a Selva Amazônica foi um gigante. A umidade, a chuva constante, a logística de barcos e a necessidade de abrir trilhas em mata fechada exigiram um esforço hercúleo. Já a que mais surpreendeu positivamente os atletas, eu diria que foi o Fim do Mundo. Muitos brasileiros nunca tinham visto neve, muito menos corrido nela. A sensação de correr com o visual dos Andes nevados em meio a um mar branco e gelado criam uma atmosfera mágica. A superação do frio extremo gera uma emoção na linha de chegada que é difícil de descrever. 

Sabine: Organizar eventos em desertos, selvas e montanhas com neve exige viagens, reconhecimento de terreno, logística pesada. Quanto tempo leva para idealizar uma prova até a primeira edição? 

Kiko: É um processo longo e meticuloso. Em média, levamos de 18 a 24 meses desde a ideia inicial até o tiro de largada da primeira edição. Isso envolve múltiplas viagens de reconhecimento, negociações com governos locais, mapeamento de rotas com GPS, estudos de impacto ambiental, contratação de fornecedores locais e a criação de todo o plano de contingência e resgate. Não dá para improvisar quando você está levando centenas de pessoas para o meio do Sahara ou para a Amazônia. 

Sabine: O Mountain Do se posiciona como uma experiência transformadora — uma jornada sensorial que vai muito além de cruzar uma linha de chegada. Na prática, como é desenhar percursos tão diferentes entre si e garantir que o corredor viva algo que ele não encontra em nenhum outro lugar? 

Kiko: Nós desenhamos os percursos pensando na narrativa da prova. Não buscamos apenas a distância ou a altimetria mais dura; buscamos os visuais mais impactantes, as passagens mais emblemáticas. Na prática, isso significa que eu e a equipe técnica passamos dias caminhando pelas regiões, conversando com os moradores locais para descobrir aquelas trilhas secretas que não estão nos mapas. Queremos que o corredor sinta o cheiro da mata, o vento do deserto, o silêncio da neve. A garantia dessa experiência única vem da nossa curadoria obsessiva por lugares que têm alma e tragam experiência memoráveis. 

Sabine: A Fabiana está ao seu lado nessa jornada desde o início — na vida e no trabalho. Como é construir uma empresa como o Mountain Do com a esposa como parceira? E qual é o papel dela nas decisões que moldaram a marca ao longo desses 20 anos? 

Kiko: A Fabiana é o coração e a razão do Mountain Do. Construir isso ao lado dela é o que torna a jornada tão especial. Enquanto eu sou o cara das ideias loucas, de querer ir para o fim do mundo ou para o meio da selva, ela é a âncora que viabiliza tudo isso com maestria. O papel dela é fundamental na gestão, no relacionamento com os atletas e na atenção aos detalhes que fazem a nossa prova ser tão acolhedora. As decisões mais importantes da marca sempre foram tomadas em conjunto. O Mountain Do não seria o que é hoje sem a visão estratégica e a sensibilidade da Fabiana. 

Sabine: Hoje existem dezenas de provas de trail run no Brasil, cada uma com suas peculiaridades e belezas. Como o Mountain Do se diferencia num mercado tão mais competitivo do que quando vocês começaram? 

Kiko: O mercado cresceu muito, o que é excelente para o esporte. Nosso diferencial continua sendo a experiência integral e o pioneirismo. Nós não entregamos apenas um kit e um percurso bem-marcado; nós entregamos uma imersão. A qualidade da nossa estrutura, o cuidado com a segurança, a escolha de destinos inéditos e, principalmente, o clima de família, amizade e diversão que existe nas nossas provas são coisas difíceis de replicar. O atleta sabe que, ao se inscrever em um Mountain Do, ele está comprando uma experiência para a vida, com um padrão de excelência que lapidamos ao longo de mais de duas décadas. 

Sabine: Com provas em todas as regiões do Brasil e presença na América Latina, na Europa e na África, até onde o Mountain Do pretende chegar? Qual é a próxima fronteira? 

Kiko: A nossa vontade de explorar não tem limites. Temos um plano estratégico claro para os próximos anos. Na África, queremos consolidar e ampliar nossa presença com o Deserto da Namíbia, que oferece paisagens tão selvagens quanto o Sahara, mas com uma energia diferente. Na América Latina, estamos buscando expandir para novos países e biomas, levando o Mountain Do para regiões que ainda não foram exploradas pelo trail run de alto nível. E sim, a Ásia está no nosso radar. Queremos trazer provas para o continente asiático, explorando montanhas e desertos que ainda não foram tocados pelo Mountain Do. O objetivo é ter uma presença verdadeiramente global, mas sempre mantendo o padrão de excelência e a autenticidade que nos definem. Cada novo destino é uma oportunidade de criar uma experiência única que vai transformar a vida dos nossos atletas. 

Sabine: Muitos corredores fazem uma primeira prova do Mountain Do e depois seguem o circuito pelo Brasil e até pelo exterior — vários se tornaram amigos próximos. Em mais de 20 anos criando experiências para milhares de pessoas, qual é a história que mais te marcou nessa jornada? 

Kiko: É muito difícil escolher uma só, porque o trail run é feito de histórias de superação que me tocam profundamente. Uma que me marca muito é a de um menino em cadeira de rodas que completou o Mountain Do Lagoa da Conceição, em Floripa. Ele correu com o suporte extraordinário da equipe do BOPE, que se colocou inteiramente à disposição para garantir que ele pudesse viver essa experiência. Ver aquele menino cruzar a linha de chegada, cercado de apoiadores que acreditavam nele tanto quanto ele acreditava em si mesmo, foi um momento que me fez chorar e reafirmar porque fazemos isso. Outra história que me marca profundamente é a de um casal que se casou em uma chegada do Mountain Do Fim do Mundo, em Ushuaia, com as montanhas nevadas como cenário. Anos depois, encontrei esse casal em outra prova, agora com filhos pequenos, e eles me contaram que aquele casamento foi o ponto de partida para uma nova vida juntos. Ver a família que nasceu daquela experiência Mountain Do, vendo os filhos crescerem dentro dessa comunidade de trail runners, é simplesmente transformador. Essas histórias de transformação pessoal, de sonhos realizados, de famílias construídas ao redor do Mountain Do, são o verdadeiro combustível que me faz acordar todos os dias e querer organizar a próxima corrida. É por eles que o Mountain Do existe.

Galeria de Imagens

Q&A Kiko dos Santos 1 Q&A Kiko dos Santos 2 Q&A Kiko dos Santos 3 Q&A Kiko dos Santos 4 Q&A Kiko dos Santos 5 Q&A Kiko dos Santos 6 Q&A Kiko dos Santos 7 Q&A Kiko dos Santos 8 Q&A Kiko dos Santos 9 Q&A Kiko dos Santos 10
Sabine Weiler

Sabine Weiler

Jornalista (Time Runners)

Jornalista