Recordes, quedas e reconstrução. Nacho Erario fala sobre aceitação, evolução e o caminho real por trás do alto rendimento.
Nacho Erario atravessa um dos momentos mais profundos da sua carreira esportiva. Depois de um 2025 marcado por lesões, o atleta argentino não apenas voltou a competir no mais alto nível, como o fez reafirmando uma ideia essencial: nem todos os corpos correm da mesma forma e nem todos os processos são lineares.
Recordista Sul-Americano nos 25 quilômetros, 61’09 na Meia Maratona de Barcelona e melhor sul-americano nos 21K por três anos consecutivos (2023, 2024 e 2025), Nacho construiu o seu caminho com paciência, constância e uma escuta cada vez mais consciente do próprio corpo. Atleta Adidas e representante da Seleção Argentina, hoje se reconhece mais maduro, especialmente diante do grande desafio ainda pendente: a maratona.
Na edição de fevereiro da Revista Runners Brasil, conversamos com ele sobre corpo real e corrida real, aceitação, evolução e consistência. Sobre aprender a frear, recomeçar e se sustentar ao longo do tempo. E também sobre o presente imediato: sua preparação e expectativas como atleta de elite para os 21K de Santa Fe, no próximo dia 15 de março.
Uma conversa sincera com um corredor que entende que o verdadeiro progresso nem sempre se mede em tempos, mas na forma como se percorre o caminho.
NACHO ERARIO – Cuerpo real, corrida real
Aceitar, evoluir e se sustentar no tempo
Nacho Erario não disfarça o momento mais difícil da sua carreira. Não romantiza. Nomeia como foi: um período duro, atravessado por lesões, ansiedade e depressão, no qual o corpo deixou de responder e a mente precisou aprender a se sustentar sem o refúgio habitual da corrida. “Foi um golpe muito forte perder o Mundial e compromissos importantes estando no auge da minha carreira”, reconhece. Pela primeira vez, aquilo que sempre canalizou correndo precisou encontrar outro espaço: o acompanhamento psicológico.
O ano de 2025 o obrigou a frear quando tudo parecia estar em ascensão. Mas, como costuma acontecer nos processos reais — aqueles que não aparecem nos resultados —, a vida seguiu em paralelo. Nesse mesmo período, chegaram dois acontecimentos luminosos que ressignificaram tudo: o primeiro aniversário do seu filho e o seu casamento. “Muitas coisas aconteceram em pouco tempo”, diz. E nesse emaranhado emocional, Nacho começou a construir uma versão mais consciente de si mesmo.
“Não basta chegar. No alto rendimento, o mais difícil é se manter.” – Nacho
Aprender a ler o corpo
Depois de mais de uma década no alto rendimento, Erario entende que muitos aprendizados chegam pelo caminho mais desconfortável: as lesões. “O corredor aprende da pior forma”, admite. Hoje, aos 30 anos, garante que consegue identificar sinais precoces que antes ignorava. Em um ambiente extremamente competitivo, onde parar parece sinônimo de perder, frear a tempo se torna um ato de inteligência esportiva.
Nem todas as lesões nascem do treinamento. No seu caso, o problema esteve mais ligado à saúde geral do que à carga de trabalho. Ainda assim, a mensagem é clara: as pausas também fazem parte do processo. O rendimento não é uma linha reta, mas um ciclo de picos, platôs e quedas. O verdadeiro desafio é manter o corpo em bom estado pelo maior tempo possível, independentemente do calendário.
Sua rotina continua sendo sagrada. O treino é inadiável, mesmo que seja preciso mudar horários e reorganizar a vida adulta. “É preciso ter imaginação e estratégia para dar conta de tudo”, explica. Ouvir o corpo, correr devagar quando é hora de correr devagar, não forçar. Para Nacho, aí está a chave de uma carreira atlética mais longa.
