Nutrição Esportiva

A base da evolução está no que você sustenta: Constância que constrói performance.

Por: Ana Kist Edição 60 - abril 2026
A base da evolução está no que você sustenta: Constância que constrói performance.

Fala, galera! Já se arrependeram de ter se inscrito em 14 provas de corrida lá em janeiro?

Rsrs Pois é… abril chega e junto com ele vem a realidade: ou a gente organiza a rotina e

evolui com consistência, ou fica naquele ciclo de empolgação e queda. A boa notícia? É

agora que o jogo realmente começa. É aqui que o corredor constrói resultado de

verdade.

 

Se janeiro e fevereiro foram sobre recomeço, abril marca a fase de construção. E não

existe evolução sustentável sem ajustar um dos pilares mais negligenciados: a

alimentação.

 

Bora juntos?

 

  1. Como ajustar a alimentação para sustentar a evolução

Quando o volume e a frequência de treinos aumentam, o corpo deixa de responder bem

à lógica de “comer intuitivamente” ou “comer saudável apenas”. Agora, entra

estratégia.

A literatura já é bem clara: corredores que treinam regularmente precisam de um ajuste

proporcional na ingestão de energia, principalmente de carboidratos, que são o

principal combustível para o exercício de endurance. Diretrizes do American College of

Sports Medicine indicam uma ingestão entre 5–7 g/kg/dia para treinos moderados e

podendo chegar a 7–10 g/kg/dia em fases mais intensas (Thomas et al., 2016).

Além disso, não adianta só olhar o total do dia. A distribuição ao longo do dia faz

diferença direta na performance e na recuperação. Estudos recentes mostram que

manter níveis adequados de glicogênio muscular melhora não só o rendimento, mas

também reduz percepção de esforço e risco de fadiga precoce (Burke et al., 2021).

“Mas nutri, esse carbo todo não gera pico glicêmico? E isso não é ruim?”

Essa preocupação faz sentido, mas fora de contexto esportivo. Calma que eu explico.

Durante o exercício, o corpo funciona de forma completamente diferente do estado de

repouso. A contração muscular ativa mecanismos independentes da insulina para

captação de glicose, principalmente via translocação do transportador GLUT-4 para a

membrana celular (Holloszy, 2005; Richter & Hargreaves, 2013).

 

Sem rodeios:

 

Mesmo com menor ação de insulina, o músculo consegue captar glicose de forma

eficiente durante e após o exercício. Além disso, o exercício aumenta a sensibilidade à

insulina por várias horas (até 24–48h), o que melhora a utilização da glicose e reduz o

impacto negativo de picos glicêmicos no contexto de quem treina regularmente.

O que você precisa aprender é como distribuir esse carboidrato ao longo do dia.

 

Estratégias como:

  • Fracionar a ingestão de carboidratos
  • Priorizar consumo no pré e pós-treino
  • Ajustar quantidade conforme intensidade do treino

fazem com que a resposta glicêmica seja mais estável e funcional.

Estudos mostram que a periodização de carboidratos ao longo do dia e da semana (o

chamado carbohydrate periodization) melhora adaptações metabólicas e performance

sem prejuízos à saúde metabólica.

Isso reforça o ponto central:

Não é sobre evitar carboidrato. É sobre usar o carboidrato como ferramenta de

performance e consistência.

 

  1. Estratégias nutricionais para treinos mais frequentes

 

Com o aumento da frequência semanal, um erro comum é manter o mesmo padrão

alimentar e esperar que o corpo acompanhe e aqui entram três pilares importantes:

Pré-treino estruturado

Já foi dito aqui, mas sempre válido lembrar: treinar em jejum pode até funcionar em

alguns contextos (como rodagens leves), mas quando a carga aumenta, isso pode

comprometer a qualidade do treino.

Iniciar treinos com baixa disponibilidade de carboidrato reduz a intensidade sustentada

e aumenta o estresse fisiológico.