“Ouvir o corpo e correr devagar quando é preciso correr devagar é o que te dá uma vida atlética mais longa.” – Nacho Erario
A meia maratona como território próprio
Nesse contexto de maturidade e ajustes finos, os resultados voltaram a aparecer. O Recorde Sul-Americano nos 25 quilômetros, conquistado em uma distância e data pouco usuais, confirmou que o nível seguia intacto. A marca, inclusive, equivale a um registro sólido em meia maratona. Mas foi em Barcelona que Nacho viveu uma das corridas mais significativas da sua trajetória recente.
Correr no pelotão ao lado de nomes da elite mundial como Abdi Nageye e Amanal Petros, e até se arriscar puxando o grupo por um quilômetro, foi uma experiência que reforçou sua identidade competitiva. “Começamos um pouco mais lento e só aceleramos no km 13–14. Eu gostaria de ter batido o recorde nacional ali. A marca final não fez justiça às sensações que tive. Ainda assim, a meia maratona voltou a confirmar por que é a minha distância favorita. Simplesmente aspiro melhorar um pouco em relação ao ano passado. Este ano será difícil, Carlos Díaz e Catrofe estão muito fortes, vamos ver como eles chegam também”, conclui Nacho.
Os 21 quilômetros combinam velocidade e resistência. Exigem método, obstinação e tolerância ao sofrimento. “Gosto de sofrer”, diz entre risos. E não é por acaso: treinar bem essa distância implica compreender e aplicar os princípios do treinamento moderno de fundo, do limiar aeróbico ao anaeróbico. É uma prova popular, muito concorrida e profundamente honesta.
“A meia maratona combina velocidade e resistência. É uma distância honesta, ela mostra exatamente como você está.” – Nacho
A maratona, o respeito intacto
A maratona segue sendo o grande desafio pendente. Nacho tem respeito, não medo. Sabe que ainda não conseguiu render 100% nos 42K, mas algo mudou. A experiência, a acumulação de quilômetros e a maturidade fisiológica, inclusive depois de se tornar pai, começam a jogar a favor. O plano segue claro: tentar duas maratonas por ano até que “aconteça”.
Ajustou detalhes, refinou a preparação e sustenta um sonho que não abandona: correr em 2h08’. Para ele, não é fantasia, mas um objetivo realista. O melhor Nacho maratonista, acredita, ainda está por aparecer.
21K Santa Fe – Voltar a correr em casa
”Estou com muita vontade de correr na elite de 21k Santa Fe”, diz Nacho.
O presente imediato o encontra entusiasmado. No próximo dia 15 de março, Nacho será atleta de elite nos 21K de Santa Fe, uma prova que ele correrá pela primeira vez e que chega após anos de pedidos do público. “Estou com muita vontade de ir”, confessa. Além do componente emocional de competir na Argentina, a corrida se encaixa perfeitamente na sua preparação rumo à maratona.
A base de quilometragem é sólida. O calendário inclui provas de 10K, várias meias maratonas e um cuidado especial para não descuidar do volume. Tudo soma. Tudo constrói.
“Nem o ruim nem o bom duram para sempre. Ter consciência do momento em que você está traz mais equilíbrio.” – Nacho Erario
Mais do que resultados
Ser atleta Adidas e representante da Seleção Argentina implica uma responsabilidade constante. Não basta chegar: é preciso se manter, render e representar. Aos 30 anos, Nacho sente que está exatamente onde sonhava estar quando tinha 16 ou 17. E hoje, pela primeira vez, pode dizer que aproveita plenamente o presente.
Desde Mendoza — a província onde nasceu e que escolheu para viver e treinar —, sua mensagem final é simples e poderosa: analisar sempre as causas de uma lesão, e não apenas os sintomas, voltar aos poucos, ter paciência. O corpo tem memória, mas precisa de tempo.
E também entender que nem o ruim nem o bom duram para sempre ajuda a percorrer o caminho com mais equilíbrio.
Porque, no fim, como ele próprio aprendeu, o verdadeiro progresso nem sempre se mede em tempos. Às vezes, mede-se na forma de estar, de aceitar e de continuar correndo.