Recuperação entre sessões

Quando há treinos em dias consecutivos (ou até dois no mesmo dia), a reposição de

glicogênio precisa ser eficiente. A recomendação atual gira em torno de 1,0–1,2 g/kg de

carboidrato nas primeiras horas pós-treino para otimizar a recuperação (Jäger et al.,

2017).

Proteína adequada, mas sem exageros

A proteína tem papel importante na recuperação muscular, com recomendações entre

1,6–2,2 g/kg/dia (Morton et al., 2018).

 

MAS ATENÇÃO aqui vai um ponto importante: mais proteína não compensa falta de

carboidrato, erro clássico em corredores.

 

E onde entra a estratégia 4:1 nutri?

 

Você já deve ter visto vários recovery drinks no mercado com a proporção 4:1

(carboidrato:proteína) e, por incrível que pareça, isso não é marketing aleatório, é

fisiologia aplicada.

 

Após o treino, especialmente corrida, o corpo entra em um estado de:

  • depleção de glicogênio muscular
  • microlesões nas fibras musculares
  • aumento do estresse metabólico

E adivinhem?? O carboidrato é o protagonista da recuperação nesse momento.

Isso porque:

 

  1. Ele é o principal responsável por repor o glicogênio muscular, que vai determinar

a qualidade do próximo treino

  1. Estimula liberação de insulina, que além de ajudar na reposição de glicogênio,

também favorece o ambiente anabólico

 

Já a proteína entra como coadjuvante estratégico:

 

  • Fornece aminoácidos para o reparo das microlesões musculares causadas pelo

impacto e pela contração repetitiva da corrida

  • Estimula a síntese proteica muscular, essencial para adaptação ao treino

Estudos mostram que combinar carboidrato com proteína no pós-treino pode aumentar

a taxa de ressíntese de glicogênio quando a ingestão de carboidrato não é suficiente e,

com isso, melhorar marcadores de recuperação e reduzir dano muscular.

Depois de treinos mais intensos ou longos:

  • Priorize carboidrato
  • Inclua uma quantidade moderada de proteína
  • Não inverta essa lógica

Exemplo simples:

  • Iogurte + fruta + granola
  • Pão + ovo + suco
  • Vitamina de fruta com aveia e proteína

O erro mais comum?

Transformar o pós-treino em uma refeição hiperproteica e pobre em carboidrato.

E aí acontece exatamente o oposto do que o corredor precisa:

  • Recuperação incompleta
  • Queda de rendimento no treino seguinte
  • Sensação de fadiga acumulada e a famosa lesão!

 

  1. Comer para manter constância, não apenas performance

Talvez esse seja o ponto mais importante dessa fase.

Muita gente ainda enxerga a nutrição como algo voltado apenas para o dia da prova ou

treinos longos. Mas o que sustenta evolução não é o pico, é a constância.

Baixa ingestão energética crônica pode levar ao que a ciência chama de baixa

disponibilidade energética, condição associada a queda de performance, alterações

hormonais, maior risco de lesões e até impacto na saúde óssea (Mountjoy et al., 2018).

 

E aqui entra uma virada de chave importante:

 

Comer não é só para performar melhor hoje. Comer é para conseguir treinar amanhã,

depois e na próxima semana, isso se chama RECUPERAÇÃO MUSCULAR EFICIENTE.

Evoluir na corrida não é sobre fazer mais, é sobre sustentar o que você faz.

Abril marca exatamente esse momento: sair da empolgação inicial e entrar em uma fase

mais estratégica, mais consistente e muito mais inteligente.

No fim das contas, o corredor que evolui não é o que treina mais forte por alguns dias…É

o que consegue treinar bem por meses.

 

E isso passa, diretamente, pelo que você coloca no prato todos os dias.

 

Recado dado, um beijo da nutri e até mês que vem!

Ana Kist

Ana Kist

Nutricionista (Time Runners)

Nutricionista